LOGINÀ meia-noite, mandei uma mensagem para Julie dizendo que precisava conversar com ela pessoalmente. O quanto antes.
Às seis da manhã, ela apareceu na minha porta com café, donuts e a expressão de quem estava prestes a descobrir o maior escândalo da semana.
Minha casa nem fica no caminho do trabalho dela, mas Julie nunca economizou esforços quando o assunto era se meter na minha vida.
Eu a amo por isso.
Na maioria das vezes.
— Certo. Deixa eu ver se entendi. — Ela se senta no sofá, ainda mastigando um donut. — Você surtou na frente do Josh, beijou Lewis, que, vale lembrar, é alguém de quem você não gosta e que também não parece gostar de você… e agora vocês estão namorando de mentira?
Fico olhando para o cappuccino entre minhas mãos.
Quando ela coloca dessa forma, parece ainda pior.
— Resumindo, sim.
Julie mastiga devagar, como se estivesse tentando decidir se ri ou se chama uma ambulância.
— Meu Deus, Liv.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. Se soubesse, não teria feito isso.
— Obrigada pelo apoio.
— Estou apoiando você! Só estou tentando entender em que momento a sua capacidade de tomar decisões desapareceu.
— No momento em que vi Josh atravessando a rua com aquela mulher.
O sorriso de Julie diminui um pouco.
Ela sabe o quanto aquilo me afeta. Sabe que ainda existem dias em que acordo lembrando do término, de como Josh escolheu justamente a manhã da minha prova da OAB para dizer que estava apaixonado por outra pessoa.
E sabe que, embora eu jamais admita isso em voz alta, uma parte de mim ainda se pergunta por que não fui suficiente.
O que é ridículo. Eu sei que é ridículo.
Mas sentimentos não costumam se importar com o que faz sentido.
— Você podia simplesmente ter ido embora — ela diz, mais gentil.
— Eu sei.
— Podia ter fingido que não o viu.
— Eu sei.
— Podia ter jogado o celular na cabeça dele.
Levanto os olhos.
— Essa última opção teria sido satisfatória.
— Muito mais satisfatória do que beijar Lewis.
Solto uma risada, apesar de mim mesma.
— Eu não planejei. Quando percebi, já tinha feito.
— E por que Lewis aceitou?
Dou de ombros.
— Acho que ficou com pena de mim.
— Pena?
— Sim.
— O homem que mal responde quando você dá boa tarde?
— Esse mesmo.
— O homem que uma vez te negou uma carona?
— Você não precisa me lembrar.
— O homem que você acabou de beijar sem pedir autorização?
Faço uma careta.
— Quando você coloca assim…
Suspiro e afundo no sofá.
O pior é que Julie tem razão. Lewis e eu não somos amigos. Não conversamos sobre nossas vidas, não saímos juntos e, quando precisamos trabalhar no mesmo caso, geralmente nos limitamos ao necessário.
Às vezes, até isso parece um esforço.
Ele me irrita. Eu o irrito. E, pelo que consigo perceber, nenhum de nós tem interesse em mudar essa dinâmica.
Então por que ele aceitaria fingir um relacionamento comigo?
— Talvez ele esteja se divertindo às minhas custas — murmuro.
Julie para de mastigar.
— Isso parece muito mais provável do que pena.
— Obrigada. Você é uma ótima amiga.
Pego uma almofada e jogo nela.
Julie ri, desviando com facilidade.
— Estou falando sério, Liv. Você precisa decidir se vai continuar com isso. Porque, se continuar, vai ter que conversar com Lewis. Não dá para simplesmente aparecer com ele no casamento e esperar que tudo dê certo.
— Eu sei.
— E você vai precisar contar para sua família como vocês se conheceram.
— Trabalhamos juntos. Essa parte é fácil.
— E como começaram a namorar?
Abro a boca.
Fecho.
Julie ergue as sobrancelhas.
