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O Almoço

last update publish date: 2026-06-01 04:56:01

POV de Gabriela

A luz do sol entrou pela janela como uma faca. Abri os olhos devagar, a cabeça latejando, a boca seca que nem papel. O teto do meu quarto tava girando. Não, não tava girando. Era a minha cabeça que tava.

Fechei os olhos de novo. A noite passada voltou aos pedaços. O bar. O uísque. O Adrian. A risada dele. "Até que você é bonitinha, hein." "Até podia casar com você."

Balancei a cabeça. Que maluquice.

Tateei a mesa de cabeceira e peguei o celular. A tela acendeu. E o meu coração disparou.

09h47.

"Merda!"

Pulei da cama. A ressaca puxou cada músculo do meu corpo, mas não tinha tempo pra reclamar. Enfiei a primeira roupa que encontrei, prendi o cabelo num coque frouxo e saí correndo.

Cheguei no escritório sem fôlego. As pernas bambas, a respiração ofegante, a blusa meio torta. Parecia um bicho atropelado. E a primeira coisa que vi quando passei pela porta foi a Mariana.

Ela tava encostada na mesa da recepção, uma xícara de café na mão, os olhos verdes me varrendo de cima a baixo.

"Gabriela." A voz dela saiu doce. Doce demais. "Que bom que você chegou."

E então ela virou a xícara.

O café escorreu pelo mármore, formando uma poça escura aos pés dela. Algumas gotas respingaram no meu sapato.

"Limpe isso."

Olhei pra poça. Depois pra ela. Depois pra porta da sala do Alexandre, lá no fundo do corredor.

Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo. E me abaixei.

Peguei um pano. Comecei a limpar. Cada movimento era lento, calmo, sem pressa. A Mariana queria me ver surtar, queria que eu chorasse, que eu gritasse, que eu desse um escândalo na frente de todo mundo.

Mas eu não dei.

Enquanto esfregava o chão, a minha mente viajou. Voltou pro bar. Pro uísque. Pro jeito que o Adrian sorriu quando falou que eu era bonitinha. A voz dele. "Até podia casar com você."

Soltei uma risada baixa, involuntária.

"Ele não é feio", murmurei pra mim mesma, sacudindo a cabeça.

A Mariana ouviu. "O que você disse?"

"Nada."

Continuei limpando. Mas o sorriso não saiu dos meus lábios. Era um sorriso besta, um sorriso que não tinha razão de estar ali. Talvez fosse o resquício do álcool. Talvez fosse outra coisa.

Foi quando uma sombra tapou a luz.

Levantei os olhos. Alexandre.

Ele tava parado no corredor, os olhos castanhos fixos em mim. Não parecia bravo. Nem preocupado. Parecia... confuso.

"Gabriela."

"Bom dia", respondi, me levantando.

Ele olhou pro pano na minha mão, pro chão ainda úmido, pra Mariana que agora fingia estar ocupada com uns papéis. Depois voltou pra mim.

"Pode ir na minha sala ao meio-dia? Preciso falar com você."

"Meio-dia?"

"É. Na hora do almoço."

A Mariana deu um passo na direção dele. "Alex, nós tínhamos combinado de almoçar juntos hoje."

"Desmarquei." Ele nem olhou pra ela. Os olhos continuavam grudados em mim. "Meio-dia, Gabriela. Não se atrase."

E saiu.

Fiquei parada, o pano pingando na minha mão. O coração batia num ritmo que eu não sabia se era esperança ou medo.

A Mariana se virou pra mim. Os olhos verdes faiscavam. O sorriso doce tinha sumido. No lugar, tinha uma raiva fria, controlada, muito mais perigosa.

"Minha sala. Agora."

Entrei atrás dela.

A sala tava impecável, como sempre. A mesa de mogno, a cadeira de couro, a janela com vista pra cidade. A Mariana se sentou e puxou uma pilha de documentos do canto da mesa. Uma pilha enorme. Daquelas que levam horas pra conferir.

"Você vai revisar tudo isso aqui."

"Tudo?"

"Tudo. Cada página. Cada linha. Cada número." Ela sorriu. "E se não terminar até o meio-dia, não vai almoçar."

Senti o sangue subir. "Isso é impossível. São centenas de páginas."

"Então é melhor começar logo, não acha?"

Ela me estendeu a pilha. Peguei. Pesava. Pesava muito.

Sem mais uma palavra, me virei e saí. Mas antes de fechar a porta, ouvi a voz dela, baixinha, quase um sussurro.

"Bom trabalho, Gabrielazinha."

Apertei os dentes e fui pra minha mesa no corredor.

As horas seguintes foram um borrão de números e gráficos. Minha cabeça ainda doía, meus olhos ardiam, mas eu não parei. Não podia parar. Se parasse, ela ganhava. E eu não ia dar esse gosto pra ela.

Onze e quarenta. Onze e cinquenta. Onze e cinquenta e cinco.

Fechei a última pasta. Terminei.

Me levantei, as pernas bambas de cansaço, e fui até a sala da Mariana. Ela tava ao telefone, rindo de alguma coisa. Quando me viu entrar com a pilha de documentos revisados, o sorriso morreu.

"Terminei", falei, colocando as pastas na mesa dela.

Ela me olhou. Depois olhou pras pastas. Depois me olhou de novo. E eu vi. Vi a frustração nos olhos verdes. Vi a raiva. Vi a impotência.

"Nem tava tão difícil assim", completei, e saí antes que ela pudesse responder.

Meio-dia em ponto. Sala do Alexandre.

Parei na frente da porta. Respirei fundo. Bati.

"Entra."

Ele tava de pé, perto da janela, as mãos nos bolsos. Quando me viu, esboçou um sorriso pequeno. Triste.

"Você veio."

"Você me chamou."

"Sim." Ele deu um passo na minha direção. "Queria te convidar pra almoçar."

"Almoçar?"

"É. Você e eu. Como antigamente."

Fiquei parada. O coração martelando. Não sabia o que sentir. Raiva? Saudade? Medo?

"A Mariana não vai gostar disso."

"Eu não perguntei pra ela." Ele se aproximou mais. "Gabriela, eu... eu sinto saudade. Saudade de nós. Saudade de como as coisas eram antes."

"Antes de você anunciar noivado com a minha estagiária?"

Ele fechou os olhos. "Antes de tudo. Antes dessa bagunça."

"Você criou essa bagunça, Alexandre. Você."

"Eu sei. E é por isso que eu quero te explicar. Mas não aqui. Não agora." Ele me olhou. "Me deixa te levar pra almoçar. Só isso. Uma hora. Sem Mariana, sem empresa, sem ninguém. Só nós dois."

Uma parte de mim queria dizer não. A parte que ainda sangrava. A parte que tinha limpado café do chão naquela manhã.

Mas outra parte lembrou das palavras dele na escada. "Eu fiz aquilo por você." "Você precisa confiar em mim."

E talvez fosse burrice. Talvez fosse esperança. Mas eu assenti.

"Tá bem. Uma hora."

Ele sorriu. Um sorriso de alívio.

"Então vamos."

Saímos da sala juntos. Ele segurou a porta pra mim. E foi quando eu vi.

Do outro lado do corredor, a Mariana tava parada. Imóvel. Os olhos verdes cravados em nós dois.

Não disse nada. Não fez nada. Mas o olhar dela...

O olhar dela prometia guerra.

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