LOGINAssim que consigo sair dessa espiral depreciativa, pego o celular e mando uma mensagem para Julie.
Olivia: adivinha quem acabou de receber um convite de casamento da irmã com direito a acompanhante que não tem? uhuu!
Ela responde quase imediatamente.
Julie: NÃO BRINCA.
Julie: Você não pode aparecer lá sozinha. O que você falou pra sua irmã?Olivia: Eu disse que estava saindo com alguém. NÃO PRECISA FALAR NADA, EU SEI. ENTREI EM PÂNICO.
Largo o telefone na mesa antes que ela tenha tempo de responder. Conhecendo Julie, isso pode levar a uma conversa bastante longa, e tenho documentos da conciliação de divórcio que vou conduzir no fim da tarde para analisar.
Eu odeio divórcios. São o tipo de processo em que prefiro não me envolver, embora nem sempre tenha esse luxo. De vez em quando, especialmente quando o volume de demandas aumenta, acabo tendo que assumir alguns. E, bom, não dá para escolher só os casos agradáveis da profissão.
Estou tentando me concentrar nos documentos quando a tela do celular acende de novo.
Julie: HAHAHAHAHAHAHAHA, perfeito. Agora só precisamos encontrar um gostoso de 1,80 m.
Reviro os olhos, mas não consigo impedir o sorriso que ameaça aparecer. Quem dera fosse fácil assim.
Olivia: Claro, só isso... Um homem bonito, alto e disponível. Consigo encontrar em qualquer esquina, tão fácil.
Julie: Talvez você devesse ir para o Tinder.
Arqueio uma sobrancelha enquanto leio a mensagem.
Tinder?
Isso parece uma medida desesperada. Será que estou tão desesperada assim?
Acho que estou.
Olivia: Odeio admitir, mas acho que talvez eu não tenha outra alternativa.
Fico olhando para a tela por alguns segundos antes de abrir a loja de aplicativos. Enquanto o Tinder baixa, começo a pensar em todos os problemas envolvidos nessa ideia. Primeiro, vou ter que inventar uma mentira convincente. Segundo, não pode ser só um caso de sexo sem compromisso, porque preciso de alguém que aceite ir a um casamento comigo e, de preferência, sobreviva ao interrogatório da minha família. Mas também não estou procurando um relacionamento sério.
É pedir demais?
Só preciso encontrar alguém decente, de quem eu consiga gostar o suficiente para passar algumas horas ao lado e que não me faça querer fugir antes da sobremesa. Ah, e que seja apresentável para a família. Claro.
O d******d termina, e eu abro o aplicativo imediatamente.
Nunca precisei usar o Tinder antes. Que tipo de foto as pessoas colocam nessas coisas?
Escolho uma em que apareço de lado, lendo um livro. Parece uma boa estratégia. Talvez eu espante os que só querem sexo e atraia alguém que, no mínimo, saiba ficar em silêncio por alguns minutos sem achar que isso é um problema.
Ou talvez só pareça chata mesmo.
Enfim.
Chego à parte da biografia e paro.
O que eu deveria escrever? Procuro acompanhante para um casamento? Muito sutil, Olivia. Muito natural.
E se eu encontrar alguém que conheço pessoalmente? Um colega de trabalho, um conhecido da faculdade, sei lá. Isso seria constrangedor em tantos níveis que nem quero pensar.
Apago uma frase que nem cheguei a terminar, penso mais um pouco e finalmente escrevo:
1,61 m. Amo café, bons livros e gente que sabe a diferença entre “mas” e “mais”.
Pronto. Se alguém não entender a indireta gramatical, já sei que não vai dar certo.
Agora é só dar uma curtida nos que me interessarem e esperar um match, certo?
Ok. Vamos lá.
O primeiro, não.
O segundo... Eca.
O terceiro... Hum. Bonito, alto. Joinha.
O quarto...
Uau.
Sexy, alto e gosta de animes. Não entendo absolutamente nada de animes, mas posso aprender. Ou fingir que entendo, pelo menos durante o tempo necessário para conquistar a aprovação da minha irmã. Joinha também.
Quinto...
Quase deixo o celular cair.
O homem é muito parecido com Josh. Não exatamente igual, mas tem alguma coisa no rosto, talvez o sorriso, que me faz lembrar imediatamente do meu ex.
Não. De jeito nenhum. Não vou sair com alguém que parece uma versão alternativa do meu antigo relacionamento.
Começo a rir sozinha.
— Que loucura... — murmuro, balançando a cabeça.
Bloqueio a tela e deixo o celular sobre a mesa. Chega de Tinder por enquanto. Tenho coisas mais importantes para fazer, como trabalhar e tentar não transformar um convite de casamento em uma crise existencial.
