INICIAR SESIÓNMATTEO VASQUES
Eu não confiava em pessoas que sorriam demais, muito menos nas que apareciam em minha casa sem que eu soubesse exatamente quem eram. A festa continuava ao meu redor. Empresários brindavam, mulheres conversavam perto das janelas e homens importantes fingiam que não estavam ali para conseguir algo de mim. Eu conhecia aquele jogo, jgava melhor do que todos eles e ainda assim, naquela noite, uma convidada havia conseguido despertar minha curiosidade. Isabela Moura. O nome parecia simples. A mulher, nem tanto. Desde que chegara, ela observava o ambiente com atenção. Não olhava para as obras de arte, para os convidados famosos ou para a decoração cara. Seus olhos procuravam as saídas, os seguranças e os homens que permaneciam próximos de mim. Ela não parecia impressionada com meu dinheiro, também não parecia ter medo de mim. Isso era raro. — Você está olhando para ela há dez minutos. — comentou Vicente, aproximando-se com um copo de uísque. Desviei os olhos da mulher que conversava perto da escadaria. — Estou observando. — Claro. É o que você sempre diz quando alguma mulher chama sua atenção. Olhei para meu primo. — Cuidado com o que fala, Vicente. Ele ergueu as mãos, fingindo inocência. — Só estou dizendo que ela é bonita. — Beleza não me interessa. Vicente soltou uma risada baixa. — Então o que interessa? Olhei novamente para Isabela. Naquele instante, ela virou o rosto na minha direção. Nossos olhos se encontraram por alguns segundos. Ela não desviou imediatamente, como a maioria fazia. Pelo contrário, sorriu de leve, como se soubesse de alguma coisa que eu ignorava. Aquele sorriso me incomodou. — Quero saber quem ela é. — respondi. Vicente acompanhou meu olhar. — Posso descobrir. — Não. Eu mesmo vou cuidar disso. Ele pareceu surpreso, mas não insistiu. Eu já havia aprendido que as pessoas mais perigosas nem sempre eram aquelas que escondiam armas. Às vezes, eram as que escondiam suas verdadeiras intenções atrás de um rosto bonito e Isabela Moura escondia alguma coisa. Encontrei-a alguns minutos depois, perto da varanda. Ela segurava uma taça de champanhe, mas mal havia bebido. Seus dedos apertavam o vidro com força suficiente para denunciar uma tensão que seu rosto tentava esconder. — Está gostando da festa? — perguntei. Ela se virou devagar. — É uma festa bonita. — Não foi isso que perguntei. — Então deveria fazer perguntas melhores. Quase sorri, quase. A maioria das pessoas escolhia as palavras com cuidado quando falava comigo, já Isabela parecia gostar de testar meus limites. — Você sempre responde assim aos homens que acabou de conhecer? — Apenas aos que parecem acostumados a receber respostas diferentes. Interessante. Aproximei-me um pouco, mantendo os olhos nos dela. — E o que você sabe sobre mim, Isabela? Por um instante, vi algo mudar em sua expressão. Foi rápido. Um pequeno sinal de raiva, tão intenso que quase passou despercebido. Mas eu percebi. — O suficiente para saber que você não gosta de perder o controle. — respondeu. Aquela frase atingiu um lugar que ela não deveria conhecer. — E você gosta de provocar desconhecidos? — Talvez eu não goste tanto de desconhecidos quanto você imagina. Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, um garçom passou entre nós. Quando voltei a olhar para ela, Isabela já havia se afastado. Observei sua silhueta desaparecer no corredor, aquela mulher sabia alguma coisa sobre mim. Eu só precisava descobrir o quê. — Quero um relatório completo. — ordenei assim que entrei no escritório. Meu chefe de segurança, Rafael, fechou a porta atrás de si. — Sobre quem, senhor? — Isabela Moura. A mulher que chegou à festa sozinha, acompanhada de uma convidada que não reconheci. — Entendido. — Quero saber onde nasceu, onde estudou, com quem trabalha e quem são seus parentes. Verifique os últimos três anos. Procure viagens, mudanças de endereço e qualquer ligação com famílias que tenham negócios nesta cidade. — Algum motivo específico para a investigação? — perguntou, anotando tudo. — Você está me perguntando por que quero conhecer alguém que apareceu na minha casa sem ser convidada por mim? — levantei os olhos. — Não, senhor. — ele abaixou a cabeça. — Ótimo. Então faça seu trabalho. Quando Rafael saiu, peguei meu celular e liguei para outro contato. — Preciso que