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Capítulo 08

Author: Lesca W
last update publish date: 2026-11-02 03:25:18

O elevador começou a descer e, antes que as portas se abrissem no estacionamento, meu celular vibrou dentro da bolsa com uma mensagem da minha mãe.

“Pode me ligar quando estiver livre?”

Suspirei ao ler a notificação.

Minha mãe tinha uma relação bastante particular com a palavra livre. Na cabeça dela, “livre” significava qualquer momento em que eu não estivesse segurando alguma coisa com as duas mãos. E, mesmo nesses casos, ela provavelmente consideraria que eu poderia usar o ombro para apoiar o telefone.

— Tudo bem se eu ligar para minha mãe enquanto vamos ao restaurante? — perguntei a Lewis, segurando o celular na palma da mão. — Ela é um pouco insistente.

Ele olhou para mim de lado.

— Claro. Desde que não se importe comigo ouvindo a conversa.

— Ah, não. Provavelmente é alguma besteira.

Apertei o botão para ligar antes que pudesse mudar de ideia. Minha mãe atendeu no segundo toque.

— Olha só quem está viva!

Fechei os olhos por um instante.

— Oi, mãe.

— Você ainda está trabalhando?

— Não, estou saindo do escritório. Aconteceu alguma coisa?

— Preciso conversar com você sobre o casamento da Camilla.

Olhei para o teto do elevador.

Claro. O casamento.

Aparentemente, isso significava que todos os outros membros da família precisavam estar permanentemente disponíveis para atender às demandas da noiva.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, querida. Só queria saber se você consegue ajudar com as coisas esta semana. Sua irmã está cheia de compromissos, e alguém precisa ajudá-la a organizar tudo.

As portas do elevador abriram. Lewis saiu primeiro, enquanto eu permanecia alguns segundos parada, esperando que minha mãe terminasse de falar.

— Vou, sim. É só me dizer o que precisa que eu faça.

— Ótimo! Vou mandar os detalhes depois. Você sabe como anda minha memória.

Caminhei ao lado de Lewis até o carro, tentando equilibrar a bolsa no ombro enquanto segurava o celular.

— E... sua irmã comentou que você está namorando.

Não resisti a um sorriso de lado, é claro que tinha contado. Camilla não conseguia guardar uma informação nem se sua vida dependesse disso.

— Comentou?

— Sim. Confesso que esperava que minha filha mais velha tivesse tido a decência de me contar primeiro.

— Mãe...

— O quê? Não posso ficar curiosa? Quem é esse rapaz?

Meu olhar deslizou até Lewis. Ele estava destravando o carro, completamente alheio ao fato de que acabara de se tornar o assunto principal de uma conversa familiar para a qual não tinha sido convidado.

— É algo recente, na verdade.

— Recente quanto?

— Estou em um interrogatório?

— Que bobagem, estou apenas perguntando.

Lewis abriu a porta do passageiro antes que eu pudesse alcançá-la. Isso me pegou de surpresa, era o tipo de gentileza que me fazia questionar se ainda existiam homens românticos no mundo ou se eu simplesmente tinha passado tempo demais me relacionando com pessoas que não sabiam nem segurar uma porta.

— Obrigada — murmurei.

Ele respondeu com um sorriso discreto antes de entrar no carro.

— Seria bom que vocês viessem jantar aqui algum dia — minha mãe continuou. — Não quero descobrir quem é seu namorado só quando ele aparecer no casamento. Isso seria estranho.

Coloquei o cinto de segurança.

— Certo...

— E sua tia Célia com certeza vai soltar o veneno dela. Depois da sua separação com o Josh, ela não para de perguntar por você.

Lá estava.

Aquela habilidade materna de transformar um convite para jantar em uma lembrança bastante desnecessária do meu fracasso amoroso.

— Acho que a tia Célia tem assuntos mais interessantes para ocupar a cabeça.

— Você sabe como ela é. Só não quero que fique desconfortável.

Olhei pela janela enquanto Lewis ligava o carro.

Minha mãe tinha boas intenções. Na maior parte do tempo, pelo menos. O problema era que, às vezes, sua preocupação vinha acompanhada de uma lista de expectativas que eu não tinha pedido para receber.

— Vou combinar com ele.

— Ótimo! Pode ser na quinta-feira? Vou preparar uma lasanha.

Quinta-feira.

Olhei rapidamente para Lewis, que mantinha os olhos na saída do estacionamento.

— Vou perguntar e te aviso.

— Está bem. E diga a ele que estamos ansiosos para conhecê-lo.

— Pode deixar.

Desliguei e deixei o celular cair no colo.

Por alguns segundos, fiquei olhando para a tela apagada, tentando calcular quantas maneiras diferentes aquele jantar poderia dar errado.