— Pois é.
Passo as mãos pelo rosto.
— Posso dizer que começamos a conversar mais nos últimos meses.
— Vocês conversam?
— No trabalho.
— Sobre processos?
— Às vezes.
— Então vocês se apaixonaram enquanto discutiam documentos?
— Não estou dizendo que nos apaixonamos!
— Ainda bem, porque seria a história de amor mais triste que já ouvi.
— Eu só preciso que ele me ajude até o casamento — digo. — Depois podemos terminar tudo. Ninguém precisa sair machucado.
Julie inclina a cabeça.
— Você já considerou a possibilidade de ele não querer participar dessa história toda?
A pergunta me deixa quieta.
Considerar, eu considerei. Mas, de alguma forma, parece mais fácil acreditar que Lewis vai concordar com tudo do que admitir que talvez eu tenha colocado os dois numa situação desconfortável.
Principalmente ele.
— Vou conversar com ele — respondo, por fim.
— Ótimo. E, por favor, não beije ninguém sem autorização hoje.
— Jullie!
— Estou brincando!
Passamos os minutos seguintes tentando pensar em uma versão minimamente convincente da nossa história. Segundo Julie, precisamos de uma data aproximada para o início do namoro, uma explicação para termos mantido tudo em segredo e, principalmente, uma forma de agir juntos sem parecermos dois colegas obrigados a dividir um elevador.
— Vocês precisam ter alguma intimidade — ela explica. — Saber coisas um do outro. Preferências, manias, essas coisas.
— Sei que ele tem uma tatuagem de pasaro no braço.
Julie me encara.
— Você reparou na tatuagem dele?
O sorriso que surge no rosto dela me faz apontar um dedo em sua direção.
— Não começa.
— Eu não disse nada.
— Mas pensou.
— Pensei em várias coisas.
— Julie.
Ela ergue as mãos, fingindo inocência.
— Tudo bem. Não vou dizer que você acha seu colega de trabalho bonito.
— Eu não acho.
— Claro que não.
— Ele é irritante.
— Uma pessoa pode ser irritante e bonita.
— Ele é arrogante.
— E bonito.
— Você está impossível hoje.
— E você está namorando de mentira com um homem que não suporta. Cada uma com seus problemas.
Antes que eu consiga responder, meu celular vibra.
Uma mensagem de Lewis.
Lewis: Precisamos conversar sobre ontem.
Meu estômago se contrai.
Mostro a tela para Julie.
Ela se endireita no sofá como se tivesse acabado de receber notícias de última hora.
— Responde.
Digito uma mensagem, apago, escrevo outra e apago novamente.
Liv: Concordo. Sobre o que você quer conversar?
A resposta chega menos de um minuto depois.
Lewis: Sobre o nosso namoro.
Leio a frase duas vezes.
Nosso namoro.
É estranho ver essas palavras juntas quando, até ontem, eu mal conseguia manter uma conversa com ele sem querer revirar os olhos.
Liv: Você não precisa continuar com isso se não quiser. Eu sei que te coloquei numa situação complicada.
Dessa vez, ele demora um pouco mais para responder.
Lewis: Eu sei que não preciso.
Franzo a testa.
Ótimo. Agradeço a clareza, Lewis.
Liv: Então podemos esquecer o que aconteceu. Eu explico tudo à minha família e assumo que menti.
Lewis: E o seu ex?
Olho para a tela, sem saber o que responder.
Liv: O que tem ele?
Lewis: Você vai contar que beijou um colega de trabalho por impulso e depois inventou um namoro para fingir que superou o término?
A vontade de jogar o celular longe é imediata.
Liv: Quando você coloca assim, parece que eu sou maluca.
Lewis: Você prefere que eu minta?
Mordo a parte interna da bochecha.
Eu poderia responder que sim. Poderia dizer que ele não tem o direito de falar comigo dessa maneira, que não pedi uma avaliação psicológica e que, se ele não quiser ajudar, basta dizer.
