Compartilhar

Onze Anos Amando Errado
Onze Anos Amando Errado
Autor: Pombo do Mar

Capítulo 1

Autor: Pombo do Mar
Quando abri os olhos, senti o corpo inteiro dolorido.

Mesmo depois de tantas vezes na cama, eu ainda não conseguia me acostumar com a resistência física impressionante do Otávio.

Virei de lado.

Ele já estava acordado, com as costas largas nuas sob a luz do sol, a pele num tom de mel e os olhos preguiçosos.

— Por que você acordou tão cedo? — A voz dele saiu rouca.

A rigidez dolorida na cintura fez minha testa se franzir.

Inclinei o corpo para vestir a meia-calça, mas percebi que ele tinha rasgado a peça; não dava mais pra usar.

Ele virou de lado, pegou minha lingerie com a ponta dos dedos e estendeu para mim, com um sorriso malicioso nos lábios:

— Quantos anos você já tem e ainda usa meia branca assim? É muito cafona. Inventa algo novo.

Peguei a lingerie:

— Então eu compro outras. Você gosta de que tipo...

Otávio interrompeu:

— Não precisa. Daqui a pouco vou mudar a senha do portão. Depois disso, é melhor você não vir mais.

Fiquei paralisada.

Eu mantinha esse tipo de relação com o Otávio havia um ano.

No começo, ele me chamava a cada poucos dias.

Depois, tirando os períodos em que eu fazia hora extra, eu praticamente passei a morar na casa dele.

No dia a dia, eu cuidava das tarefas domésticas.

Quando saíamos cedo do trabalho, sentávamos juntos no sofá pra ver filmes e comer pipoca, e antes mesmo de o filme acabar, já ficávamos aninhados um no outro.

Como um casal de verdade.

Aos poucos, me acostumei com essa vida.

Às vezes, eu acabava pensando que talvez o Otávio também tivesse se habituado à minha presença e que, se um dia formássemos uma família, seríamos muito felizes.

Mas agora ele estava dizendo que eu não devia voltar mais.

Perguntei:

— É alguém da sua família que vai vir? Ou você anda muito ocupado com o trabalho, eu posso...

Ele se levantou e me olhou, os lábios curvados num sorriso:

— Não. Ela aceitou ser minha namorada.

Demorei um pouco pra entender de quem ele estava falando.

Ultimamente, eu tinha ouvido dizer que o Otávio estava atrás de uma mulher recém-formada na faculdade.

Ao longo dos anos, sempre houve muitas mulheres ao redor dele, indo e vindo.

A que ficou mais tempo não passou de três meses.

Eu tinha achado que dessa vez era só mais um capricho momentâneo e não dei muita importância.

Com a garganta seca, perguntei:

— Você está falando sério?

Otávio riu:

— Estou. Ela é diferente de todas as outras. Paula Amorim, você não sabe... ela é muito pura.

— Eu não quero que ela descubra o que aconteceu entre nós. Ela ficaria chateada. Eu levei muito tempo pra conquistar ela.

A luz do sol atravessava a cortina, forte demais, a ponto de causar tontura.

Depois de meio segundo, falei com calma:

— Tudo bem. Então hoje mesmo tiro minhas coisas daqui.

Otávio pegou uma calça longa cinza e vestiu a peça sem se importar:

— Não precisa ser tão rápido. Você não devolveu aquele apartamento? Fica mais uns dias, encontra um lugar e depois vai.

Fechei os olhos por um instante. A ardência explodiu dentro deles, deixando tudo confuso:

— Não precisa. Eu vou embora hoje.

Eu mesma não sabia por que estava com tanta pressa.

O Otávio tinha razão: eu não tinha pra onde ir.

Mas eu só queria sair dali imediatamente.

Sentia como se ele tivesse arrancado toda a minha pele e me deixado exposta ao sol, à beira de ser engolida pela vergonha.

Na casa do Otávio, eu não tinha muitas coisas.

O que mais comprei foram utensílios de cozinha pra cozinhar pra ele, roupa de cama, algumas almofadas e itens de decoração.
Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Onze Anos Amando Errado   Capítulo 20

    Ela mandou eu ir embora.E eu fui.Quando voltei, encontrei no fundo do armário aquele pijama.Eu sabia que era um conjunto de casal que ela tinha comprado. Na época, não falei nada e até cheguei a usar algumas vezes.Toda vez que ela via, ficava extremamente feliz. Ria baixinho atrás de mim e ainda tirava fotos.Antes de ir embora, ela me pediu para jogar o pijama fora.Não sei por quê, mas não joguei. Guardei no armário.Peguei o pijama nas mãos e fiquei ali, parado, olhando para ele.Só então, tarde demais, entendi:Na verdade, eu gostava da Paula havia muito tempo.E, no fundo, quem dependia mais dela era eu.Mas, no meu subconsciente, eu achava que não devia gostar dela.Lembro que, antes de morrer, minha mãe me disse para nunca amar demais alguém, porque sentimentos matam.Foi o amor que matou ela.Ela passou a vida inteira apostando tudo em um único homem e, no fim, perdeu até a própria vida.Eu acreditava que gostar de alguém passa, que o amor não é confiável.Que, por mais a

