LOGINEntrei no escritório naquela manhã com a sensação de que havia cometido um pequeno delito.
A culpa era de um batom vermelho e de um encontro depois do expediente que revirava meu estômago desde a noite anterior.
O batom era daqueles que não passam despercebidos. Exigem confiança e, principalmente, coragem para não acabar removido com um guardanapo antes do almoço. Só o passei porque a Jullie insistiu até eu ceder. Combinava com a blusa preta de gola alta, a saia off white de alfaiataria que marcava minha cintura e os saltos que eu reservava para dias em que precisava parecer mais confiante do que realmente me sentia.
Aquele dia tinha um motivo. E, se tudo desse certo, ninguém ali precisaria saber qual.
— Meu Deus.
Mal havia pousado a bolsa na cadeira quando a voz de Maia soou às minhas costas.
— O quê? — perguntei, virando-me.
Ela estava parada na entrada, com uma caneca de café na mão e a expressão de quem acabara de encontrar uma fofoca e decidia por onde começar.
— Você está vestida para o crime.
Olhei para a minha roupa.
— Bom dia para você também.
— Não, sério. — Ela se aproximou, estreitando os olhos. — Essa roupa, esse cabelo, esse batom...
— É um batom normal.
— É um convite ao pecado.
Revirei os olhos e peguei uns papéis sobre a mesa.
— Você precisa urgentemente de um hobby.
— Tenho vários. Investigar a vida alheia é o meu favorito.
— Percebi.
Maia tomou um gole de café sem desviar os olhos de mim.
— Tem encontro hoje?
Quase derrubei os papéis.
— O quê? Não.
Rápido demais. Eu sabia disso antes mesmo de terminar a palavra.
O sorriso dela se abriu devagar.
— Interessante.
— Não tem nada de interessante. Resolvi me arrumar um pouco mais, só isso.
— Você sempre se arruma.
— Exatamente.
— Mas não assim. — Ela encostou na minha mesa. — É alguém daqui? De fora? O batom é para causar boa impressão ou para o coitado nunca mais esquecer seu nome?
As perguntas vieram em rajada, sem sequer esperar resposta.
— Vou pedir transferência para o departamento de pessoas que não fazem perguntas — resmunguei.
— Excelente ideia. Eu iria atrás de você.
Ela riu, satisfeitíssima consigo mesma. Aproveitei o intervalo para escapar rumo à copa, torcendo para que a mudança de ambiente encerrasse o interrogatório.
Foi um erro.
Lewis e Mason estavam lá. Mason, encostado na bancada, mexia no celular. Lewis preparava café, de costas.
— Meninos! — anunciou Maia, entrando logo atrás de mim.
Fechei os olhos por um segundo. Não. Por favor, não.
— Preciso de uma opinião masculina.
Mason ergueu a cabeça na hora. Lewis nem se virou.
— Isso nunca terminou bem — comentou, mexendo o café.
— Vocês não acham que a Olivia está belíssima hoje?
Girei devagar para encará-la.
— Você está mesmo fazendo isso?
— Fazendo o quê? Um elogio coletivo? Autoestima no ambiente de trabalho é importante.
Mason guardou o celular e me examinou de cima a baixo, sem a menor cerimônia.
— Caramba.
— Não entra na onda dela — avisei, já arrependida de ter pisado ali.
— Estou falando sério, você está linda. Esse batom é particularmente perigoso. Eu diria que é uma arma branca, mas não quero ser acusado de incentivar a violência.
Maia gargalhou.
— Eu falei!
— E se eu não soubesse que você é areia demais para o meu caminhão, Olivia, estaria dando em cima de você agora. — Típico dele: brincalhão, inofensivo, sempre com uma piada pronta.
Ergui uma sobrancelha. Foi então que o notei: Lewis tinha se virado, com a caneca entre as mãos. Estivera em silêncio durante toda a conversa, mas me olhava. E não era o olhar que Mason tinha me dado. Era mais lento. Parou na minha boca por um segundo a mais do que seria educado, e voltou para os meus olhos como se nada tivesse acontecido.
— Está normal — disse, no tom de quem comenta a previsão do tempo.
Pisquei.
— Uau. Duas palavras. Estou emocionada.
