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Capítulo 10

Autor: Pombo do Mar
Com uma garrafa de cerveja na mão, fiquei parada na varanda e acabei lembrando das palavras de uma amiga.

Ela disse que o Otávio ia levar a Camila para passar férias numa ilha.

O tom dela vinha carregado de frustração, como quem odeia ver alguém desperdiçar uma oportunidade:

— Você passou tantos anos ao lado dele e nunca conseguiu ficar com ele? Se tivesse se casado, teria poupado uma vida inteira de sofrimento.

Sorri, sem força.

Eles agora devem estar vivendo um romance açucarado.

Daqui pra frente, o Natal dele provavelmente nunca mais vai precisar de mim.

Como se a vida dele simplesmente já não precisasse da minha presença.

Quando essa mesma amiga descobriu a relação confusa que eu tinha com o Otávio, também me xingou, disse que eu era patética.

Eu sei que fui mesmo.

Ele nunca disse que gostava de mim, e ainda assim eu continuei ao lado dele.

Eu o amava demais.

Eu não suportava a ideia de perder ele.

Mesmo aquela intimidade autoenganosa me fazia sentir como se eu ainda tivesse ele.

Mas toda aquela felicidade falsa era como fogos de artifício: brilhava por um instante e logo se apagava.

— Se importa se eu ficar aqui com você?

Meus pensamentos foram interrompidos. Virei a cabeça.

Ícaro estava com um cigarro entre os lábios e inclinou o queixo na minha direção.

Quando balancei a cabeça em negativa, ele se aproximou, acendeu o cigarro e deu uma tragada profunda.

Puxei assunto, meio sem jeito:

— Você passar o Natal aqui sozinho... não tem problema? Seus pais, onde estão?

Ícaro soltou a fumaça e respondeu com indiferença:

— Estão bem longe.

Quase me dei um tapa. Me apressei em pedir desculpas:

— Desculpa!

Ícaro me lançou um olhar, e um sorriso surgiu em seu rosto.

— Eles estão se divertindo num cruzeiro rumo à Antártida.

Fechei a boca na hora, me sentindo completamente idiota.

Ícaro não aguentou e riu.

A fumaça entrou pela garganta, ele tossiu algumas vezes e, sem cerimônia, pegou minha cerveja e deu um gole.

Falei, meio sem graça:

— Eu já bebi dessa.

Ele me estendeu outra lata, ainda fechada, mas continuou segurando a minha, como se fosse a coisa mais natural do mundo:

— O que costuma ter de divertido por aqui no inverno?

Fui puxada pra conversa e pensei um pouco antes de responder:

— Não tem muita coisa pra fazer. É frio demais. Dá pra ir ao cinema.

Ícaro assentiu de leve.

Quebrei o silêncio, curiosa:

— Por que você veio pra cá, afinal?

Ícaro estreitou os olhos, olhando para longe:

— Pra buscar inspiração. Você não acha que o inverno daqui é especialmente bonito?

— É sim... então quando você vai embora?

Dessa vez, Ícaro não respondeu de imediato.

Depois de um tempo, apagou a ponta do cigarro na lata de alumínio e ergueu levemente o canto da boca:

— Eu pretendia ir embora na primavera. Mas agora estou pensando em ficar mais um tempo.

— Por quê?

— Porque...

Meu celular tocou de repente. Era um número desconhecido.

Fiz um gesto para o Ícaro, que entendeu e se afastou da varanda.

— Alô?

Do outro lado da linha houve um longo silêncio. Então, a voz do Otávio finalmente surgiu:

— Paula... você trocou de número?
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