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CAPÍTULO 2

Author: Fogo Selvagem
— Que pena. Trouxeram ela tarde demais. A cirurgia da mãe foi um sucesso, mas o bebê não resistiu.

— E a família da paciente?

— Ninguém apareceu. Foi a própria gestante quem assinou o termo.

Quando o efeito da anestesia passou, Estela ainda não tinha superado o medo de ter escapado por um fio. Então ouviu as vozes do médico e da enfermeira ao lado.

Sem pensar, levou a mão ao ventre.

Como o médico dissera, o bebê não estava mais ali.

A barriga, antes levemente arredondada, agora estava lisa.

Nunca mais sentiria aquele pequeno coração batendo.

Ela sabia que deveria estar em prantos, desesperada. Mas, por alguma razão, não conseguia derramar uma única lágrima.

Talvez porque já tivesse chorado demais antes.

Quando o médico viu que ela acordara, perguntou como estava se sentindo e, antes de sair, ainda tentou confortá-la, disse que deveria cuidar bem da saúde, que logo teria outro bebê.

Estela apenas assentiu.

Não explicou. Sabia que nunca mais teria outro filho, aquele bebê fora roubado, assim como aquele casamento também tinha sido roubado por ela.

Ela tinha conseguido se casar com Lucas Farias, o filho mais brilhante da família Farias, de Cidade N.

Mas, para ele, ela era uma mulher calculista, e o desprezo era tanto que, na noite do casamento, ele fez questão de ir para um clube, só para humilhá-la publicamente.

E ela virou piada em toda a Cidade N.

Durante os cinco anos seguintes, a postura dele amaciou um pouco.

Quando alguém a insultava demais, Lucas às vezes até fingia bondade e a defendia.

Como dizem, ver alguém todos os dias acaba criando certa familiaridade. Talvez, depois de tanto tempo fingindo serem marido e mulher, acabasse existindo um mínimo de sentimento entre eles.

Mas ele tinha sido claro desde o início, com ela, poderia haver desejo, mas nunca amor, e jamais permitiria que ela engravidasse.

Por isso, sempre usava proteção.

Mesmo nas poucas vezes em que o impulso falou mais alto, ele a obrigava a tomar anticoncepcional depois.

Durante todos esses anos, Estela cumpriu cuidadosamente o papel da esposa, respeitando cada uma das regras dele.

Até que, três meses atrás, numa noite em que Lucas chegou bêbado, a forçou a dormir com ele.

Sem proteção.

Quando foi tomar o remédio depois, percebeu que a cartela estava vazia. Pensou em comprar mais, mas os compromissos se acumularam, e acabou esquecendo.

Achou que uma única vez não teria consequências. Mas o destino a enganou, e ela engravidou.

Durante três meses, viveu em angústia, escondendo a verdade.

Até então, quando finalmente decidiu contar tudo a ele.

Achava que aquele bebê poderia aproximá-los. Mas, a caminho do encontro, sofreu o acidente.

A mãe dela já tinha morrido, e a família Farias nunca a aceitara.

Antes da cirurgia, ela ainda se lembrava de ter visto o médico usando o celular dela para ligar para Lucas, e até mandar uma mensagem contando sobre o acidente.

Ele nem atendeu. E, talvez irritado com as chamadas, desligou o telefone.

Estela sabia que ele era frio. Mas não imaginava que fosse tão frio.

Deitada, encarou o branco sem vida das paredes do hospital.

Cinco anos de casamento pareciam um sonho.

Estela queria ir ao banheiro, mas todos no hospital pareciam apressados. Sem ninguém para ajudar, só lhe restou arrastar o suporte de soro e ir, passo a passo, até lá.

Ainda bem que o pijama do hospital não tinha botões.

Mesmo assim, algo que normalmente levaria poucos minutos acabou demorando quase meia hora.

Quando saiu e se preparava para voltar, ouviu uma voz feminina vindo do escritório ao lado.

O som familiar fez seus passos pararem.

— Lucas, foi só uma torção no pé, eu já disse que está tudo bem. Você que exagerou. — A voz era suave e doce, sem nenhum tom de reprovação, soava mais como um leve mimo.

O rosto era puro, inocente, e a beleza delicada despertava até nela, uma mulher, o instinto de querer protegê-la.

