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RIO DE JANEIRO
7h00 — SÃO CONRADOEu estava morta de cansaço depois daquele último plantão. Tinha sido uma noite realmente exaustiva, daquelas em que tudo o que você deseja é chegar em casa, tomar um banho e esquecer que existe um mundo lá fora.
Guardei meus sapatos no armário e calcei minhas sandálias. Meus pés estavam tão inchados que parecia que tinham passado a noite inteira sendo usados como bola de futebol.
Peguei minhas coisas e já estava saindo quando Vitor apareceu.
— Não vai aceitar meu convite mesmo, doutora Helena?
Respirei fundo antes de responder.
— Pelo amor de Deus, Vitor! Esse assunto de novo? Você ainda é residente, praticamente um bebê. Eu já tenho trinta anos, idade suficiente para ser sua mãe!
Ele revirou os olhos e fez um sinal de positivo com o polegar, como quem finalmente se dava por vencido.
Todos os dias era a mesma conversa. O garoto realmente não desistia. Pelo menos amanhã seria minha folga e eu não precisaria vê-lo durante vinte e quatro horas inteiras.
Às vezes, perturba, sabe?
Saí do hospital e entrei no ônibus lotado. Depois de uma noite inteira trabalhando, a última coisa de que precisava era passar mais uma hora em pé, espremida entre desconhecidos.
Enquanto observava a cidade pela janela, meus pensamentos voltaram para o verdadeiro motivo de tantas noites mal dormidas: minha vida financeira.
Desde que minha avó faleceu, tudo parecia ter virado de cabeça para baixo. Ela já estava doente havia algum tempo e nós duas morávamos juntas. O problema foi que ela não tinha plano de saúde nem convênio funerário. Sobrou tudo para mim.
Tive que tirar dinheiro de onde não tinha para pagar o hospital, o enterro e todas aquelas despesas que aparecem justamente quando você menos precisa delas.
Minhas economias desapareceram. Ainda precisei fazer empréstimos e, desde então, parecia que eu estava apenas sobrevivendo, tentando pagar uma conta enquanto outras três venciam.
E, para completar, meu aluguel estava prestes a vencer.
Sinceramente, eu já não sabia para onde correr.
Assim que cheguei ao apartamento, girei a chave na fechadura e me joguei no sofá. Era exatamente ali que pretendia ficar até o próximo plantão.
Enquanto tentava pensar em alguma solução, meu celular começou a tocar.
Nem queria atender. Provavelmente seria mais uma cobrança do banco. Caramba, eu sabia que estava devendo! Não precisava me lembrar disso a cada cinco minutos.
Deixei tocar algumas vezes, até pegar o aparelho e olhar para a tela.
Dona Ana.
Droga. Mais essa agora.
— Bom dia, dona Ana! Estava no banho e não vi o celular tocar — menti, tentando ganhar alguns segundos.
— Bom dia, Helena. Olha, eu sei que você está passando por um momento difícil com a perda da dona Carmem, mas preciso conversar sobre o apartamento. Já são dois meses de aluguel atrasado e eu não posso continuar esperando. Também tenho minhas contas, querida. Preciso da minha renda.
Tentei interrompê-la, mas ela continuou:
— Você tem até segunda-feira para desocupar o imóvel. Espero que consiga se organizar.
E desligou.
Fiquei olhando para o celular, sem conseguir processar o que acabara de ouvir.
Segunda-feira.
Eu tinha até segunda-feira para encontrar outro lugar para morar.
Nunca fui irresponsável com dinheiro. Sempre trabalhei, paguei minhas contas e fiz o possível para manter uma vida confortável. Mas a morte da minha avó havia levado embora muito mais do que minha companhia. Tinha levado também a estabilidade que demorei anos para conquistar.
Às vezes, a vontade era simplesmente desaparecer, mas até isso parecia exigir dinheiro que eu não tinha. Um humor bastante mórbido, eu sei, mas era a maneira que encontrava de não desabar completamente.
Levantei do sofá e fui procurar alguma roupa. Precisava tomar um banho e começar a procurar outro lugar. Ainda tinha meu emprego, e isso significava que alguma coisa eu conseguiria encontrar.
Talvez pudesse pedir um adiantamento ao RH. Não resolveria tudo, mas ajudaria.
Passei o restante da manhã visitando imobiliárias, mas a situação era desesperadora. Todos os apartamentos estavam muito acima do que eu podia pagar e, para completar, praticamente todos exigiam fiador.
