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Ela mandou eu ir embora.E eu fui.Quando voltei, encontrei no fundo do armário aquele pijama.Eu sabia que era um conjunto de casal que ela tinha comprado. Na época, não falei nada e até cheguei a usar algumas vezes.Toda vez que ela via, ficava extremamente feliz. Ria baixinho atrás de mim e ainda tirava fotos.Antes de ir embora, ela me pediu para jogar o pijama fora.Não sei por quê, mas não joguei. Guardei no armário.Peguei o pijama nas mãos e fiquei ali, parado, olhando para ele.Só então, tarde demais, entendi:Na verdade, eu gostava da Paula havia muito tempo.E, no fundo, quem dependia mais dela era eu.Mas, no meu subconsciente, eu achava que não devia gostar dela.Lembro que, antes de morrer, minha mãe me disse para nunca amar demais alguém, porque sentimentos matam.Foi o amor que matou ela.Ela passou a vida inteira apostando tudo em um único homem e, no fim, perdeu até a própria vida.Eu acreditava que gostar de alguém passa, que o amor não é confiável.Que, por mais a
— Mas agora eu entendi. Ninguém é insubstituível. A vida segue, com ou sem qualquer pessoa. Um dia, você também vai conseguir deixar isso pra trás.Levantei o pulso e olhei o relógio. Já tinham se passado quase cinco minutos.O Ícaro é mesquinho. Se eu atrasasse, ele certamente faria comentários atravessados.Virei o rosto e acenei:— Eu vou indo.Já tinha caminhado um bom trecho quando, atrás de mim, veio um grito rasgado, desesperado:— Paula, eu não consigo deixar você ir! Eu nunca vou conseguir!Não diminui o passo.— Paula, eu não consigo deixar você ir...Enquanto eu tirava os sapatos, ouvi Ícaro, encostado na parede, falar num tom irônico, me lançando olhares enviesados.Fingi naturalidade:— Minha mãe chamou a gente pra comer macarrão caseiro daqui a pouco. Você vai?Ele esqueceu na hora o teatrinho de ciúme:— Vou!......A notícia de que o pintor genial Ícaro faria uma exposição tomou conta dos assuntos mais comentados.Uma amiga minha ficou enlouquecida e me ligou:— Por fa
— E mais alguma coisa?Não consegui conter o ardor no nariz. Abaixei a cabeça para disfarçar:— Não... não tem mais nada.Ícaro abriu um sorriso malicioso:— Olha só... vai chorar, é?Meus olhos estavam cheios d’água, e ele se inclinou para me encarar de perto:— Chorou? Chorou mesmo?Esse cara só pode ser maluco!Com isso, não consegui mais chorar. Empurrei ele, irritada:— Você é doido?!Ele riu, o canto dos olhos se erguendo:— Eu sei que você não quer se despedir de mim. Volto depois de amanhã de manhã. Não esquece de ir me buscar.Fiquei surpresa:— Você ainda vai voltar?— Óbvio. — Ele me lançou um olhar de lado e passou a mão no meu rosto, enxugando as lágrimas. — Eu paguei um ano inteiro de aluguel.Perguntei sem pensar:— E depois de um ano?Ícaro levou a mão ao queixo, pensativo:— Daqui a um ano... acho que a sogra não vai cobrar aluguel do genro.Meu rosto esquentou. Levantei a mão para bater nele:— Quem é genro de quem?!Ícaro segurou meu pulso e me puxou para os braços
— Vamos ficar juntos. Eu sei que você gosta de mim. Daqui pra frente, tudo o que você quiser, eu te dou. Não vou mais ficar com ninguém. — Volta comigo, Paula.Eu encarei ele por um tempo e não consegui evitar o pensamento: se ele tivesse dito isso alguns meses antes, o quanto eu teria ficado feliz?Eu gostei dele por tantos anos.Nesses dez anos, eu me cansei, chorei, sofri, mas nunca deixei de amar ele.Finalmente consegui aquilo que sempre sonhei: Otávio correspondeu aos meus sentimentos.Mesmo assim, achei tudo aquilo irônico. Um cansaço difícil de explicar subiu do fundo do peito.Balancei a cabeça:— Não.Otávio segurou meus ombros, o cenho franzido, a inquietação passando pelos olhos:— Por quê? Você ousa dizer que não gosta de mim?Levantei o olhar e encarei os olhos dele.Esse homem que eu amei por dez anos, que de garoto virou adulto diante de mim... a aparência quase não tinha mudado, mas eu sentia que tudo havia mudado.Pela primeira vez, tive a absoluta certeza de que nã
— Que pena... então, quando eu e o Otávio nos casarmos, você também tem que vir ao nosso casamento, viu?Não tive paciência pra joguinho de palavras e respondi de forma vaga:— Se der, eu vou.Durante toda a refeição, Otávio parecia não saber mais como demonstrar afeto. Ora colocava comida no prato da Camila, ora impedia que ela bebesse álcool; os dois grudados um no outro, melosos demais.Se fosse antes, eu com certeza estaria sofrendo.Mas, naquele momento, minha cabeça só estava ocupada pelo beijo do Ícaro.O que aquilo significava, afinal?Ele gostava de mim?E eu... o que faria?Eu gostava dele?Otávio intensificou ainda mais as demonstrações de carinho. Camila começou sorridente, mas, quando ele colocou um pedaço de carne bovina no prato dela, a expressão mudou de repente.Ela disse, ríspida:— Eu sou alérgica a carne bovina. Você esqueceu?Otávio congelou por um instante, prestes a responder, quando o salão ao lado explodiu em confusão.Na mesa dos familiares, a família do noi
Nesses dias, eu também fui pesquisar. Ícaro era um pintor genial, bastante conhecido no meio artístico. Cada obra dele valia pelo menos algumas dezenas de milhares de dólares.Houve até um quadro seu que já tinha sido arrematado em leilão por mais de trezentos mil dólares.— E você, anda pintando o quê ultimamente? Nunca vi você pintar nada.Ícaro baixou o olhar pra mim:— Não vou te contar.— Como se eu quisesse saber. Você é muito metido — Revirei os olhos.O vento gelado do mar parecia entrar direto pelos ossos. Eu tinha passado muitos anos no sul; um frio desses ainda me deixava meio sem jeito.Esfreguei as mãos e soprei ar quente nelas.Ícaro provocou:— Eu falei pra você se agasalhar mais. Só quis ficar bonita... agora tá com frio, né?Olhei de lado:— Um homem normal, numa hora dessas, já teria tirado o casaco pra dar pra mulher. Você é homem mesmo ou não?Na verdade, eu não costumava falar assim.Meus amigos sempre diziam que eu tinha um temperamento bom, mas não sei por quê