Mas não digito nada disso.
Porque, mais uma vez, ele está certo.
Odeio quando isso acontece.
Liv: Não.
A resposta dele chega logo depois.
Lewis: Então vamos conversar hoje, depois do trabalho. Sem improvisos dessa vez.
Olho para Julie.
— Ele quer conversar pessoalmente.
— Ótimo.
— Julie, ele pode desistir.
Ela pega o último donut e dá uma mordida.
— Pode.
— Você não vai me tranquilizar?
— Não. Você precisa aprender a lidar com as consequências das próprias decisões.
Solto um suspiro dramático e me jogo contra o encosto do sofá.
Minha vida estava razoavelmente sob controle antes daquele beijo. Eu tinha um emprego, uma rotina, uma irmã prestes a se casar e uma quantidade administrável de problemas emocionais.
Agora tenho um namorado que não é meu namorado, um ex-noivo que vai estar no casamento e uma mãe que provavelmente já está planejando o primeiro jantar em família.
Parabéns, Olivia. Uma decisão brilhante.
O celular vibra novamente.
Lewis: Só mais uma coisa.
Fico olhando para a mensagem antes de responder.
Liv: O quê?
Lewis: Da próxima vez, pergunte antes de me beijar.
Meu rosto esquenta.
Julie percebe imediatamente.
— O que foi?
Viro a tela para ela.
Ela lê a mensagem, leva a mão à boca e começa a rir.
— Eu não acredito.
— Não tem graça.
— Tem muita graça.
— Julie!
Apago a tela e a encaro.
— Você está gostando demais disso.
— Claro que estou. É a primeira vez em meses que sua vida amorosa fica mais interessante do que uma planilha de despesas.
Pego uma almofada e acerto o rosto dela.
Dessa vez, Julie não consegue desviar.
E, por alguns segundos, nós duas rimos tanto que quase esqueço o tamanho da confusão em que me meti.
Quase.
Porque, quando olho novamente para o celular, a mensagem de Lewis continua ali.
Da próxima vez, pergunte antes de me beijar.
O problema é que eu não sei o que me deixa mais nervosa: a possibilidade de ele desistir de fingir ser meu namorado ou a possibilidade de ele não desistir.
O elevador começou a descer e, antes que as portas se abrissem no estacionamento, meu celular vibrou dentro da bolsa com uma mensagem da minha mãe.“Pode me ligar quando estiver livre?”Suspirei ao ler a notificação.Minha mãe tinha uma relação bastante particular com a palavra livre. Na cabeça dela, “livre” significava qualquer momento em que eu não estivesse segurando alguma coisa com as duas mãos. E, mesmo nesses casos, ela provavelmente consideraria que eu poderia usar o ombro para apoiar o telefone.— Tudo bem se eu ligar para minha mãe enquanto vamos ao restaurante? — perguntei a Lewis, segurando o celular na palma da mão. — Ela é um pouco insistente.Ele olhou para mim de lado.— Claro. Desde que não se importe comigo ouvindo a conversa.— Ah, não. Provavelmente é alguma besteira.Apertei o botão para ligar antes que pudesse mudar de ideia. Minha mãe atendeu no segundo toque.— Olha só quem está viva!Fechei os olhos por um instante.— Oi, mãe.— Você ainda está trabalhando?—
Passei o dia sem encontrar com Lewis, e se alguém me perguntar se eu o estava evitando, vou negar até a morte.O encontrei na copa com Mason, e troquei de rota. Depois o vi entrar na sala da Maia, bem quando eu ia falar com ela, e desisti na hora. E tenho quase certeza que ele tentou falar comigo na hora do lanche da tarde, mas eu saí de fininho como a grande covarde que sou.Às cinco e quarenta da tarde, eu já tinha lido o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes sem entender uma palavra.Não era culpa do texto. O texto estava ótimo. Claro, objetivo e sem qualquer referência a namoros falsos, ex-noivos infiéis ou beijos impulsivos em restaurantes.Uma obra-prima da literatura jurídica.Meu celular vibrou ao lado do teclado.Lewis: Sala de reuniões. Cinco minutos.Olhei para a mensagem, depois para o relógio.Eu: Você sempre dá ordens assim ou isso faz parte do pacote de namorado?A resposta chegou antes que eu pudesse guardar o celular.Lewis: Quatro minutos.Revirei os olhos.O h
