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Capítulo 4

Author: DANI VENCES
last update publish date: 2026-10-11 21:51:30

Fernanda

A manhã de quarta-feira não começou com o sol; começou com o som agudo de porcelana se espatifando contra o piso da cozinha e o choro imediato de Diego. Eu ainda estava com a escova de dentes na boca quando corri. Douglas olhava para o chão com os olhos arregalados, e Diego, assustado com o barulho, soluçava. O copo de leite — o último da jarra — agora era um mapa de cacos e líquido branco sobre o azulejo frio.

Eu estava atrasada. Terrivelmente atrasada.

Meus olhos ardiam. Passei a noite em um estado de vigília febril, alternando entre as planilhas de logística da MedLife e pesquisas obsessivas sobre os irmãos Campos. Cada foto que eu encontrava de Jorge e Henrique era um labirinto novo. Eu não conseguia dormir porque, toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Henrique se sobrepondo à memória borrada do homem no hotel. A dúvida era uma doença silenciosa.

— Vamos, meninos! Por favor, a mamãe está com muita pressa! — minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia.

Ajoelhei-me para limpar o leite, ignorando o corte leve no meu dedo. A logística de sair de casa tornou-se um exercício de sobrevivência. Tentei calçar os tênis de Douglas enquanto Diego, em uma de suas crises de teimosia matinal, decidia que não queria usar o casaco azul de jeito nenhum. No apartamento pequeno, cada minuto perdido parecia uma hora.

— Diego, o casaco! Agora! — ordenei, sentindo o suor frio brotar sob minha blusa de seda branca.

Finalmente, arrastei os dois para o Celta. O trânsito de São Paulo naquela manhã parecia uma conspiração. A Marginal Tietê estava travada, um organismo de metal e fumaça tentando me impedir de chegar ao meu destino. No banco de trás, os gêmeos sentiram minha tensão. Eles estavam agitados, batiam os pés contra o banco e disputavam um boneco de super-herói com uma ferocidade que me deixava à beira de um colapso nervoso.

— Douglas, Diego! Silêncio! — gritei, batendo no volante.

O silêncio que se seguiu no carro foi súbito e pesado, quebrado apenas pelo toque estridente do meu celular no console. O visor mostrava o nome que fazia meu estômago despencar até o assoalho do carro: Henrique CAMPOS.

Respirei fundo, tentando estabilizar a voz, e atendi no viva-voz.

— Sim, senhor?

— Onde está o relatório da fusão com a BioTech, Fernanda? — A voz dele não era humana; era uma lâmina. — Eu disse que o queria na minha mesa às oito em ponto. São oito e três. Eu não pago para que você gerencie seu tempo; eu pago para que você siga minhas ordens.

— Sr. Campos, eu tive um imprevisto doméstico grave... mas o relatório está aqui comigo, impresso. Chego em quarenta minutos. O trânsito está...

— Quarenta minutos? — O tom dele subiu um oitavo, carregado de um desprezo gélido. — Você tem exatamente vinte minutos, Fernanda. Se esse relatório não estiver na minha mesa no prazo, não se incomode em subir. Considere-se parte das estatísticas de rotatividade da MedLife. Eu não tolero mediocridade, muito menos desculpas baseadas em "imprevistos".

O sinal de linha ocupada ecoou no carro como uma sentença. Olhei para o Waze. A creche ficava a quinze minutos na direção oposta. O cálculo era simples e cruel: se eu fosse deixá-los, eu seria demitida. Se eu perdesse o emprego, não haveria creche, não haveria aluguel, não haveria MedLife. Eu não tinha para onde correr.

— Droga! — bati novamente no volante, as lágrimas de frustração finalmente escapando.

Olhei pelo retrovisor. Douglas e Diego me encaravam com olhos enormes, assustados. Eu não tinha escolha. A ética profissional era um luxo que eu não podia mais pagar.

— Meninos, ouçam a mamãe — disse, tentando suavizar o tom enquanto fazia uma manobra brusca para sair da Marginal. — Nós vamos fazer uma visita rápida ao trabalho da mamãe. Vocês precisam ser fantasmas. Silenciosos, invisíveis. Como se estivessem brincando de esconde-esconde com o mundo. Combinado?

Eles assentiram com a seriedade de quem entende que a sobrevivência da mãe depende disso.

Estacionei o carro na garagem privativa, rezando para que os seguranças estivessem distraídos. Peguei o relatório em uma mão e as mãos pequenas deles na outra. Subimos pelo elevador de serviço, o espaço apertado cheirando a produtos de limpeza e metal. Meu coração martelava contra as costelas, um tambor de guerra que eu achava que ia me fazer desmaiar antes de chegarmos ao décimo andar.

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