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Capítulo 07

Author: Lesca W
last update publish date: 2026-10-30 00:03:13

Passei o dia sem encontrar com Lewis, e se alguém me perguntar se eu o estava evitando, vou negar até a morte.

O encontrei na copa com Mason, e troquei de rota. Depois o vi entrar na sala da Maia, bem quando eu ia falar com ela, e desisti na hora. E tenho quase certeza que ele tentou falar comigo na hora do lanche da tarde, mas eu saí de fininho como a grande covarde que sou.

Às cinco e quarenta da tarde, eu já tinha lido o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes sem entender uma palavra.

Não era culpa do texto. O texto estava ótimo. Claro, objetivo e sem qualquer referência a namoros falsos, ex-noivos infiéis ou beijos impulsivos em restaurantes.

Uma obra-prima da literatura jurídica.

Meu celular vibrou ao lado do teclado.

Lewis: Sala de reuniões. Cinco minutos.

Olhei para a mensagem, depois para o relógio.

Eu: Você sempre dá ordens assim ou isso faz parte do pacote de namorado?

A resposta chegou antes que eu pudesse guardar o celular.

Lewis: Quatro minutos.

Revirei os olhos.

O homem tinha a capacidade irritante de transformar até uma conversa por mensagem em uma disputa de autoridade.

Salvei o documento, peguei meu bloco de anotações e fui até a sala de reuniões. Lewis já estava lá, sentado à cabeceira da mesa, com o notebook aberto e duas canecas de café ao lado.

Parei na porta.

— Não sabia que você era do tipo que oferecia café.

Ele ergueu os olhos e empurrou uma das canecas na minha direção.

— Sem açúcar. Você reclama quando colocam.

Peguei o café, contrariada por ele ter notado algo que eu não lembrava de ter dito diretamente a ele.

— Então você presta atenção nas pessoas.

— Quando elas reclamam alto o suficiente, é difícil não prestar.

Pronto. O Lewis que eu conhecia estava de volta.

Sentei e coloquei o bloco sobre a mesa.

— Certo. Vamos estabelecer as regras antes que você decida que precisa de uma planilha para administrar nosso relacionamento.

— Eu fiz uma.

Olhei para ele.

Lewis virou o notebook na minha direção.

Na tela, havia uma tabela com três colunas: assunto, acordo e observações.

Fiquei encarando o documento por alguns segundos.

— Você fez uma planilha?

— Achei que seria mais eficiente do que discutir a mesma coisa várias vezes.

— Você sabe que pessoas normais conversam, não sabe?

— E pessoas normais não beijam colegas de trabalho sem avisar.

Desviei o olhar para o café.

— Olha, eu já pedi desculpas — falei. — Preferiria que você parasse de falar comigo como se eu fosse uma estagiária que entregou um relatório errado. — Resmungo um pouco mais baixo.

— Se você parar de transformar qualquer discordância em uma ofensa pessoal, posso tentar.

Abri a boca. Fechei.

Lewis puxou o notebook para perto.

— Vamos começar pelo básico. Por quanto tempo você precisa disso?

— Até o casamento.

— Quando é?

— Daqui a dois meses.

Ele fez uma anotação.

— E depois?

— Depois, terminamos.

— Naturalmente?

— Não, Lewis. Vamos contratar um advogado para redigir um distrato amoroso.

Ele ergueu os olhos.

— Você é advogada. Achei que gostaria de formalizar as coisas.

Tentei não rir. Falhei por meio segundo, o que pareceu satisfazê-lo mais do que deveria.

— Depois do casamento, dizemos que não deu certo.

— Você está presumindo que vamos chegar ao casamento sem uma briga pública.

— Com você? Estou sendo otimista.

Ele anotou alguma coisa.

— O que você escreveu?

— “Olivia não tem confiança na capacidade de convivência do casal.”

— Apague.

Ele apagou, mas o canto da boca se moveu.

Era um sorriso pequeno, quase inexistente. O suficiente para me lembrar de que, quando queria, ele conseguia parecer menos insuportável.

O que era inconveniente.

Ele fez outra anotação.

— Segunda regra: nada de inventar detalhes sobre mim sem me consultar.

— Tipo o quê?

— Minha família. Meu passado. O que eu gosto de fazer nos fins de semana. Qualquer coisa que possa ser confirmada por outra pessoa.

— Você está sugerindo que eu faça uma entrevista?