Quando voltei para casa, estava exausta e frustrada.
Poxa, o que estava acontecendo com a minha vida? Eu tinha apenas trinta anos e parecia que tudo o que havia construído estava desmoronando de uma vez.
Meu apartamento era caro, mas confortável, bem localizado e estava sempre em boas condições. Dona Ana fazia questão de manter tudo arrumado, o que também justificava o valor do aluguel.
Mas agora eu não tinha escolha.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Vanessa, minha melhor amiga. Ela sempre esteve comigo nos momentos difíceis e talvez pudesse conhecer algum lugar mais barato.
Helena: Amiga, você sabe de alguma casa ou apartamento barato para alugar? Estou precisando encontrar alguma coisa urgentemente.
A resposta veio poucos minutos depois.
Vanessa: Amiga, aqui no Vidigal tem uma casa disponível.
Mordi o canto da boca.
Vidigal.
Não era exatamente o lugar onde eu imaginava morar, mas, naquele momento, minhas opções eram praticamente inexistentes.
Helena: Amanhã estou de folga. Vou até aí olhar. Não é meu lugar preferido, mas acho que consigo aguentar por alguns meses.
Vanessa: Ah, pronto! Sem preconceito, mulher! Você sabe que eu moro aqui e já te falei várias vezes que não é esse perigo todo que você imagina. Até você se organizar, vai dar certo. O aluguel é baratinho e ninguém fica perturbando a vida de ninguém.
Vanessa: Vai dormir e não se preocupa tanto. Amanhã cedo te ligo, a gente se encontra e eu te mostro a casa. Também vou te apresentar os donos. Eles vão adorar você!
Sorri discretamente diante da tela.
Vanessa sempre tinha esse jeito de fazer tudo parecer mais simples.
Helena: Obrigada, amiga. Não sei o que seria de mim sem você.
Depois de me despedir, deixei o celular sobre a mesa e fui me preparar para dormir.
Amanhã conheceria um lugar novo, uma casa nova e, quem sabe, encontraria uma solução para toda aquela confusão.
Eu só esperava que, dessa vez, a vida resolvesse colaborar um pouquinho comigo.
Porque, sinceramente, eu já estava cansada de perder.
Rio de Janeiro — Vidigal, 22h10Eu já tinha ouvido falar dela antes mesmo de conhecer seu rosto.Helena.A amiga de Vanessa, a médica que havia perdido o emprego no San Lorenzo e agora estava procurando uma oportunidade para recomeçar.Quando Rafael me trouxe as primeiras informações, não dei muita importância. Precisávamos de um cirurgião para a clínica, e eu queria alguém competente, discreto e, acima de tudo, confiável.Por isso, mandei pesquisar.E o resultado foi melhor do que esperava.Trinta anos, formação em medicina, especialização em cirurgia e uma trajetória profissional respeitável. Conversei com pessoas que conheciam seu trabalho, procurei referências e analisei seu histórico. Não havia dúvidas sobre sua capacidade. Helena era uma excelente profissional, dedicada e reconhecida pelo próprio trabalho.Também descobri sobre a morte da avó, as dívidas que vieram depois, a perda da casa e, por último, a demissão.A vida não tinha sido generosa com ela nos últimos tempos.Aind
Rio de Janeiro — Vidigal, 21h15VanessaEu ainda ia acabar ficando maluca por causa daquele homem!Olhei para Rafael, que estava sentado ao meu lado, tranquilamente, como se não tivesse acabado de me dar uma das piores notícias da noite.— Você está de brincadeira comigo, né?Ele ergueu uma sobrancelha.— Sobre o quê, mulher?— Sobre eu não poder contar para Helena quem é aquele homem!Rafael soltou um suspiro e tomou um gole da bebida.— Vanessa, já conversamos sobre isso.— Conversamos nada! Você falou, falou, falou e terminou dizendo que eu tenho que ficar de boca fechada. Isso não é conversa, é uma ameaça à minha liberdade de expressão!Ele riu, balançando a cabeça.— Você não consegue passar cinco minutos sem falar?— Consigo. Mas não quero!Olhei discretamente para a mesa onde Helena estava. Minha amiga parecia estar se divertindo, mas eu não era cega. Desde que chegamos, ela já tinha olhado umas dez vezes na direção de Miguel.E como não olharia? O homem era bonito, disso ning