verifique uma coisa. — falei assim que atenderam — Descubra se alguém andou fazendo perguntas sobre os Costi. Houve um breve silêncio do outro lado. Aquele sobrenome não aparecia em minhas conversas havia três anos e eu preferia que continuasse assim. — Por que quer saber disso agora? — perguntou a voz. — Porque talvez alguém tenha decidido desenterrar o passado. Encerrei a ligação e fiquei olhando para a cidade pela janela. Antonio Costi estava morto. Seu império havia desmoronado. E, até onde eu sabia, os poucos sobreviventes daquela família tinham desaparecido ou aprendido a ficar longe de mim. Mas havia uma coisa que ninguém parecia entender. Eu nunca esquecia um rosto, muito menos uma dívida. Quando voltei ao salão, Isabela estava novamente entre os convidados. Ela conversava com Vicente, aquilo me chamou a atenção imediatamente. Meu primo tinha o hábito de se aproximar de pessoas úteis. Se estava interessado nela, talvez também tivesse percebido alguma coisa ou talvez soubesse mais do que deveria. Aproximei-me sem anunciar minha presença. — Espero que Vicente esteja sendo um bom anfitrião. — comentei. Isabela virou o rosto. Por uma fração de segundo, pareceu surpresa ao me ver. — Estávamos apenas conversando. — Sobre o quê? Vicente tomou um gole de uísque. — Sobre a cidade. Nossa convidada parece interessada nos negócios da família. — É mesmo? — observei-a, atentamente. — Gosto de saber onde estou pisando. — respondeu, encarando-me. — Então deveria tomar cuidado., nem todo lugar é seguro. — Nem toda ameaça assusta. Dessa vez, sorri. Não porque tivesse gostado da resposta, mas porque começava a entender que aquela mulher não havia aparecido por acaso. Ela queria alguma coisa de mim e eu descobriria o quê, mesmo que precisasse virar São Paulo inteira do avesso. Meu celular vibrou e uma mensagem de Rafael apareceu na tela. “SENHOR, ENCONTRAMOS UMA INCONSISTÊNCIA NOS DADOS DE ISABELA MOURA. ESTAMOS VERIFICANDO. HÁ TAMBÉM UMA POSSÍVEL LIGAÇÃO COM O CASO COSTI.” Meu sorriso desapareceu, levantei os olhos para a mulher diante de mim. Ela ainda fingia tranquilidade, mas seus dedos apertavam a taça com força. Eu conhecia aquele olhar. Já o havia visto antes, nos olhos de pessoas que tinham perdido tudo e voltado apenas por um motivo. Vingança. Guardei o celular no bolso. — Aproveite a festa, Isabela! — falei, inclinando-me ligeiramente em sua direção — Tenho a sensação de que teremos muitas oportunidades para conversar. Ela não respondeu. Mas, quando me afastei, percebi que estava me observando. E, pela primeira vez em três anos, tive a sensação de que alguém havia voltado para cobrar uma conta que eu nunca terminei de pagar. 👑O nome de Matteo Vasques continuava diante dos meus olhos.Eu havia passado a última hora tentando encontrar uma explicação para aquele registro bancário. A conta era dele. O dinheiro havia passado por suas mãos. E, de alguma forma, aquela movimentação estava ligada à noite em que minha família foi destruída.Mas uma pergunta não saía da minha cabeça: se Matteo era o responsável, por que parecia tão interessado em descobrir a verdade?Meu celular vibrou sobre a mesa.Maya: Você precisa sair daí. Está se aproximando demais dele.Suspirei, bloqueando a tela.Se eu fosse embora agora, talvez nunca descobrisse o que realmente aconteceu.Guardei os documentos na bolsa e deixei o escritório. O corredor estava quase vazio, iluminado apenas pelas luzes discretas do andar executivo. Eu já estava perto do elevador quando ouvi uma voz atrás de mim.— Procurando alguma coisa, Isadora?Fechei os olhos por um instante.Matteo.Virei lentamente. Ele estava encostado à porta do próprio escritório, co
ISADORA COSTIEu não conseguia parar de pensar na última mensagem.“BOA MENTIRA, ISADORA. MAS AGORA MATTEO TAMBÉM ESTÁ PROCURANDO SEU IRMÃO.”Alguém sabia demais sobre mim, sabia da minha identidade falsa, da minha investigação e até dos meus sentimentos em relação ao desaparecimento do meu irmão.O pior era não saber se aquela pessoa estava tentando me ajudar ou me conduzir diretamente para uma armadilha.Naquela manhã, decidi procurar Maya.— Encontrei uma coisa. — ela disse assim que abri a porta do apartamento e colocou uma pasta sobre a mesa.— De onde veio?— Do contato que conseguiu algumas informações sobre os antigos negócios do seu pai.Abri a pasta e comecei a examinar os documentos. Havia registros bancários, cópias de contratos e relatórios de movimentações financeiras.Até que encontrei uma transferência suspeita.O pagamento havia sido realizado dois dias antes do incêndio que destruiu nossa casa, a empresa responsável pelo depósito pertencia a um grupo de fachada ligad
