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Capítulo 9

Author: Pombo do Mar
Antes de voltar, eu jamais imaginei que, logo na primeira noite, estaria sentada no sofá, quase encostando a testa na de um homem desconhecido.

Pressionei um algodão sobre o ferimento e só então fiquei sabendo que o nome dele era Ícaro.

Ele era pintor e tinha vindo pra cá em busca de paisagens.

Franzi a testa, observando a ferida:

— Parece bem fundo... será que não precisa ir ao hospital tomar vacina antitetânica?

Ícaro passou a mão no queixo e respondeu com toda seriedade:

— Acho que vou ter que tomar vacina antirrábica.

Demorei um segundo pra entender que ele estava me provocando.

Lancei um olhar feio, mas sem muita convicção, afinal, eu estava errada.

Ícaro riu:

— Essa marca de mordida ficou até bem redondinha. Tem um certo valor estético.

......

Minha mãe gostou muito do Ícaro e vivia convidando ele pra jantar em casa.

Ela me dava indiretas:

— O Ícaro é ótimo, vive ajudando eu e seu pai, olha como ele é bonito! Se vocês dois se casarem e tiverem um filho, com certeza vai ser...

Suspirei, sem paciência:

— Mãe, já chega.

Não era que eu desprezasse o Ícaro, mas uma vez eu tinha visto o casaco que ele usava.

Aquele sobretudo que ele jogou casualmente sobre o encosto do sofá, eu já tinha visto no Otávio.

Um casaco feito sob medida por uma família italiana centenária de alfaiates artesanais.

Uma única peça custava, no mínimo, algumas dezenas de milhares de dólares.

Ele era rico. Não fazia parte do mesmo mundo que eu.

Ainda assim, Ícaro sabia muito bem como agradar pessoas de meia-idade e idosos.

Desde que chegou, os galões de água de casa passaram a ser carregados por ele, e até meu pai, tão exigente, não economizava elogios.

Na véspera de Natal, minha mãe chegou a convidar ele também, dizendo que era pra jantarmos juntos.

Reclamei em voz baixa:

— Pra que você chamou ele?

Minha mãe me lançou um olhar atravessado:

— O Ícaro fica aqui sozinho, coitado. Você tem coragem de deixar ele passar a noite sem nem comer um macarrão caseiro?

Não tive como responder.

Vi Ícaro se sentar à mesa, sorrindo animado:

— Helena, esse macarrão caseiro que você faz é maravilhoso.

Minha mãe ficou radiante e não parava de colocar mais macarrão no prato dele:

— Se gostou, come mais um pouco!

Quanto mais falava, mais ela se empolgava, até que suspirou, olhando de canto pra mim:

— Quando é que você vai trazer um homem pra casa?

Ícaro ainda estava ali. Fiquei constrangida:

— Mãe, o que você tá dizendo?

Ícaro olhou pra mim e disse:

— A Paula é tão bonita, com certeza tem muita gente atrás dela. Pode ficar tranquila.

Minha mãe fez um bico:

— Tranquila por quê? Ela puxou a mim, sempre foi bonita desde pequena. Daqui a pouco eu te mostro fotos dela de criança...

Eu não aguentei mais:

— Mãe!

Ícaro, porém, sorriu de leve:

— Quero ver, sim.

......

Depois do jantar, minha mãe realmente pegou o álbum de fotos e começou a folhear junto com o Ícaro.

— Aqui ela tinha cem dias, toda gordinha, não era uma graça? Quando era pequena, era tão branquinha, com esses olhos grandes... os vizinhos adoravam ela, diziam que parecia uma boneca. Essa aqui é de uma apresentação artística, olha esse blush exagerado, chega a ser engraçado...

Antes que ela terminasse, meu pai a chamou, e ela foi embora.

Aproximei-me, sem graça:

— Minha mãe é assim mesmo, não liga. Se não quiser ver, não precisa...

Ícaro levantou o olhar, os olhos ondulando num sorriso:

— Não liguei. Ela tem razão. Você era muito fofa quando criança.

Fiquei parada, sem reação.

......

Depois de assistir ao especial de Natal, o barulho dos fogos lá fora ainda não tinha parado.

Aqui não havia proibição para fogos de artifício; eles explodiam por toda parte.

Mesmo sendo simples e baratos, quando se abriam no céu, eram tão deslumbrantes quanto qualquer outro.
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