LOGINCapítulo 123: Linhas de FrentePOV: Luna Carvalho— Você tem certeza de que precisa ir pessoalmente, Gabriel? — perguntei, ajustando a gola da minha jaqueta de couro enquanto acompanhava os passos rápidos do meu marido pelo corredor do andar térreo.— A reunião com os acionistas minoritários do grupo argentino devia ter acontecido no mês passado, Luna — Gabriel respondeu sem desacelerar, checando as horas no relógio de pulso antes de pegar a pasta executiva sobre o aparador. — O Felipe conseguiu segurar os caras até onde deu, mas se eu não sentar com eles na mesa hoje em Buenos Aires, a fusão das operadoras de logística vai travar por pura especulação da imprensa.— É apenas um bate-volta, então?— Pouso às onze na capital argentina, mato o almoço de negócios, assino os termos de compromisso e pego o jato de volta no final da tarde — ele garantiu, parando em frente à porta de saída e virando-se para mim. — Passo no berçário antes de ir para o heliporto.Acompanhei Gabriel até o
Capítulo 122: O Valor da HerançaPOV: Luna CarvalhoA xícara de café esfriava ao lado da minha caneta enquanto eu rabiscava as primeiras anotações no bloco de papel. Na tela do notebook, a planilha enviada pela editora trazia números difíceis de ignorar: três tiragens esgotadas e a proposta formal para a tradução do livro na América Latina. Eu encarava aqueles dados tentando assimilar o impacto da minha nova realidade quando a porta do cômodo se abriu sem cerimônia.Gabriel passou pelo batente segurando uma pasta de couro preta em uma das mãos e o paletó cinza jogado sobre o ombro oposto. Ele trazia a camisa social levemente amassada e os primeiros botões abertos, ostentando aquele olhar firme de quem acabara de encerrar uma batalha exaustiva na diretoria da holding.— O juiz assinou a sentença faz vinte minutos — ele declarou sem rodeios, caminhando direto até a minha mesa e jogando a pasta pesada sobre a madeira de jacarandá.Aproximei o corpo da mesa e puxei os documentos. As
Capítulo 121: As Águas da PromessaPOV: Gabriel MontenegroA manhã de domingo amanheceu ensolarada, com uma brisa suave que movimentava as folhas das jabuticabeiras no jardim da mansão. A Capela de Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins, fora reservada para uma cerimônia íntima, fechada apenas para a família e os amigos mais próximos. Não havia fotógrafos de imprensa, nem colunistas sociais. Após meses sob os holofotes e as turbulências da mídia, a decisão de manter o batizado de Helena Arthuria estritamente privado fora uma prioridade absoluta para mim e para Luna.Ajustei os abotoamentos de prata no punho do meu camisa antes de vestir o paletó cinza-claro de corte impecável. Na suíte principal, o ambiente estava calmo. Luna terminava de arrumar a nossa filha sobre a grande cama. Minha esposa usava um vestido midi de renda na cor off-white, com mangas compridas e gola alta discreta que destacava a postura elegante que lhe era natural. Seus cabelos escuros estavam presos em um pentea
Capítulo 120: O Peso do SilêncioPOV: Gabriel MontenegroO estalar discreto da madeira na lareira acesa era o único som que cortava o silêncio da biblioteca da mansão passadas das dez da noite. A casa já estava recolhida. Helena dormia no berço após a mamada do início da noite, e dona Helena recolhera-se ao seu quarto depois de um jantar leve.Eu estava sentado na poltrona de couro marrom, com o paletó pendurado no encosto e a gravata frouxa no colarinho. Na mesa de centro, descansavam uma taça de uísque intocada e um exemplar com a capa dura do livro de Luna. Passei os dedos pela textura da lombada, relendo o nome estampado em letras prateadas: Luna Carvalho.O evento na livraria fora um sucesso absoluto. Os jornais do dia seguinte já preparavam matérias elogiando a maturidade da prosa e a voz autêntica da nova autora. Ver Luna no palco, respondendo com serenidade e altivez aos questionamentos dos jornalistas, trouxera-me uma sensação profunda de dever cumprido. Eu não a havia sa
Capítulo 119: A Primeira VozPOV: Luna CarvalhoO espaço cultural no segundo andar da tradicional Livraria da Vila, nos Jardins, estava preenchido por um murmúrio constante de conversas e o tilintar discreto de taças de champanhe. O ambiente fora decorado com elegância sóbria: arranjos de orquídeas brancas sobre os aparadores de madeira, luz quente e pilhas do meu livro organizadas em pequenas torres ao longo das mesas de destaque.Por se tratar da minha estreia como autora, a editora planejara um evento intimista — um coquetel de lançamento com bate-papo mediado por Camila, voltado para jornalistas do caderno de cultura, críticos literários e um grupo seletivo de convidados.Eu vestia um macacão alfaiataria em tom creme, com caimento impecável e linhas retas que me davam uma presença firme, porém acessível. Meus cabelos escuros estavam presos num coque baixo alinhado. Ajeitei o microfone de lapela preso ao decote reto da peça, sentindo um frio sutil na espinha enquanto observava
Capítulo 118: A Manhã do RecomeçoPOV: Luna CarvalhoA luz suave das sete da manhã atravessava as frestas da cortina da suíte, desenhando linhas douradas sobre o lençol de linho. Abri os olhos devagar, sentindo o corpo relaxado e uma sensação de leveza que há meses parecia inalcançável. Gabriel ainda dormia ao meu lado, de bruços, com o braço pesado e protetor repousado sobre a minha cintura. A respiração dele era profunda e cadenciada, mantendo o peitoral largo contra as minhas costas.Virei-me devagar dentro do abraço dele para não acordá-lo. O rosto de Gabriel, livre das linhas de tensão que costumavam marcar sua testa durante as tempestades corporativas e judiciais, parecia mais jovem e sereno. Levei os dedos aos cabelos escuros dele, tirando uma mecha da testa com um carinho calmo.O som suave do chorinho de Helena vindo do babá eletrônico na cabeceira quebrou o silêncio do quarto. No mesmo instante, os olhos verdes de Gabriel se abriram. Ele piscou algumas vezes, focando em







