เข้าสู่ระบบPOV de Gabriela
O bar ficava numa esquina mal iluminada, longe dos holofotes e dos ternos caros. Era o tipo de lugar onde o chão era de madeira gasta, as mesas manchadas de copo e o ar cheirava a cerveja derramada e fritura. Perfeito. Ninguém ali me conhecia. Ninguém ali me julgava. Sentei num canto escuro, longe do balcão, e pedi a primeira dose. Depois a segunda. Depois a terceira. O álcool descia queimando, mas pelo menos fazia o barulho na minha cabeça diminuir. A imagem da Mariana sorrindo enquanto eu saía da sala. O Alexandre acreditando nela. A minha vida desmoronando. "Eu não esperava te encontrar aqui." Levantei os olhos e quase deixei o copo cair. Adrian Vasconcelos estava em pé do meu lado, as mãos nos bolsos, um sorriso curto nos lábios. Sem terno. Sem gravata. Só uma camisa escura e um ar de quem já tinha bebido algumas. "O que um riquinho como você tá fazendo num bar tão humilde?", perguntei, a voz mais arrastada do que eu queria. Ele puxou uma cadeira e sentou sem pedir licença. "Eu tô fazendo a mesma coisa que você. Tô bebendo." Fez um sinal pro garçom e pediu dois uísques. Um pra ele. Outro pra mim. O meu copo já tava vazio de novo. "Você não devia estaraqui", murmurei. "Por quê?" "Porque isso aqui é lugar de gente que não tem mais nada a perder." Ele me olhou por um instante, os olhos escuros fixos nos meus. "E você acha que eu tenho?" Antes que eu pudesse responder, as lágrimas começaram a descer. Quietas. Grossas. Escorrendo pelo rosto sem pedir licença. "Por que isso tá acontecendo comigo?" Adrian não respondeu. Só ficou ali, o copo na mão, esperando. "O homem que eu amo tá noivo de uma víbora." Limpei o rosto com as costas da mão, mas não adiantava. "E pra piorar, eu sou a secretária dela. A secretária. Eu que construí metade dos contratos daquela empresa, e agora sirvo café pra uma garota de vinte e dois anos que nem sabe ler um balanço." As palavras saíram atropeladas, uma em cima da outra, misturadas com soluços e goles de uísque. Adrian ouvia. Não me interrompia. Não fazia aquelas perguntas idiotas de quem quer consolar. Só ouvia. E então eu lembrei. "Você sabia." "O quê?" "Você me disse pra não confiar no Alexandre. Antes do anúncio. Você sabia que ele ia fazer aquele pedido." Adrian desviou o olhar. "Gabriela..." "Como você sabia disso? Como?" Ele girou o copo na mão. "Eu só ouvi numa conversa." "Que conversa? De quem? Como assim você ouviu?" "Tem coisas que eu não posso explicar agora." "Por que todo mundo diz isso? Primeiro o Alexandre, agora você." Bati o copo na mesa com mais força do que pretendia. "Que droga, Adrian. Eu confiei em você." Ele ergueu os olhos. "E ainda pode confiar." "Não posso confiar em mais ninguém." "Pode, sim." Ele se inclinou um pouco, os cotovelos na mesa. "Inclusive, você não precisa trabalhar pro Alexandre. Vem trabalhar pra mim." Soltei uma risada curta. "Você com essa conversa de novo." "Tô falando sério. Você é inteligente, competente, conhece o mercado. Na Vasconcelos Corp você teria o cargo que merece." "O Alexandre precisa de mim." "Gabriela, ele te rebaixou a secretária da amante. Ele não precisa de você. Ele precisa de um bode expiatório." "Não fala assim dele." "Por quê? Você ainda acredita nele?" "Não sei. Não sei mais de nada." Afoguei o resto do uísque. "Só sei que não vou abandonar ele." "Você é teimosa." "E você é insistente." Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. "Então vamos beber." E bebemos. As horas seguintes foram um borrão. Mais uísque, mais risadas que não faziam sentido, mais desabafos que eu nem lembrava de ter feito. O bar foi esvaziando, o garçom começou a recolher as cadeiras, e a gente ainda tava ali. "Preciso ir pra casa", murmurei, tentando me levantar. As pernas bambearam. Adrian me segurou pelo braço. "Você não vai conseguir nem andar até a porta." "Consigo, sim." Não consegui. Ele me carregou até o carro, me colocou no banco do passageiro, e eu dormi antes mesmo do motor ligar. Acordei com o carro parando em frente ao meu prédio. A cabeça latejava. A boca tava seca. E o Adrian me olhava com aquele sorriso torto. "Chegamos, princesa." "Não me chama de princesa." "Então como você quer que eu chame?" "Me chama de Gabriela. Ou de chefe. Qualquer dia eu ainda vou ser sua chefe." Ele riu. "Quem sabe." Me ajeitei no banco, tonta, e abri a porta. Mas antes de sair, a voz dele me segurou. "Ei, Gabriela." "O quê?" Ele apoiou o braço no volante, a cabeça inclinada, os olhos brilhando de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse outra coisa. "Até que você é bonitinha, hein." "O quê?" "É. Bonitinha." Ele sorriu, um sorriso brincalhão, sem maldade. "Até podia casar com você." Soltei uma risada que saiu mais alta do que devia, o corpo ainda mole, a cabeça girando, mas alguma coisa dentro de mim tava leve. Leve pela primeira vez em semanas. "Eu sou comprometida, ô playboy." Ele ergueu as sobrancelhas. "Comprometida com um homem que vai casar com outra?" "É. Com esse aí mesmo." "Então tá." Ele deu de ombros, ainda sorrindo. "Boa noite, Gabriela." "Boa noite, Adrian." Saí do carro e subi as escadas do meu prédio devagar, me apoiando no corrimão. A cabeça girava. O coração tava estranho. Não era mais tristeza. Era uma confusão quente que eu não sabia nomear. Antes de entrar no apartamento, olhei pela janela do corredor. O carro dele ainda tava lá. E ele ainda tava me olhando.POV de ChaseO quarto tava escuro. Só a luz do celular iluminava meu rosto. A mensagem dela."Boa noite, Chase."Sorri. Um sorriso de verdade."Boa noite, Him.""Promete que a gente se vê amanhã?""Prometo.""Promete que não vai desaparecer?""Prometo.""Então tá. Até amanhã.""Até."Desliguei. Olhei pro teto. Ela era diferente. Não era como as outras. Ela era... real.Mais cedo, fui visitar minha mãe.A casa ficava num bairro afastado. O Alex comprou depois do incêndio. Pra ela ter um lugar.Entrei no quarto. O cheiro de queimado ainda impregnava o ar. Ela tava na cama. O corpo coberto de ataduras. As máquinas ao lado.Os olhos ainda existiam. Mas o rosto era uma massa de cicatrizes."Oi, filho.""Oi, mãe."Sentei ao lado. Peguei a mão dela. Fria."Como você tá?""Dói. Como sempre."Assenti. Sem saber o que dizer."Chase. Você vai sair hoje?""Vou. Num show.""Que bom. Vai se divertir.""Vou."Ela sorriu. Um sorriso fraco."Você merece. Você é jovem. Você tem que viver."Olhei pra el
POV de Him A luz do sol entrou pela janela e me acordou. Eu abri os olhos devagar. O quarto tava silencioso. O cheiro de café subia da cozinha. E alguém batia na porta. "Him. Abre." Lisa. A voz dela tava séria. Mais séria que o normal. Levantei. Abri a porta. Ela tava parada. Os braços cruzados. Os olhos vermelhos. De cansaço. De preocupação. De raiva. "Bom dia pra você também." "Onde você estava?" "Com o Chase." "A noite inteira?" "É." "Fazendo o quê?" "Nada." "Nada." "É. Nada." Ela me olhou. Por um longo tempo. Como se quisesse arrancar a verdade de mim. Mas eu não ia dar. Não ainda. "Você tá diferente." "Tô não." "Tá. Seu cabelo. Sua roupa. Seu sorriso. Você tá... radiante." "São as luzes do show." "Não tem show agora, Him." "Então é o sol." Ela suspirou. Passou a mão no rosto. "Ele te beijou?" "Não." "Ele te tocou?" "Não." "Ele fez alguma coisa?" "Não." "Então o que vocês fizeram a noite inteira?" "A gente conversou." "Conversou." "É. Sobre a vida. So