Rio de Janeiro — Vidigal, 20h00— Olha, conversei com algumas pessoas que conheço. Pode ter certeza de que logo, logo esse emprego vai bater à sua porta. Agora, por favor, hoje é sábado e amanhã estarei de folga. Vamos sair! — Vanessa implorou, me olhando com aqueles olhos de cachorrinho abandonado.Segurei o riso.— Tudo bem! Vou me arrumar rapidinho e a gente vai. Você nem precisa, já veio pronta.— ÓBVIO! Se você não fosse, eu iria sozinha. E hoje não vou aguentar chororô, não, hein!Ela gritou da sala, mas nem precisava. Aquela casa era tão pequena que eu conseguia ouvir até quando alguém se sentava no sofá.Segui para o quarto e comecei a escolher uma roupa. Separei uma calça jeans, uma papete e um body com decote em V. Entrei no banheiro e tomei uma ducha rápida, porque, para mim, não existia sair de casa sem tomar banho antes.Aproveitei para fazer uma maquiagem básica, vesti a roupa, passei meu perfume favorito e peguei uma jaqueta, caso esfriasse. Finalizei com um pouco de g
Rio de Janeiro —Vidigal, 10h30— O Jacaré caiu. A polícia está na frente do hospital e do quarto onde ele está. Neste momento, não dá nem para tentar ajudar — terminei de enrolar o cigarro enquanto escutava Rafael falar.Soltei a fumaça lentamente, pensando na situação.Mais um homem nosso nas mãos da polícia. Aquilo estava começando a me tirar do sério.— Precisamos arrumar um médico de confiança para a clínica. De tudo, só falta um cirurgião — comentei, apoiando as costas na cadeira.Antes que Rafael respondesse, escutei três batidas na porta. Logo depois, a maçaneta girou, revelando Vanessa.— E aí, tudo bem? — perguntou, entrando sem cerimônia.— Tudo, minha joia. E a sua amiga lá, melhorou?Eu não sabia exatamente de quem estavam falando, então fiquei quieto. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando-a.— Olha, é justamente sobre isso que vim falar.Vanessa se acomodou na cadeira à frente da minha mesa.— Ela foi demitida do hospital e eu queria saber se você conhece alguém que
RIO DE JANEIRO — VIDIGAL18H10Cheguei em casa arrasada. Passei o caminho inteiro chorando e, até aquele momento, ainda não tinha conseguido parar. Meus olhos ardiam, minha cabeça latejava e eu provavelmente já estava me desidratando de tantas lágrimas.Eu simplesmente não conseguia acreditar no que havia acontecido.Poucas horas antes, estava dentro de uma sala cirúrgica salvando a vida de um homem. Agora, não tinha mais emprego.Tentei me recompor quando ouvi algumas batidas na porta. Tinha quase certeza de que era Vanessa, mas não consegui disfarçar o estado em que me encontrava.Assim que abri, ela me olhou preocupada.— Ei, que que tá pegando?Antes que pudesse responder, abracei minha amiga e comecei a chorar ainda mais.Vanessa passou os braços ao meu redor e acariciou minhas costas.— Calma, amiga. O que aconteceu?— Eu fui mandada embora! — consegui dizer entre soluços. — E agora, Vanessa? O que eu faço? Eu já estava planejando minha vida de novo...Apenas pensar que agora po
RIO DE JANEIROVIDIGAL — 5H00Saí de casa meio perdida, ainda tentando não errar todos aqueles becos até conseguir chegar ao ponto de ônibus. O céu ainda estava escuro, e as ruas começavam a despertar lentamente.Assim que finalmente cheguei à entrada da comunidade, avistei Jonas. Ele estava perto de sua moto e me cumprimentou com um sorriso.— Ué, tá indo pra onde essas horas? Não é meio perigoso andar por aí tão cedo? — perguntou, aproximando-se.— Estou indo trabalhar, Jonas. Não sei que horas o ônibus passa, então resolvi sair mais cedo.— Entendi. Olha, posso te ajudar se precisar. Eu sei o horário de todos os ônibus que passam lá no ponto. Se tivesse perguntado ontem, talvez não precisasse madrugar desse jeito. Mas me diz, trabalha onde? Só pra eu ter uma noção de qual ônibus você vai pegar.— Trabalho no San Lorenzo. Sou médica.Ele arregalou os olhos.— Porra, longe pra caramba! Olha, tu pode sair daqui umas cinco e meia que o ônibus passa às seis. Vai te deixar praticamente n