Ele tomou um gole de café, sem pressa.
— Vocês dois são sempre tão agradáveis um com o outro — comentou Mason, dando um tapinha no ombro de Lewis. — É quase inspirador.
— Sou um amor de pessoa — falei, pegando uma xícara no armário.
— Concordo — disse Lewis. — Principalmente quando está longe de mim.
Virei o rosto devagar.
— Curioso. Eu ia dizer exatamente a mesma coisa.
— Que coincidência.
Mason levantou as duas mãos.
— Certo, vamos respirar. São nove da manhã. Guardem esse entusiasmo para depois do almoço.
Maia se debruçou na bancada, ainda sorrindo.
— Vocês por acaso teriam algum palpite de quem seria o encontro da Olivia?
— Maia!
— É uma pergunta legítima.
— Não tenho encontro. E, mesmo que tivesse, não seria da sua conta.
— Então por que tanto capricho? — Ela ignorou a minha cortada com uma elegância irritante.
Mexi o café com uma concentração extraordinária.
— Porque eu quis. — Dei de ombros. — E porque tenho uma reunião.
Lewis soltou uma risada curta pelo nariz.
Olhei direto para ele.
— Algum problema?
— Nenhum. Só acho interessante uma reunião que exige batom vermelho.
— Você tem algum problema com o meu batom vermelho?
Mason baixou a cabeça para esconder o sorriso.
— É, Lewis. Você tem algum problema com o batom dela?
Lewis pousou a caneca na bancada e abriu a boca, prestes a responder.
Não dei a ele a chance.
— Vocês estão muito desocupados, isso sim. Vou trabalhar. — Apontei para Mason. — Você está na minha lista de pessoas toleráveis. Não estrague isso.
— Farei o possível.
Peguei a xícara e saí. Já na porta, ouvi a voz de Lewis, baixa o bastante para que só eu escutasse:
— Boa reunião, Olivia.
Não olhei para trás. Mas apertei a xícara com mais força do que o necessário.
O elevador começou a descer e, antes que as portas se abrissem no estacionamento, meu celular vibrou dentro da bolsa com uma mensagem da minha mãe.“Pode me ligar quando estiver livre?”Suspirei ao ler a notificação.Minha mãe tinha uma relação bastante particular com a palavra livre. Na cabeça dela, “livre” significava qualquer momento em que eu não estivesse segurando alguma coisa com as duas mãos. E, mesmo nesses casos, ela provavelmente consideraria que eu poderia usar o ombro para apoiar o telefone.— Tudo bem se eu ligar para minha mãe enquanto vamos ao restaurante? — perguntei a Lewis, segurando o celular na palma da mão. — Ela é um pouco insistente.Ele olhou para mim de lado.— Claro. Desde que não se importe comigo ouvindo a conversa.— Ah, não. Provavelmente é alguma besteira.Apertei o botão para ligar antes que pudesse mudar de ideia. Minha mãe atendeu no segundo toque.— Olha só quem está viva!Fechei os olhos por um instante.— Oi, mãe.— Você ainda está trabalhando?—
Passei o dia sem encontrar com Lewis, e se alguém me perguntar se eu o estava evitando, vou negar até a morte.O encontrei na copa com Mason, e troquei de rota. Depois o vi entrar na sala da Maia, bem quando eu ia falar com ela, e desisti na hora. E tenho quase certeza que ele tentou falar comigo na hora do lanche da tarde, mas eu saí de fininho como a grande covarde que sou.Às cinco e quarenta da tarde, eu já tinha lido o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes sem entender uma palavra.Não era culpa do texto. O texto estava ótimo. Claro, objetivo e sem qualquer referência a namoros falsos, ex-noivos infiéis ou beijos impulsivos em restaurantes.Uma obra-prima da literatura jurídica.Meu celular vibrou ao lado do teclado.Lewis: Sala de reuniões. Cinco minutos.Olhei para a mensagem, depois para o relógio.Eu: Você sempre dá ordens assim ou isso faz parte do pacote de namorado?A resposta chegou antes que eu pudesse guardar o celular.Lewis: Quatro minutos.Revirei os olhos.O h