POV de Lisa A música batia no peito como um segundo coração. As luzes piscavam em vermelho e azul. A multidão gritava, pulava, levantava as mãos. O show dos Winds tava lotado. A Him dançava do meu lado, o cabelo escuro voando, o sorriso enorme. "SEGURA ESSA!" Joguei o copo pra ela. Ela pegou no ar. Ri. Bebeu. "VOCÊ TÁ FELIZ?" "TÔ!" A gente dançou mais. A música mudou. Mais rápida. Mais intensa. A Him levantou as mãos. Eu fiz o mesmo. O Miguel apareceu. O sorriso fácil. "E aí, meninas?" "Miguel!" A Him abraçou ele. Ele olhou pra ela. Aquele olhar. Que ele tentava esconder. "Você tá linda, Him." "Obrigada." "Quer dançar?" "Tô com a Lisa." "Depois?" "Depois a gente vê." Ele assentiu. O sorriso fraco. Tentou falar algo. Desistiu. Como sempre. O Miguel me puxou pra um canto. "Lisa. Eu gosto dela. Muito." "Eu sei." "Eu tentei falar. Mas ela não me vê." "Você precisa ter paciência." "Paciência? Eu tenho há dezessete anos." "Não desiste. Um dia ela chega lá." Ele sorr
POV de GabrielaCinco anos depoisA casa tava cheia. Como sempre. A Bruna tinha trazido bolo de chocolate a receita da mãe dela, que ela guardava a sete chaves. A Chloé tinha trazido vinho e uma caixa de doces que o Michael tinha comprado em Paris. E eu tinha trazido a minha barriga de tanto comer. Mas a conversa tava boa. Daquelas de tarde inteira. Sem pressa. Sem telefone. Só a gente."Vocês viram?" A Chloé disse, o celular na mão. "O Michael ganhou o prêmio de melhor artista do ano. Olha a capa da revista."Ela mostrou a tela. O Michael, de terno, sorrindo, ao lado de uma pintura enorme. Uma mulher. De costas. Olhando o mar. A Mariana. Ele nunca deixou de pintá-la. Nunca."Ele tá famoso." A Bruna riu. "Quem diria. O menino do barraco. Agora expõe em Paris.""Ele sempre teve talento." Falei. "Só precisava de uma chance.""E você deu essa chance." A Chloé me olhou. "Você e o Adrian. Vocês acreditaram nele quando ninguém mais acreditava.""Ele merecia."A Chloé sorriu. Depois olhou pr
POV de GabrielaPresenteO monitor parou.O som ecoou pelo quarto como uma sentença. Aquele apito contínuo, agudo, que corta o ar e congela o tempo. Eu olhei pra tela. A linha reta. O número zero. O coração da minha irmã tinha parado de bater."Não." A palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar. "Não. Não. Não."Eu sacudi o braço dela. Como se pudesse acordá-la. Como se fosse um sonho. Como se ela fosse abrir os olhos e sorrir e dizer que era pegadinha."Mariana! ACORDA! ACORDA, PORRA!"Nada."MARIANA!"Eu gritei. O som rasgou minha garganta. As lágrimas cegaram meus olhos. Eu apertei a mão dela. Fria. Sem vida."NÃO! NÃO FAZ ISSO! NÃO ME DEIXA! VOCÊ PROMETEU! VOCÊ PROMETEU QUE IA FICAR!"A porta abriu. O Mark entrou correndo. Parou. Olhou pra cama. Pros meus olhos. Pro monitor. E ele entendeu."Não." Ele sussurrou. "Não. Não. Não."Ele caiu de joelhos ao lado da cama. Pegou a outra mão dela. Beijou. Chorou."Mariana. Meu amor. Minha vida. Não. Não. Não."Ele levantou. Olh
POV de MarianaTrês anos depoisO quarto do hospital cheirava a flores. O Mark tinha trazido girassóis. A Lisa tinha trazido um desenho. A Him tinha trazido um ursinho de pelúcia. O Julian tinha trazido a mãozinha gordinha para segurar a minha.Três anos. Eu tinha tido três anos. Mais do que os médicos disseram. Menos do que eu queria.O Julian já andava. Já falava. Já chamava a Lisa de "mana" e a Him de "tia". Já chamava o Mark de "papai". Já chamava a Gabriela de "tia Gaby". E já me chamava de "mamãe". A coisa mais linda que eu já ouvi.Três anos.Eu vi ele andar. Vi ele falar. Vi ele crescer. Vi a Lisa entrar no ensino médio. Vi a Him fazer a primeira apresentação de ballet. Vi o Mark terminar o primeiro mural que ele pintou desde que eu adoeci. Vi a Gabriela se tornar diretora da empresa. Vi o Adrian chorar no aniversário de dez anos de casamento.Três anos.Não foram quatro. Mas foram três. E eu aproveitei cada segundo.Mas agora... agora estava acabando.Eu sentia. O corpo fraco







