ログインTrês anos antes…
Na noite seguinte, pouco depois da meia-noite, estava novamente sentado no mesmo lugar da discoteca, como se aquele sofá lhe pertencesse. Catherine mal conseguiu esconder o sorriso quando o viu. — Estás a tornar-te cliente habitual — comentou ela, pousando um copo sobre o balcão — Talvez – respondeu ele a sorrir — Não tens outros lugares para ir em Bordeaux? – perguntou ela — Tenho – disse ele — E escolheste este? – perguntou ela novamente — Escolhi-te a ti – disse ele a olhar para os olhos dela Catherine tentou não demonstrar o efeito que aquelas palavras tinham sobre ela. E assim começou uma rotina que nenhum dos dois planeou. Máximo aparecia todas as noites. Por vezes chegava acompanhado de Donatello, que rapidamente percebeu que as reuniões de trabalho tinham deixado de ser a principal razão da permanência de Máximo em Bordeaux. Outras vezes aparecia sozinho. Esperava por Catherine terminar o turno. Conversavam. Riam. E, quando ela finalmente saía, caminhavam juntos pelas ruas silenciosas da cidade. Às vezes beijavam-se. Outras vezes apenas conversavam. Mas, a cada noite, Catherine sentia-se mais próxima dele. No terceiro dia, Máximo apareceu ainda antes de Catherine começar o turno. Ela ficou surpreendida ao encontrá-lo encostado ao balcão. — Chegaste cedo – disse ela — Queria ver-te antes de começares a trabalhar – respondeu ele com um ar cansado — Porquê? – perguntou ela — Porque depois tens sempre alguém a interromper-nos – disse ele e Catherine sorriu. — Tens ciúmes dos clientes? – perguntou ela a olhar para ele — De alguns – disse ele e ela riu. Catherine fingiu pensar. — Ainda estou a decidir – disse ela Máximo aproximou-se. — Quanto tempo precisas? – perguntou ele — Talvez mais uns dias – disse ela — Posso esperar – disse ele Ele tinha aquele sorriso que a fazia esquecer todas as respostas que tinha preparado. No dia seguinte, encontraram-se fora da discoteca pela primeira vez. Máximo esperou por ela à saída, mas não a levou a nenhum restaurante sofisticado. Em vez disso, conduziu-a até uma pequena praça onde havia uma esplanada quase vazia. Passaram duas horas naquela esplanada. Falaram sobre as suas famílias. Catherine contou-lhe como os pais, Antoine e Rose, sempre tinham apoiado os seus sonhos. Falou da relação próxima que tinha com eles e de como queria construir uma carreira antes de pensar em qualquer outra coisa. Máximo ouviu atentamente. Quando chegou a sua vez, falou pouco. Disse-lhe que a família era complicada. Que o pai era um homem exigente. Que a mãe tinha uma personalidade forte. E que, apesar de ter crescido rodeado de luxo, nunca sentira que a sua vida lhe pertencesse verdadeiramente. — Isso parece triste — disse Catherine — Às vezes é – concordou ele — Então porque não mudas? – perguntou ela e Máximo ficou em silêncio. — Porque nem sempre podemos escolher a nossa vida – disse ele com sinceridade e Catherine observou-o. Pela primeira vez, percebeu que por detrás da confiança havia alguma coisa que ele escondia. — Podes escolher algumas coisas – disse ela e Máximo ergueu os olhos. Ele sorriu e assentiu com a cabeça — Neste caso, estou a fazer uma excelente escolha – disse ele No quinto dia, Máximo levou Catherine a passear pelas margens do Garonne. Era uma tarde amena e o céu estava tingido de laranja quando começaram a caminhar. Catherine tinha vestido umas calças de ganga e uma camisola clara. Máximo, pela primeira vez desde que o conhecera, estava sem fato. Parecia mais jovem. Mais acessível. Mais próximo dela. — Não pareces um empresário agora — disse ela — Isso é um elogio? – perguntou ele — É – disse ela — Então vou vestir-me assim mais vezes – disse ele e Catherine sorriu. Quando chegaram à Pont de Pierre, Máximo parou. — Sabes uma coisa? – perguntou ele — O quê? – respondeu ela com uma pergunta — Quando cheguei a Bordeaux, pensei que esta viagem seria apenas trabalho – disse ele — E agora? – perguntou ela e ele olhou para ela. — Agora não quero ir embora – disse ele e Catherine sentiu um aperto no peito. — Vais voltar para Milão – disse ela — Sim – respondeu ele A resposta deixou-a subitamente triste. Ela tentou disfarçar. Máximo percebeu. — Ainda não – disse ele — O quê? – perguntou ela — Ainda não quero pensar nisso – disse ele Aproximou-se dela. — Quero aproveitar o tempo que tenho aqui – disse ela e Catherine baixou os olhos. — Eu também – disse ela e Máximo segurou-lhe a mão. Os dedos entrelaçaram-se naturalmente. E nenhum dos dois voltou a soltá-los durante o resto do passeio. Na sexta noite, Catherine estava a terminar o turno quando Máximo apareceu. Não trazia o habitual