ISADORA COSTIA fotografia não saía da minha cabeça.Meu irmão estava vivo na época em que todos acreditavam que havia desaparecido. E, pior, estava ao lado de Vicente, o homem que parecia saber mais sobre a destruição da minha família do que qualquer outra pessoa.Mas havia outro detalhe que me perturbava: a pulseira de Maryssa.Eu já tinha visto aquele objeto antes. Minha mãe guardava uma fotografia antiga na qual meu pai aparecia segurando uma caixa de joias e entre elas estava uma pulseira idêntica.Por que Maryssa teria uma peça que pertencia à minha família?— Você precisa tomar cuidado. — Maya avisou, observando minha expressão — Se ela estiver envolvida no desaparecimento do seu irmão, pode perceber que estamos investigando.— É por isso que ninguém pode saber o que descobrimos.— Nem Matteo?Olhei para ela.— Principalmente Matteo.Na manhã seguinte, cheguei à Vasques Group decidida a agir normalmente.Maryssa estava no escritório de Matteo quando passei pelo corredor. A port
ISADORA COSTI Eu deveria ter imaginado que Matteo Vasques tinha um passado tão complicado quanto seu presente, mas não esperava encontrar uma mulher disposta a me lembrar disso.Cheguei à empresa pouco depois das nove. Ainda estava tentando entender a mensagem que havia encontrado em minha bolsa na noite anterior."MATTEO ESTÁ PROTEGENDO O HOMEM QUE DESTRUIU SUA FAMÍLIA. E SEU IRMÃO SABE DISSO."Aquelas palavras não saíam da minha cabeça.Eu precisava descobrir quem havia escrito o bilhete. E, principalmente, por que meu irmão estaria envolvido em algo tão perigoso.— Bom dia, Isabela.Levantei os olhos e encontrei Vanessa diante da minha mesa.— Bom dia.— O senhor Vasques pediu que você acompanhe a organização de uma reunião especial hoje.— Com os investidores?— Não exatamente. Uma convidada importante está chegando.Antes que eu pudesse perguntar quem era, o elevador privativo se abriu.E ela apareceu.A mulher era elegante, com cabelos castanhos perfeitamente arrumados, vestido
ISADORA COSTI— Agora me entregue a fotografia, Isadora.Meu verdadeiro nome nos lábios de Matteo soou como uma sentença.Durante alguns segundos, nenhum de nós se moveu. Eu segurava a fotografia com tanta força que sentia o papel dobrar entre meus dedos.— Há quanto tempo sabe? — perguntei.— Tempo suficiente.— Então por que me deixou entrar na sua empresa?Matteo não respondeu imediatamente, seus olhos permaneceram presos aos meus.— Porque queria descobrir o que você estava procurando.— Você destruiu minha família e ainda quer saber o que estou procurando? — perguntei, soltando uma risada amarga.A expressão dele endureceu.— Cuidado com as acusações que faz.— Meu pai morreu, meu irmão desapareceu e seu nome aparece nos documentos daquela noite. O que espera que eu pense?— A fotografia. — pediu, estendendo a mão novamente.— Não.Pela primeira vez, percebi algo diferente em seu olhar. Não era raiva, era uma espécie de preocupação que ele tentava esconder.— Isadora, você não en
ISADORA COSTIA mensagem sobre Vicente não saía da minha cabeça."ELE SABE QUEM VOCÊ É. "Passei a noite inteira tentando descobrir se aquilo era uma ameaça ou um aviso. Se Vicente conhecia minha verdadeira identidade, por que continuava me deixando circular pela empresa? E, principalmente, por que Matteo parecia tão interessado em testar meus limites?Eu precisava de respostas, e talvez elas estivessem atrás da porta que todos tinham me proibido de abrir.Na manhã seguinte, cheguei à Vasques Group antes do horário habitual. O prédio ainda estava silencioso, e poucos funcionários haviam chegado. Era a oportunidade perfeita para investigar os arquivos antigos.Eu sabia que estava arriscando meu disfarce, mas já havia esperado três anos, não pretendia voltar para casa de mãos vazias.A porta ficava no fim de um corredor pouco movimentado, no décimo quinto andar. Eu a havia visto no primeiro dia, mas nunca conseguira chegar perto o suficiente para ler a placa.Naquela manhã, descobri que