— Estou sugerindo que você pare de improvisar.

— O improviso me trouxe até aqui.

— Exatamente. Esse é o problema.

Suspirei e abri meu bloco.

— Então vamos fazer isso direito. O que eu preciso saber sobre você? Família?

Lewis pareceu considerar a pergunta.

— Meus pais moram em outra cidade. Tenho uma irmã mais nova.

— Nome?

— Você não precisa memorizar minha árvore genealógica inteira hoje.

— Melhor amigo?

— Mason. E você?

— Jullie. Qual sua bebida favorita?

— Você poderia não transformar dois meses de namoro falso em uma investigação?

— Eu só estou tentando evitar que a gente seja desmascarado.

— Então tente fazer perguntas sem parecer estar dando ordens.

— Certo. E como nos conhecemos?

— Trabalhamos juntos.

— Ninguém acredita que duas pessoas que trabalham juntas e mal se cumprimentam de repente começaram a namorar.

— Então precisamos de uma história plausível.

Pensei por alguns segundos.

— Podemos dizer que começamos a conversar mais por causa de um caso.

— Qual caso?

— Não sei. Um dos nossos.

— Você quer inventar um caso específico?

— Você tem alguma sugestão melhor?

Ele abriu o notebook novamente e digitou algumas palavras.

— Podemos dizer que começamos a almoçar juntos depois de trabalhar em um processo complicado. A aproximação aconteceu aos poucos. Eu te convidei para tomar alguma coisa depois do expediente e você aceitou.

Ele continuou.

—  Começamos a sair. Percebemos que funcionava e estamos juntos há algumas semanas.

— Minha mãe vai querer te conhecer antes.

— Tudo bem, podemos marcar um jantar. Quanto menos pessoas envolvermos, melhor. Você precisa contar para alguém sobre o acordo?

— Jullie, e você?

— Mason. Temos que assumir o namoro no trabalho também, não podemos deixar nenhuma brecha, se a gente não convencer essas pessoas aqui, não vamos conseguir convencer ninguém.

A resposta foi tão imediata que parei de escrever.

— Você pensou sobre isso antes?

Lewis desviou os olhos para a tela.

— Pensei em algumas possibilidades.

— Por quê?

Ele ficou quieto por um instante.

— Porque, se vou participar disso, não pretendo ser pego desprevenido por causa de algum detalhe bobo.

Era uma resposta razoável. Irritantemente razoável.

— Certo. Vamos dizer que começamos a sair depois do trabalho. 

Olhei para ele, procurando algum sinal de que estivesse fazendo aquilo apenas para me provocar.

— Ótimo. E se um de nós quiser desistir?

— Conversamos antes de abandonar o outro no meio de uma situação complicada.

— Isso parece sensato demais para nós.

— Podemos acrescentar uma cláusula sobre sua tendência a dramatizar.

— Podemos acrescentar uma sobre sua incapacidade de falar sem parecer que está redigindo uma sentença.

Dessa vez, ele sorriu de verdade. Foi rápido, mas aconteceu.

E eu odiei perceber que queria vê-lo fazer aquilo de novo.

Lewis virou o notebook para mim.

— Leia.

A tabela tinha seis itens: duração, história do relacionamento, limites físicos, informações pessoais, compromissos familiares e desistência

— Então estamos de acordo?

— A princípio, sim.

— Você é incapaz de dar uma resposta simples?

— Sou advogada. É um risco ocupacional. — Levantei, recolhendo minhas coisas.

— Espere.

Parei.

Lewis pegou o celular e abriu a conversa comigo.

— Precisamos combinar como vamos agir quando estivermos juntos em público.

— Achei que isso estivesse implícito no namoro.

— E é por isso que estamos conversando. Você presume demais.

Sentei novamente, contrariada.

Ele começou a listar situações: como nos cumprimentaríamos diante de outras pessoas, o que responderíamos se perguntassem quando começamos a namorar, se seria aceitável andar de mãos dadas e como lidaríamos com fotos. Cada questão parecia tornar a mentira mais concreta.

Quando chegamos à última, eu já estava exausta.

— Fotos? — perguntei.

— Sua irmã pode querer uma foto nossa. Sua mãe também. Que tal começarmos com um jantar? Podemos tirar uma foto, nos conhecer melhor, fazer isso parecer mais natural.

— Hoje?

— Porque não? Que tal pizza?

— Parece perfeito.

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