sorriso. Parecia cansado. — Dia difícil? — perguntou ela — Reuniões – disse ele — Correu mal? – perguntou ela — Não – respondeu ele — Então porque estás com essa cara? – voltou ela a perguntar Máximo soltou um suspiro. — Porque amanhã tenho de voltar para Milão – disse ele e Catherine ficou imóvel. — Amanhã? – perguntou ela — Sim – respondeu ele e ela tentou sorrir. — Então foi bom enquanto durou – disse ela e Máximo aproximou-se. — Não quero que termine – disse ele — Máximo... – disse ela — Estou a falar a sério – disse ele Ele beijou-a. Desta vez, não havia hesitação. Catherine abraçou-o com força, escondendo o rosto no peito dele quando o beijo terminou. — Promete-me uma coisa — murmurou ela — O quê? – perguntou ele — Que não vais desaparecer – disse ela Máximo franziu o sobrolho. — Prometo – disse ele a olhar Catherine nos olhos e ela sorriu Não sabia que, meses mais tarde, aquela promessa seria precisamente aquilo que mais lhe doeria recordar. No sábado, Máximo não partiu. Adiara o voo. Depois adiara novamente. E quando Catherine percebeu, já era domingo. — Estás a evitar voltar para casa? — perguntou ela — Talvez – disse ele — Por minha causa? – perguntou ela Máximo não respondeu imediatamente. Depois aproximou-se. — Sim – disse ele O coração dela disparou. Ele acariciou-lhe o rosto. — Quero passar mais tempo contigo – disse ele Catherine fechou os olhos por um instante. Tudo estava a acontecer depressa. Demasiado depressa. Mas não queria parar. Naquela noite, depois do trabalho, ficaram sentados num banco junto ao rio. Máximo tinha o braço à volta dos ombros dela. Catherine encostou a cabeça ao peito dele. — Posso perguntar-te uma coisa? – perguntou ela — Tudo – respondeu ele — O que procuras numa mulher? – perguntou ela e ele ficou pensativo. — Alguém que não tenha medo de me dizer a verdade – disse ele — Mesmo quando dói? – perguntou ela — Principalmente quando dói – disse ele e ela levantou a cabeça. — E se essa mulher se apaixonar por ti? – perguntou ela e Máximo ficou em silêncio. O olhar dele tornou-se intenso. — Acho que já seria tarde demais para fugir – disse ele e Catherine sentiu o coração bater mais depressa. Máximo inclinou-se e beijou-lhe a testa. Depois olhou para o relógio. — Está quase na hora de ires para casa – disse ele — Amanhã não quero encontrar-te numa discoteca – disse ele e ela sorriu. — Então onde? – perguntou ela — Quero ter-te só para mim – disse ele e Catherine ficou a observá-lo. Máximo aproximou-se. — Quero levar-te a jantar – disse ele — Num lugar bonito, só nós os dois, sem música alta, sem clientes, sem ninguém a interromper – disse ele e Catherine sorriu. — Isso é um encontro? – perguntou ela — É – disse ele — E o que vais fazer se eu disser que não? – perguntou ela Máximo sorriu. — Volto amanhã e pergunto outra vez – disse ele e Catherine riu. Depois aproximou-se e deu-lhe um beijo rápido nos lábios. — Está bem – disse ela e Máximo ficou imóvel durante um segundo. — Está bem? – perguntou ele — Sim – disse ela — Então aceitas? – perguntou ele — Amanhã, às oito – disse ela a sorrir e entrou na rua da casa dela Máximo permaneceu na rua, sozinho, com um sorriso no rosto. Pela primeira vez em muito tempo, tinha algo pelo qual ansiava. E Catherine, entrou em casa e encostou-se à madeira e levou a mão ao peito. Sabia que estava a apaixonar-se. Só ainda não sabia o quanto.Mário nunca tinha prestado verdadeira atenção a Catherine.Até ela entrar na vida dos Santoro.Antes, para ele, era apenas a mulher que tinha desaparecido anos atrás e que, de repente, reaparecera com um filho que se parecia demasiado com Máximo.Uma complicação.Mais um problema para a família.Mas, quando começou a vê-la diariamente pelos corredores da empresa, alguma coisa mudou.Catherine não precisava de fazer esforço para chamar atenção.Era a forma como caminhava, sempre segura apesar dos olhares.A maneira como falava nas reuniões.A inteligência com que desmontava um problema sem levantar a voz.E havia a beleza.Uma beleza que Mário começou a notar demasiado.Naquela manhã, viu-a sair do elevador.Usava um vestido simples e um casaco claro. Trazia alguns documentos nas mãos e falava com um dos responsáveis do departamento.Mário parou.Ficou a observá-la.— Então é verdade — murmurou.O funcionário que estava ao lado dele olhou.— O quê? – perguntou o funcionário que o acomp