Conhecer a família não deveria ser uma grande surpresa. Se Lewis fosse realmente meu namorado, em algum momento teríamos que passar por aquilo.

O problema era que ele não era.

— Algum problema?

Virei o rosto.

Lewis olhava para mim rapidamente antes de voltar a atenção para o trânsito.

— Minha mãe quer conhecer você.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Ah, é?

— Ela nos convidou para jantar na casa dela na quinta-feira.

— Certo, eu provavelmente estou livre na quinta, mas se eu não estiver, com certeza posso remarcar, obviamente conhecer a família da minha namorada de mentira é minha prioridade da semana.

Pisquei algumas vezes.

— Estou falando sério, Lewis.

— Eu também. — Ele lançou um olhar divertido na minha direção. — Devo levar alguma coisa? Flores? Vinho? Uma aliança de casamento?

— Se você aparecer com uma aliança, eu juro que mato você.

— Anotado. Nada de alianças.

Revirei os olhos, mas não consegui impedir o sorriso que ameaçava surgir.

— Você sabe que minha mãe vai fazer perguntas, não sabe?

— Espero que sim. Seria bastante constrangedor ir jantar na casa de alguém e ninguém falar comigo.

— Minha mãe é curiosa. Minha irmã é pior. E minha tia Célia provavelmente vai perguntar sobre o nosso relacionamento antes mesmo de perguntar se você quer refrigerante.

— Parece uma família acolhedora.

— Estou tentando explicar que não vai ser tão simples quanto chegar, comer lasanha e ir embora.

— Você está presumindo que sua mãe vai me deixar ir embora depois da lasanha.

Soltei uma risada involuntária.

— Ela vai querer saber como nos conhecemos, há quanto tempo estamos juntos, como começamos a namorar...

— Tudo bem.

— E provavelmente vai perguntar o que você gosta em mim.

Lewis ficou em silêncio por um instante.

Um silêncio pequeno, mas suficiente para que eu me arrependesse de ter mencionado aquilo.

— Essa é fácil — respondeu.

Virei o rosto para ele.

— É?

— Você é muito boa em me irritar. Acho que sua mãe vai gostar de saber que finalmente encontrou alguém à altura.

Abri a boca, indignada.

— Você é inacreditável.

Ele riu enquanto entrava na rua do restaurante. Antes que eu pudesse responder, ele estacionou e desligou o motor.

Por alguns segundos, ficamos em silêncio.

Eu ainda estava pensando no jantar, na minha mãe e na possibilidade muito real de tia Célia decidir investigar a minha vida amorosa como se estivesse conduzindo uma auditoria.

Lewis soltou o cinto e se virou um pouco na minha direção.

— Você está nervosa porque vai ter que mentir para sua mãe ou porque está com medo de ela não gostar de mim?

Franzi a testa.

— Estou nervosa porque você parece ter perdido completamente o juízo.

Ele soltou uma risada baixa.

— Pode ser. Mas ainda tenho juízo suficiente para saber que não vou deixar você enfrentar isso sozinha.

A frase me pegou desprevenida.

Não havia ironia, provocação ou aquele sorriso convencido que ele parecia carregar como parte do uniforme. Ele simplesmente disse aquilo, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Meu coração fez aquela coisa inconveniente de errar uma batida diante de uma frase que não deveria significar absolutamente nada.

Desviei os olhos e comecei a procurar meu celular na bolsa.

— Vou confirmar com ela.

— Ótimo.

Saímos do carro. Enquanto eu fechava a porta, Lewis arregaçou as mangas da camisa social, revelando os antebraços.

Era ridículo como um homem podia fazer um movimento tão banal parecer uma distração.

— E, Olivia?

Ergui a cabeça.

— Hm?

— Tente não contar para sua mãe que sou insuportável antes do jantar. Quero causar essa impressão pessoalmente.

Revirei os olhos.

— Não prometo nada.

Ele sorriu e, antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos meus.

Olhei imediatamente para nossas mãos, depois para ele, que parecia perfeitamente confortável com a situação, como se andar de mãos dadas comigo fosse algo que fizéssemos todos os dias.

— O que você está fazendo?

Ele ergueu nossas mãos até a altura dos meus olhos.

— Treinando.Precisamos nos acostumar. Não podemos chegar na casa da sua mãe parecendo dois estranhos que foram obrigados a dividir um Uber.

— Tecnicamente, somos dois estranhos que...

— Olivia.

Fechei a boca.

Ele inclinou a cabeça, com aquele sorriso de canto que eu começava a reconhecer como um sinal de perigo.

— Tenta acompanhar.

E então piscou.

Uma. Maldita. Piscadela.

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