Agora ela viu com clareza. Era mesmo Jéssica, a antiga paixão de Lucas.

Ela não sabia se, naquela noite, ele realmente não a viu ou se viu e simplesmente não se importou, deixando-a ali para morrer.

Mas isso já não importava.

Ela sabia bem que, em todos os absurdos daquele casamento, um dos motivos da atitude dele com ela sempre foi Jéssica.

Mesmo que não tivesse sido hoje, um dia tudo explodiria do mesmo jeito.

— Jéssica, o Lucas só ficou assim porque se preocupou com você.

— Você não faz ideia. Quando ele me ligou, a voz tremia de tanto nervoso, pediu pra eu marcar todos os exames possíveis. Achei que fosse uma tragédia.

Ao lado, o jovem médico de jaleco branco riu, fazendo uma brincadeira.

Era Lírio, amigo de infância de Lucas, testemunha viva da história entre ele e Jéssica.

Jéssica corou, levantando os olhos para o homem que a segurava com tanta preocupação.

E que mulher não amaria aquele rosto? Traços fortes, corpo firme, a temperatura morna sob o tecido fino. Só de estar em seus braços, ela se sentia protegida, como se, mesmo que o mundo desabasse, ele seguraria o peso por ela.

— De qualquer forma, foi um acidente. É melhor fazer os exames. — Disse Lucas, com calma.

— Você está é preocupado com a Jéssica. Nunca vi ficar tão nervoso com mais ninguém. — Brincou Lírio.

Ele sabia bem que Lucas só se casara com Estela por pressão da família.

E o mais ninguém de que ele falava, claro, era Estela.

Durante todos esses anos, Estela vinha sozinha ao hospital. Às vezes, Lírio comentava casualmente com Lucas que a tinha visto por lá, mas a reação dele sempre era indiferente, como se não fosse nada.

Lírio já tinha ouvido falar sobre o que aconteceu há pouco, Estela escapara por um triz da morte e ainda perdeu o bebê.

Como médico responsável pelo caso e, ao mesmo tempo, amigo de longa data de Lucas, Lírio sabia que deveria, pelo menos, ir cumprimentá-la, dizer algo, qualquer coisa.

Mas nem olhou.

Porque, para ele, Estela merecia o que estava passando.

O casamento dela com Lucas nunca tinha sido limpo. E quando Lírio descobriu que ela estava grávida, percebeu que Lucas nem sabia.

Era fácil imaginar, ela devia estar tentando prender Lucas com o bebê.

Mas falhou.

Agora que ela perdeu o bebê, era o destino, nada que merecesse compaixão.

— Vou preparar um quarto VIP pra Jéssica, só por precaução. Assim ela fica em observação mais uns dias. — Disse Lírio, voltando a sorrir.

— Obrigada. — Respondeu Jéssica com um aceno de cabeça.

— Que isso? O que é seu é do Lucas, e o que é do Lucas, eu cuido com prazer. — Disse ele, batendo no peito com orgulho.

A frase claramente agradou Jéssica. Ela sorriu e, sem perceber, olhou na direção da porta.

Lá estava Estela, e seus olhares se cruzaram por um instante.

Antes que Estela pudesse reagir, Jéssica desviou o olhar e sorriu para Lucas.

— Lucas, acho que a Estela te ligou há pouco. Parecia urgente. Por que não retorna a ligação?

Ao ouvir o nome dela, Lucas franziu a testa.

Antes que ele dissesse algo, Lírio, ainda abaixado mexendo em alguns papéis, adiantou:

— Deixa pra lá. A Estela vive incomodando o Lucas, liga pra ele o tempo todo. Esses anos todos, ela já o deixou de saco cheio.

— Jéssica, deixa ele ficar com você. Cuida direitinho desse machucado.

— Mais cedo ou mais tarde, a Estela vai te dar esse lugar.

Jéssica fingiu repreendê-lo, meio manhosa:

— Lírio, não fala besteira.

Lírio se apressou em levantar as mãos:

— Besteira nada. Só estou dizendo o que o Lucas realmente pensa.

Lucas não o desmentiu.

Apenas franziu ainda mais o cenho.

Estela sentiu o silêncio pesado no ar, soltou uma risada amarga.

Não fazia mal. Aquele dia logo chegaria.
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