O elevador começou a descer e, antes que as portas se abrissem no estacionamento, meu celular vibrou dentro da bolsa com uma mensagem da minha mãe.“Pode me ligar quando estiver livre?”Suspirei ao ler a notificação.Minha mãe tinha uma relação bastante particular com a palavra livre. Na cabeça dela, “livre” significava qualquer momento em que eu não estivesse segurando alguma coisa com as duas mãos. E, mesmo nesses casos, ela provavelmente consideraria que eu poderia usar o ombro para apoiar o telefone.— Tudo bem se eu ligar para minha mãe enquanto vamos ao restaurante? — perguntei a Lewis, segurando o celular na palma da mão. — Ela é um pouco insistente.Ele olhou para mim de lado.— Claro. Desde que não se importe comigo ouvindo a conversa.— Ah, não. Provavelmente é alguma besteira.Apertei o botão para ligar antes que pudesse mudar de ideia. Minha mãe atendeu no segundo toque.— Olha só quem está viva!Fechei os olhos por um instante.— Oi, mãe.— Você ainda está trabalhando?—
Passei o dia sem encontrar com Lewis, e se alguém me perguntar se eu o estava evitando, vou negar até a morte.O encontrei na copa com Mason, e troquei de rota. Depois o vi entrar na sala da Maia, bem quando eu ia falar com ela, e desisti na hora. E tenho quase certeza que ele tentou falar comigo na hora do lanche da tarde, mas eu saí de fininho como a grande covarde que sou.Às cinco e quarenta da tarde, eu já tinha lido o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes sem entender uma palavra.Não era culpa do texto. O texto estava ótimo. Claro, objetivo e sem qualquer referência a namoros falsos, ex-noivos infiéis ou beijos impulsivos em restaurantes.Uma obra-prima da literatura jurídica.Meu celular vibrou ao lado do teclado.Lewis: Sala de reuniões. Cinco minutos.Olhei para a mensagem, depois para o relógio.Eu: Você sempre dá ordens assim ou isso faz parte do pacote de namorado?A resposta chegou antes que eu pudesse guardar o celular.Lewis: Quatro minutos.Revirei os olhos.O h
À meia-noite, mandei uma mensagem para Julie dizendo que precisava conversar com ela pessoalmente. O quanto antes.Às seis da manhã, ela apareceu na minha porta com café, donuts e a expressão de quem estava prestes a descobrir o maior escândalo da semana.Minha casa nem fica no caminho do trabalho dela, mas Julie nunca economizou esforços quando o assunto era se meter na minha vida.Eu a amo por isso.Na maioria das vezes.— Certo. Deixa eu ver se entendi. — Ela se senta no sofá, ainda mastigando um donut. — Você surtou na frente do Josh, beijou Lewis, que, vale lembrar, é alguém de quem você não gosta e que também não parece gostar de você… e agora vocês estão namorando de mentira?Fico olhando para o cappuccino entre minhas mãos.Quando ela coloca dessa forma, parece ainda pior.— Resumindo, sim.Julie mastiga devagar, como se estivesse tentando decidir se ri ou se chama uma ambulância.— Meu Deus, Liv.— Eu sei.— Não, você não sabe. Se soubesse, não teria feito isso.— Obrigada pe
O primeiro encontro foi horrível, odiei cada minuto. Mas imaginei que o segundo seria melhor... Acontece que o segundo também é um desastre.O restaurante é aconchegante demais para uma noite tão ruim. Luz âmbar, velas baixas nas mesas, um violão suave tocando em algum canto, cheiro de pão quente e alho. Um cenário que pede conversas longas e olhares demorados. Em vez disso, estou presa há quarenta minutos a um monólogo sobre placas de vídeo.Evan tem trinta anos e é bonito, não dá para negar. Cabelo escuro bem cortado, camisa azul-marinho de bom caimento, um relógio discreto no pulso. O problema é que, em menos de dez minutos, descobri que a paixão dele por computadores e jogos não desperta em mim absolutamente nada além de vontade de conferir as horas.Ele gesticula enquanto fala, os dedos desenhando no ar algo que imagino ser uma arquitetura de processador. Eu apoio o queixo na mão e assinto no que espero ser os momentos certos.— ...e aí a atualização quebrou tudo, porque eles mex
Entrei no escritório naquela manhã com a sensação de que havia cometido um pequeno delito.A culpa era de um batom vermelho e de um encontro depois do expediente que revirava meu estômago desde a noite anterior.O batom era daqueles que não passam despercebidos. Exigem confiança e, principalmente, coragem para não acabar removido com um guardanapo antes do almoço. Só o passei porque a Jullie insistiu até eu ceder. Combinava com a blusa preta de gola alta, a saia off white de alfaiataria que marcava minha cintura e os saltos que eu reservava para dias em que precisava parecer mais confiante do que realmente me sentia.Aquele dia tinha um motivo. E, se tudo desse certo, ninguém ali precisaria saber qual.— Meu Deus.Mal havia pousado a bolsa na cadeira quando a voz de Maia soou às minhas costas.— O quê? — perguntei, virando-me.Ela estava parada na entrada, com uma caneca de café na mão e a expressão de quem acabara de encontrar uma fofoca e decidia por onde começar.— Você está vestid
Assim que consigo sair dessa espiral depreciativa, pego o celular e mando uma mensagem para Julie.Olivia: adivinha quem acabou de receber um convite de casamento da irmã com direito a acompanhante que não tem? uhuu!Ela responde quase imediatamente.Julie: NÃO BRINCA.Julie: Você não pode aparecer lá sozinha. O que você falou pra sua irmã?Olivia: Eu disse que estava saindo com alguém. NÃO PRECISA FALAR NADA, EU SEI. ENTREI EM PÂNICO.Largo o telefone na mesa antes que ela tenha tempo de responder. Conhecendo Julie, isso pode levar a uma conversa bastante longa, e tenho documentos da conciliação de divórcio que vou conduzir no fim da tarde para analisar.Eu odeio divórcios. São o tipo de processo em que prefiro não me envolver, embora nem sempre tenha esse luxo. De vez em quando, especialmente quando o volume de demandas aumenta, acabo tendo que assumir alguns. E, bom, não dá para escolher só os casos agradáveis da profissão.Estou tentando me concentrar nos documentos quando a tela







