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Capítulo 3

Author: Pombo do Mar
Otávio era bonito como alguém de outro mundo.

Naquela mesma tarde, quase todas as garotas da escola vieram se debruçar nas janelas só para olhar pra ele.

Poucos dias depois, até a garota mais popular apareceu para entregar uma carta de amor pra ele.

Mas ele não dava atenção a ninguém.

Ficava sempre largado no fundo da sala, dormindo.

Parecia não se interessar por nada.

Não levava material nenhum para a aula, não prestava atenção, e os professores também não se importavam com isso.

Só de vez em quando, durante as provas, ele cutucava minhas costas:

— Deixa eu copiar suas respostas.

Ele parecia ter certeza de que eu não recusaria.

E eu realmente não recusava.

Justamente por causa disso, muitos garotos passaram a implicar com ele, dizendo que ele se achava demais.

Grupos de encrenqueiros vinham provocar ele a cada três ou cinco dias.

Naquela época, eu via com frequência ele brigando no beco atrás da escola.

Um dia, passei por ali e vi Otávio encostado na parede do beco, fumando sozinho, o rosto todo machucado.

Hesitei por um instante, parei a bicicleta e tirei um curativo do bolso, estendendo pra ele:

— Seu rosto está sangrando.

Ele levantou a cabeça e lançou um olhar frio pra mim:

— Cai fora.

Naquele momento, achei ele insuportável.

Quem ele achava que era?

Eu nem gostava dele!

Depois disso, não importava quantas vezes ele cutucasse pedindo respostas, eu nunca mais dei bola.

Um mês depois, as garotas que vinham olhar Otávio diminuíram, mas os boatos sobre ele na turma começaram a aumentar.

Diziam que aquela jaqueta acolchoada que ele tinha usado só uma vez era de uma marca que ninguém conhecia e custava mais de três mil dólares.

Diziam que ele era um filho ilegítimo, que a mãe dele era amante.

Que ele e a mãe tinham sido descobertos pela esposa do pai.

O pai acabou abandonando os dois, e a mãe dele não conseguiu mais se manter em Sol Nascente.

Por isso, levou o filho de volta para Porto Azul.

Os olhares lançados a Otávio passaram a carregar algo estranho, uma mistura de desprezo e curiosidade.

Naquela noite, quando eu voltava pra casa e passei pelo mesmo beco, encontrei Otávio caído no chão.

Parecia que ele tinha acabado de sair de outra briga.

Os dedos estavam cobertos de sangue, aquele rosto bonito cheio de ferimentos, e o sangue escorria da testa.

Eu não queria me meter, mas ele estava deitado de olhos fechados na neve.

A neve continuava caindo, ele já estava quase meio enterrado, sem nenhuma cor no rosto.

Fiquei com medo de que ele realmente morresse. Aproximei-me com cuidado e toquei nele:

— Você está bem?

Ele não reagiu.

Fiquei aflita e peguei o celular:

— Então vou ligar pra emergência!

Foi só então que Otávio abriu os olhos, franzindo a testa:

— De novo você?

Fiquei um pouco irritada, mas naquele momento não dava pra pensar nisso:

— Você está muito machucado. Eu vou te levar pro hospital.

— Intrometida. — Ele soltou um riso curto e fechou os olhos outra vez.

Não dei atenção. Liguei para a emergência.

Ele estava vestindo pouca roupa, só um moletom preto com capuz.

Hesitei por um instante e tirei meu casaco acolchoado vermelho, cobrindo o corpo dele.

Ele ficou surpreso por um segundo.

Quando eu estava indo embora, ele me chamou.

Virei a cabeça.

Meu casaco vermelho já era antigo, eu tinha comprado anos antes.

Sobre ele, o casaco parecia até meio ridículo.

O olhar dele estava sombrio:

— Você não sabe que a minha mãe é amante?

Subi na bicicleta:

— Já ouvi falar. E daí?

— Mesmo assim você me salvou?

— Sua mãe é sua mãe, você é você. — Pensei um pouco antes de completar. — Ser amante é errado, mas não a ponto de alguém merecer morrer por isso.

Otávio não disse nada.

A neve pousava nos cílios dele, que tremiam levemente, enquanto ele me encarava fixo.

Logo se ouviu o som da ambulância.

Acenei com a mão:

— Não esquece de me devolver o casaco.

Depois disso, Otávio ficou uma semana sem aparecer na escola.

E aqueles alunos que brigavam com ele também não tiveram um bom fim.

A mãe do Otávio apareceu furiosa na escola, e todos eles acabaram sendo expulsos.
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