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O Dia em que Ele Aprende a Te Perder
O Dia em que Ele Aprende a Te Perder
Author: Fogo Selvagem

CAPÍTULO 1

Author: Fogo Selvagem
— Sr. Lucas, a cena do acidente ainda está perigosa, o senhor não pode entrar.

— Já avisamos a equipe de resgate, a ambulância está a caminho.

— Sr. Lucas…

— Saiam! Se perdermos tempo e acontecer alguma coisa com ela, faço vocês pagarem com a própria vida!

Em meio ao barulho ensurdecedor ao redor, aquele grito furioso fez Estela Silveira despertar pouco a pouco da inconsciência do acidente.

Ela, com dificuldade, olhou para frente e viu, não muito longe, aquela silhueta alta e familiar avançando em passos largos na direção dela, como um deus descendo do céu.

Estela chorou de alívio.

Depois do acidente, ela ficou presa dentro do carro capotado por um tempo que já nem sabia dizer.

Ela achou que Lucas Farias não viria.

Antes do acidente, os dois estavam discutindo.

Tinham combinado de se encontrar na empresa na noite anterior, mas Lucas, depois de atender uma ligação logo de manhã, cancelou em cima da hora. Não atendeu nenhuma das ligações dela. Depois do acidente, Estela usou os últimos minutos de bateria para mandar a localização à secretária dele.

Ela achou que Lucas faria como sempre, ignoraria a mensagem dela.

Mas, inesperadamente…

— Bebê… ainda tem esperança… o papai chegou…

Estela olhou para o sangue que continuava escorrendo sob o corpo dela, agarrando-se à última pontinha de esperança.

Mesmo com a tontura que dava ânsia, tentou chamar por Lucas, mas, ao abrir a boca, percebeu que a garganta estava tão seca que nenhum som saía.

Mas tudo bem. Lucas já a tinha encontrado. Ela se esforçou para levantar o braço fraco, querendo acenar…

No instante seguinte, porém, Lucas passou direto por ela, sem diminuir o passo.

Estela congelou.

Achou que ele tinha se confundido.

Ela não estava com o carro da casa dos Farias, a cunhada havia levado aquele carro pela manhã. O carro em que Estela estava era o presente da mãe, e ela quase nunca usava. Era normal que Lucas não o reconhecesse.

Sem tempo para pensar, Estela reuniu as últimas forças para chamar o nome dele.

Mas a perda contínua de sangue já a deixara sem energia alguma. A voz dela saiu fraca, como o zumbido de um mosquito.

Lucas não ouviu e continuou andando, cada vez mais longe, até parar diante do carro branco que causara o acidente.

Antes que Estela pudesse entender o que estava acontecendo, Lucas abriu a porta do carro e, em seguida, tirou de lá uma mulher trêmula, abraçando-a com força.

Ela usava um sobretudo longo, o corpo era esguio, a postura delicada, uma imagem perfeita de fragilidade que despertava pena à primeira vista.

Quando viu o rosto dela, Estela sentiu o corpo inteiro gelar.

Era Jéssica Ennes, a antiga paixão de Lucas.

Na mesma hora, Estela se lembrou, o carro que vinha atrás mudava de faixa o tempo todo e, no fim, nem lhe deu tempo de reagir antes de bater, como se quisesse atingi-la de propósito.

Agora, aquele mesmo carro estava parado ali, quieto à beira da estrada, parecendo uma criança ferida e injustiçada.

E a dona dele... estava nos braços do marido de Estela.

Ela nem teve tempo de pensar no motivo de Jéssica, que estava no exterior, ter voltado de repente, nem de refletir sobre como aquela coincidência absurda podia ter acontecido.

Ela só queria salvar o bebê.

— Sr. Lucas! Ainda tem alguém dentro daquele carro!

Quando Estela tentava bater no vidro para chamar a atenção, o segurança ao lado de Lucas percebeu uma silhueta se movendo dentro do outro carro. Reconheceu o veículo, parecia familiar, e não conseguiu conter o grito.

Ao ouvir, Lucas virou a cabeça.

Dentro do carro, a mulher estava com o rosto coberto de sangue, o corpo ainda vertendo um vermelho intenso. Parecia em frangalhos, mas mesmo através das manchas era possível distinguir a delicadeza do seu rosto.

Algo naquele rosto lhe pareceu familiar.

Lucas hesitou por um instante, prestes a dizer algo, mas Jéssica, em seus braços, soltou um gemido de dor.

— Jéssica está ferida. Abram caminho para o hospital, agora.

Ele não pensou em mais nada.

— Mas, Sr. Lucas… — O segurança tentou argumentar, mas se calou ao ver o olhar frio que recebeu. — Sim, senhor.

Estela viu, incrédula, Lucas lançar-lhe apenas um olhar rápido antes de carregar Jéssica nos braços e voltar para o carro.

— Lucas! Me ajuda... ajuda o bebê... — Estela tentou gritar, mas o sangue subiu à garganta, bloqueando-lhe a voz.

Ninguém mais olhou para ela.

O carro de Lucas arrancou, levando Jéssica embora a toda velocidade.

Estela acompanhou com o olhar o veículo se afastando, até a visão se embaçar. No instante seguinte, uma dor dilacerante tomou conta do corpo inteiro, como uma onda devastadora.

Ela não conseguiu resistir. Tudo escureceu, e desmaiou novamente.
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