ANMELDENPOV Natasha Junho, 2026. Minha vida estava começando a entrar nos eixos. A rotina do hospital, as aulas, os plantões… Aos poucos, eu estava me adaptando novamente à cidade e àquela vida que, apesar de nova, já começava a parecer familiar. Mas sentia falta de casa. Sentia falta de todo mundo. Enrico já tinha ido me visitar uma vez. Meu pai também tentou entrar em contato comigo várias vezes. Eu não respondi nenhuma. Por mim, eu nunca mais falaria com ele. Não queria. Não tinha vontade nenhuma. Com o resto, era diferente. Eu conversava. Trocava mensagens. Fazia chamadas quando conseguia. Eu tinha organizado tudo o que consegui nos dois dias antes de ir embora. Tinha deixado meus cachorros com Enrico. E pedido para Lurdinha ficar de olho na Tessália. Sabia que as duas estavam bem cuidadas. Aurora estaria segura na barriga da mãe. Pelo menos nisso, eu conseguia ficar tranquila. Mas, apesar de toda aquela rotina nova, existia uma coisa que eu não conseguia simplesmen
Eu estava indo para o meu carro depois de um plantão particularmente cansativo, tentando organizar na cabeça todas as possibilidades que ainda me restavam. Pedir transferência. Sair da cidade. Cortar qualquer ligação com Victoria. Começar de novo em outro hospital antes que aquela situação destruísse o pouco que ainda me restava. Foi quando uma voz conhecida me tirou dos pensamentos. — Oi. Parei. Victoria estava alguns metros atrás de mim. Olhei ao redor imediatamente. — Você está maluca? Ela franziu a testa. — O quê? — Ninguém pode ver a gente juntos. Aproximei-me dela e a conduzi para um canto mais afastado do estacionamento. — Você sabe do nosso acordo. Sabe que não pode simplesmente aparecer aqui. Ela cruzou os braços. — Eu só vim falar com você. — Então fala rápido. Ela me encarou. — Você não me mandou o último exame que eu precisava. Fechei os olhos por um instante. — Victoria… — Eu estou esperando há dias. — Porque eu não vou mandar. Ela me olhou como s
Conrad sabia exatamente o peso que aquela frase tinha para a minha carreira. Fiquei alguns segundos parado. Então apenas assenti. — Tudo bem. Conrad sorriu de leve. — É melhor assim. Apertei a mandíbula. — Com licença. Saí da sala. Fechei a porta atrás de mim. E caminhei pelo corredor tentando manter a postura. Mas, por dentro, eu estava em chamas. Eu tinha entrado naquela sala acreditando que poderia sair dali mais próximo de Natasha. Saí me sentindo usado. Foi como se, de repente, todas as coisas que Conrad tinha feito ao longo daquele tempo tivessem adquirido outro significado. As conversas. A confiança. A maneira como ele me aproximava de Natasha. A forma como me usava para influenciá-la quando precisava. Tudo aquilo tinha sido conveniente para ele. Eu era útil. Era um médico competente. Uma boa influência. Alguém em quem ele confiava. Mas, quando apareceu alguém com um sobrenome influente, uma família poderosa e tudo aquilo que ele considerava importante p
Ela estava distante. Estranha. E eu não conseguia entender o que tinha acontecido. Aquela sensação de frustração começou a crescer dentro de mim. Eu tinha saído daquela viagem acreditando que, finalmente, nós daríamos um passo adiante. E ela voltou parecendo outra pessoa. Comecei a pressioná-la. Queria saber o que tinha acontecido. Queria que ela me dissesse por que estava agindo daquela maneira. Até que ela finalmente falou. Natasha tinha dormido com outra pessoa. Disse que tinha sido um erro. Que estava se sentindo mal. Que estava culpada. Porque, por mais que nós ainda não tivéssemos assumido um relacionamento, ela não gostava de fazer as coisas daquela forma. Ela se desculpou. E disse que achava melhor nós não seguirmos. Naquele momento, senti uma explosão de ódio dentro de mim. Foi como se alguma coisa tivesse sido arrancada do lugar. Eu queria gritar. Queria perguntar como ela tinha conseguido fazer aquilo depois de tudo o que tínhamos vivido. Queria chamá-l
POV Dr. Gabriel Whitmorrow Eu nunca me aproximei de Natasha porque estivesse apaixonado por ela. No começo, foi uma questão de conveniência. Ela era filha do diretor do hospital. E o sobrenome dela tinha peso dentro do meio médico. Eu sabia exatamente o quanto isso poderia ser útil para a minha carreira. Então me aproximei. E foi fácil. Natasha era completamente apaixonada por obstetrícia. Dava para perceber isso nos primeiros minutos de qualquer conversa com ela. Ela tinha um interesse genuíno. Um brilho diferente quando falava sobre a área. E, principalmente, tinha talento. Muito talento. Por isso, passei a usar aquilo a meu favor. Deixava que ela acompanhasse alguns partos. Conversava com ela sobre casos. Explicava procedimentos. Perguntava o que ela achava. Fazia questão de ouvir as opiniões dela. Tudo parecia natural. Como se eu estivesse apenas incentivando uma estudante brilhante. Mas eu nunca a incentivei de verdade a seguir obstetrícia. Porque eu sabia q
POV Noah Maio, 2026. Naquela noite, Tessália estava linda. Tinha se arrumado para comemorar o aniversário comigo. Só nós dois. Ela estava sentada na minha frente, usando uma roupa que eu gostava, os cabelos arrumados e aquele sorriso que fazia qualquer coisa parecer mais bonita. Eu tinha preparado um jantar romântico para nós. Nada exagerado. Só nós dois, nossa casa, uma mesa bonita, uma comida boa e uma noite tranquila. Bom, “comida boa” era uma avaliação da qual eu não tinha condições de participar. Desde a terceira quimioterapia, eu tinha começado a perder o paladar e, quando cheguei à quinta, já não sentia gosto de nada. Ela olhou para mim e sorriu. — Eu estou amando comemorar assim. Sorri. — Está? — Muito. Ela passou os dedos pela borda da taça e me olhou. — Só nós dois. Nossa casa… Fez uma pausa e sorriu. — Embora isso não vá durar muito. — Não? Ela balançou a cabeça. — Daqui a pouco nossa filha vai estar com a gente em todos os jantar