À meia-noite, mandei uma mensagem para Julie dizendo que precisava conversar com ela pessoalmente. O quanto antes.Às seis da manhã, ela apareceu na minha porta com café, donuts e a expressão de quem estava prestes a descobrir o maior escândalo da semana.Minha casa nem fica no caminho do trabalho dela, mas Julie nunca economizou esforços quando o assunto era se meter na minha vida.Eu a amo por isso.Na maioria das vezes.— Certo. Deixa eu ver se entendi. — Ela se senta no sofá, ainda mastigando um donut. — Você surtou na frente do Josh, beijou Lewis, que, vale lembrar, é alguém de quem você não gosta e que também não parece gostar de você… e agora vocês estão namorando de mentira?Fico olhando para o cappuccino entre minhas mãos.Quando ela coloca dessa forma, parece ainda pior.— Resumindo, sim.Julie mastiga devagar, como se estivesse tentando decidir se ri ou se chama uma ambulância.— Meu Deus, Liv.— Eu sei.— Não, você não sabe. Se soubesse, não teria feito isso.— Obrigada pe
O primeiro encontro foi horrível, odiei cada minuto. Mas imaginei que o segundo seria melhor... Acontece que o segundo também é um desastre.O restaurante é aconchegante demais para uma noite tão ruim. Luz âmbar, velas baixas nas mesas, um violão suave tocando em algum canto, cheiro de pão quente e alho. Um cenário que pede conversas longas e olhares demorados. Em vez disso, estou presa há quarenta minutos a um monólogo sobre placas de vídeo.Evan tem trinta anos e é bonito, não dá para negar. Cabelo escuro bem cortado, camisa azul-marinho de bom caimento, um relógio discreto no pulso. O problema é que, em menos de dez minutos, descobri que a paixão dele por computadores e jogos não desperta em mim absolutamente nada além de vontade de conferir as horas.Ele gesticula enquanto fala, os dedos desenhando no ar algo que imagino ser uma arquitetura de processador. Eu apoio o queixo na mão e assinto no que espero ser os momentos certos.— ...e aí a atualização quebrou tudo, porque eles mex
Entrei no escritório naquela manhã com a sensação de que havia cometido um pequeno delito.A culpa era de um batom vermelho e de um encontro depois do expediente que revirava meu estômago desde a noite anterior.O batom era daqueles que não passam despercebidos. Exigem confiança e, principalmente, coragem para não acabar removido com um guardanapo antes do almoço. Só o passei porque a Jullie insistiu até eu ceder. Combinava com a blusa preta de gola alta, a saia off white de alfaiataria que marcava minha cintura e os saltos que eu reservava para dias em que precisava parecer mais confiante do que realmente me sentia.Aquele dia tinha um motivo. E, se tudo desse certo, ninguém ali precisaria saber qual.— Meu Deus.Mal havia pousado a bolsa na cadeira quando a voz de Maia soou às minhas costas.— O quê? — perguntei, virando-me.Ela estava parada na entrada, com uma caneca de café na mão e a expressão de quem acabara de encontrar uma fofoca e decidia por onde começar.— Você está vestid
Assim que consigo sair dessa espiral depreciativa, pego o celular e mando uma mensagem para Julie.Olivia: adivinha quem acabou de receber um convite de casamento da irmã com direito a acompanhante que não tem? uhuu!Ela responde quase imediatamente.Julie: NÃO BRINCA.Julie: Você não pode aparecer lá sozinha. O que você falou pra sua irmã?Olivia: Eu disse que estava saindo com alguém. NÃO PRECISA FALAR NADA, EU SEI. ENTREI EM PÂNICO.Largo o telefone na mesa antes que ela tenha tempo de responder. Conhecendo Julie, isso pode levar a uma conversa bastante longa, e tenho documentos da conciliação de divórcio que vou conduzir no fim da tarde para analisar.Eu odeio divórcios. São o tipo de processo em que prefiro não me envolver, embora nem sempre tenha esse luxo. De vez em quando, especialmente quando o volume de demandas aumenta, acabo tendo que assumir alguns. E, bom, não dá para escolher só os casos agradáveis da profissão.Estou tentando me concentrar nos documentos quando a tela