Catherine passou mais tempo diante do espelho naquela manhã do que gostaria de admitir.Não porque estivesse preocupada com a roupa.Nem com o cabelo.Estava preocupada com o que iria encontrar quando entrasse naquela sala.Era a primeira reunião importante desde que assumira oficialmente o cargo de Diretora de Marketing do Grupo Santoro.E sabia que seria observada.Não apenas pelos membros da direção.Por todos.Desde que a sua chegada à empresa tinha sido anunciada, os comentários não tinham parado.A mulher de Máximo.A mãe de Émile.A francesa que apareceu do nada.A responsável pelo escândalo que abalou o grupo.A amante.A mulher que tinha destruído o casamento de Máximo.Pouco importava que nenhuma dessas descrições fosse justa.As pessoas repetiam aquilo que ouviam.E Catherine começava a perceber que, numa empresa daquela dimensão, os rumores podiam ser mais perigosos do que qualquer número num relatório.Máximo entrou no quarto enquanto ela terminava de apertar o relógio.—
O telefone tocou às oito da manhã.Máximo estava no escritório, diante da janela, quando viu o nome do advogado no ecrã.Atendeu imediatamente.— Então? – perguntou MáximoDo outro lado, houve alguns segundos de silêncio.— Está concluído – respondeu o advogadoMáximo fechou os olhos.Por um instante, não conseguiu dizer nada.— O divórcio foi oficialmente finalizado — continuou o advogado — A decisão já foi registada, legalmente, deixou de ser marido de Andreia D’Angelo – disse e Máximo soltou o ar que parecia estar a prender há anos.— Finalmente – disse MáximoAquela palavra saiu baixa.Quase como uma confissão.Finalmente.Não era apenas o fim de um casamento que nunca deveria ter acontecido.Era o fim de uma obrigação.De uma mentira.De uma vida construída por outras pessoas.— Há mais alguma coisa que precise de assinar? — perguntou.— Apenas alguns documentos administrativos, o essencial está terminado – disse o advogadoMáximo agradeceu e desligou.Ficou alguns segundos sozin
Na primeira manhã de Catherine como Diretora de Marketing do Grupo Santoro, ela acordou antes do despertador.Ficou alguns segundos deitada, a olhar para o teto.Era o primeiro dia.Não como mulher de Máximo.Não como mãe de Émile.Como profissional.Era isso que repetia mentalmente enquanto se vestia.Tinha escolhido um fato simples, elegante, sem nada que pudesse chamar demasiado a atenção. Queria entrar naquela empresa e ser julgada pelo trabalho.Não pelo apelido.Não pela relação com Máximo.E muito menos pelo filho que tinham em comum.Quando chegou ao edifício do Grupo Santoro, percebeu imediatamente que seria mais difícil do que imaginara.As pessoas olhavam.Algumas discretamente.Outras nem sequer tentavam esconder.Catherine saiu do elevador e caminhou pelo corredor principal com uma pasta junto ao peito.— É ela? – perguntou uma funcionária— É – respondeu outra— A namorada do Máximo? – perguntou um funcionário— A mãe do filho dele – disse outro— Dizem que foi por isso
Catherine passou a noite quase sem dormir.A proposta de Pietro Santoro continuava a ecoar-lhe na cabeça.Diretora de Marketing do Grupo Santoro.Ainda lhe parecia estranho dizê-lo em voz alta.Não por causa do cargo. Catherine sabia o que valia. Sabia o que tinha estudado, o que tinha aprendido nos últimos anos e, sobretudo, sabia que não tinha chegado até ali por acaso.O problema era tudo o que vinha agarrado àquela oportunidade.O apelido Santoro.Máximo.A imprensa.A guerra com os D’Angelo.As pessoas que já tinham tentado destruir a sua reputação.E, acima de tudo, Émile.Na manhã seguinte, Catherine encontrou Máximo na cozinha da casa, sentado à mesa enquanto Émile tomava o pequeno-almoço à sua frente.— Mais uma colher — dizia Máximo, divertido.— Não quero – dizia Émile— Só mais uma – pedia Máximo— Não – dizia Émile— Duas? – perguntava Máximo e Émile olhou para ele com desconfiança.— Não – respondia Émile e Máximo riu.— Tens mesmo o feitio da tua mãe – dizia Máximo a ri
Máximo estava há quase três horas diante do mesmo ecrã.As imagens da nova campanha estavam espalhadas pela mesa.Fotografias.Slogans.Propostas de vídeo.Estudos de mercado.Previsões de vendas.Tudo parecia tecnicamente perfeito.E, ainda assim, havia qualquer coisa errada.Máximo recostou-se na cadeira e fechou os olhos.— Não funciona – disse MáximoNicolo, sentado do outro lado da sala, levantou os olhos do computador.— A campanha? – perguntou Nicolo— Sim – disse Máximo— Os números dizem o contrário – disse Nicolo— Os números ainda não viram a campanha – disse Máximo e Nicolo sorriu.— Esse é o problema de trabalhar contigo, consegues encontrar problemas onde ninguém vê nenhum – disse Nicolo e Máximo ignorou a provocação.— Estamos a tentar vender uma experiência – disse Máximo e apontou para o ecrã — Mas isto parece uma campanha para vender quartos – disse Máximo— É uma campanha para hotéis – disse Nicolo— Precisamente – disse Máximo e levantou-se.— O Grupo Santoro não p