  • Onze Anos Amando Errado   Capítulo 19

    — Mas agora eu entendi. Ninguém é insubstituível. A vida segue, com ou sem qualquer pessoa. Um dia, você também vai conseguir deixar isso pra trás.Levantei o pulso e olhei o relógio. Já tinham se passado quase cinco minutos.O Ícaro é mesquinho. Se eu atrasasse, ele certamente faria comentários atravessados.Virei o rosto e acenei:— Eu vou indo.Já tinha caminhado um bom trecho quando, atrás de mim, veio um grito rasgado, desesperado:— Paula, eu não consigo deixar você ir! Eu nunca vou conseguir!Não diminui o passo.— Paula, eu não consigo deixar você ir...Enquanto eu tirava os sapatos, ouvi Ícaro, encostado na parede, falar num tom irônico, me lançando olhares enviesados.Fingi naturalidade:— Minha mãe chamou a gente pra comer macarrão caseiro daqui a pouco. Você vai?Ele esqueceu na hora o teatrinho de ciúme:— Vou!......A notícia de que o pintor genial Ícaro faria uma exposição tomou conta dos assuntos mais comentados.Uma amiga minha ficou enlouquecida e me ligou:— Por fa

  • Onze Anos Amando Errado   Capítulo 18

    — E mais alguma coisa?Não consegui conter o ardor no nariz. Abaixei a cabeça para disfarçar:— Não... não tem mais nada.Ícaro abriu um sorriso malicioso:— Olha só... vai chorar, é?Meus olhos estavam cheios d’água, e ele se inclinou para me encarar de perto:— Chorou? Chorou mesmo?Esse cara só pode ser maluco!Com isso, não consegui mais chorar. Empurrei ele, irritada:— Você é doido?!Ele riu, o canto dos olhos se erguendo:— Eu sei que você não quer se despedir de mim. Volto depois de amanhã de manhã. Não esquece de ir me buscar.Fiquei surpresa:— Você ainda vai voltar?— Óbvio. — Ele me lançou um olhar de lado e passou a mão no meu rosto, enxugando as lágrimas. — Eu paguei um ano inteiro de aluguel.Perguntei sem pensar:— E depois de um ano?Ícaro levou a mão ao queixo, pensativo:— Daqui a um ano... acho que a sogra não vai cobrar aluguel do genro.Meu rosto esquentou. Levantei a mão para bater nele:— Quem é genro de quem?!Ícaro segurou meu pulso e me puxou para os braços

  • Onze Anos Amando Errado   Capítulo 17

    — Vamos ficar juntos. Eu sei que você gosta de mim. Daqui pra frente, tudo o que você quiser, eu te dou. Não vou mais ficar com ninguém. — Volta comigo, Paula.Eu encarei ele por um tempo e não consegui evitar o pensamento: se ele tivesse dito isso alguns meses antes, o quanto eu teria ficado feliz?Eu gostei dele por tantos anos.Nesses dez anos, eu me cansei, chorei, sofri, mas nunca deixei de amar ele.Finalmente consegui aquilo que sempre sonhei: Otávio correspondeu aos meus sentimentos.Mesmo assim, achei tudo aquilo irônico. Um cansaço difícil de explicar subiu do fundo do peito.Balancei a cabeça:— Não.Otávio segurou meus ombros, o cenho franzido, a inquietação passando pelos olhos:— Por quê? Você ousa dizer que não gosta de mim?Levantei o olhar e encarei os olhos dele.Esse homem que eu amei por dez anos, que de garoto virou adulto diante de mim... a aparência quase não tinha mudado, mas eu sentia que tudo havia mudado.Pela primeira vez, tive a absoluta certeza de que nã

  • Onze Anos Amando Errado   Capítulo 16

    — Que pena... então, quando eu e o Otávio nos casarmos, você também tem que vir ao nosso casamento, viu?Não tive paciência pra joguinho de palavras e respondi de forma vaga:— Se der, eu vou.Durante toda a refeição, Otávio parecia não saber mais como demonstrar afeto. Ora colocava comida no prato da Camila, ora impedia que ela bebesse álcool; os dois grudados um no outro, melosos demais.Se fosse antes, eu com certeza estaria sofrendo.Mas, naquele momento, minha cabeça só estava ocupada pelo beijo do Ícaro.O que aquilo significava, afinal?Ele gostava de mim?E eu... o que faria?Eu gostava dele?Otávio intensificou ainda mais as demonstrações de carinho. Camila começou sorridente, mas, quando ele colocou um pedaço de carne bovina no prato dela, a expressão mudou de repente.Ela disse, ríspida:— Eu sou alérgica a carne bovina. Você esqueceu?Otávio congelou por um instante, prestes a responder, quando o salão ao lado explodiu em confusão.Na mesa dos familiares, a família do noi

  • Onze Anos Amando Errado   Capítulo 15

    Nesses dias, eu também fui pesquisar. Ícaro era um pintor genial, bastante conhecido no meio artístico. Cada obra dele valia pelo menos algumas dezenas de milhares de dólares.Houve até um quadro seu que já tinha sido arrematado em leilão por mais de trezentos mil dólares.— E você, anda pintando o quê ultimamente? Nunca vi você pintar nada.Ícaro baixou o olhar pra mim:— Não vou te contar.— Como se eu quisesse saber. Você é muito metido — Revirei os olhos.O vento gelado do mar parecia entrar direto pelos ossos. Eu tinha passado muitos anos no sul; um frio desses ainda me deixava meio sem jeito.Esfreguei as mãos e soprei ar quente nelas.Ícaro provocou:— Eu falei pra você se agasalhar mais. Só quis ficar bonita... agora tá com frio, né?Olhei de lado:— Um homem normal, numa hora dessas, já teria tirado o casaco pra dar pra mulher. Você é homem mesmo ou não?Na verdade, eu não costumava falar assim.Meus amigos sempre diziam que eu tinha um temperamento bom, mas não sei por quê

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status