À meia-noite, mandei uma mensagem para Julie dizendo que precisava conversar com ela pessoalmente. O quanto antes.Às seis da manhã, ela apareceu na minha porta com café, donuts e a expressão de quem estava prestes a descobrir o maior escândalo da semana.Minha casa nem fica no caminho do trabalho dela, mas Julie nunca economizou esforços quando o assunto era se meter na minha vida.Eu a amo por isso.Na maioria das vezes.— Certo. Deixa eu ver se entendi. — Ela se senta no sofá, ainda mastigando um donut. — Você surtou na frente do Josh, beijou Lewis, que, vale lembrar, é alguém de quem você não gosta e que também não parece gostar de você… e agora vocês estão namorando de mentira?Fico olhando para o cappuccino entre minhas mãos.Quando ela coloca dessa forma, parece ainda pior.— Resumindo, sim.Julie mastiga devagar, como se estivesse tentando decidir se ri ou se chama uma ambulância.— Meu Deus, Liv.— Eu sei.— Não, você não sabe. Se soubesse, não teria feito isso.— Obrigada pe
O primeiro encontro foi horrível, odiei cada minuto. Mas imaginei que o segundo seria melhor... Acontece que o segundo também é um desastre.O restaurante é aconchegante demais para uma noite tão ruim. Luz âmbar, velas baixas nas mesas, um violão suave tocando em algum canto, cheiro de pão quente e alho. Um cenário que pede conversas longas e olhares demorados. Em vez disso, estou presa há quarenta minutos a um monólogo sobre placas de vídeo.Evan tem trinta anos e é bonito, não dá para negar. Cabelo escuro bem cortado, camisa azul-marinho de bom caimento, um relógio discreto no pulso. O problema é que, em menos de dez minutos, descobri que a paixão dele por computadores e jogos não desperta em mim absolutamente nada além de vontade de conferir as horas.Ele gesticula enquanto fala, os dedos desenhando no ar algo que imagino ser uma arquitetura de processador. Eu apoio o queixo na mão e assinto no que espero ser os momentos certos.— ...e aí a atualização quebrou tudo, porque eles mex
Entrei no escritório naquela manhã com a sensação de que havia cometido um pequeno delito.A culpa era de um batom vermelho e de um encontro depois do expediente que revirava meu estômago desde a noite anterior.O batom era daqueles que não passam despercebidos. Exigem confiança e, principalmente, coragem para não acabar removido com um guardanapo antes do almoço. Só o passei porque a Jullie insistiu até eu ceder. Combinava com a blusa preta de gola alta, a saia off white de alfaiataria que marcava minha cintura e os saltos que eu reservava para dias em que precisava parecer mais confiante do que realmente me sentia.Aquele dia tinha um motivo. E, se tudo desse certo, ninguém ali precisaria saber qual.— Meu Deus.Mal havia pousado a bolsa na cadeira quando a voz de Maia soou às minhas costas.— O quê? — perguntei, virando-me.Ela estava parada na entrada, com uma caneca de café na mão e a expressão de quem acabara de encontrar uma fofoca e decidia por onde começar.— Você está vestid
Assim que consigo sair dessa espiral depreciativa, pego o celular e mando uma mensagem para Julie.Olivia: adivinha quem acabou de receber um convite de casamento da irmã com direito a acompanhante que não tem? uhuu!Ela responde quase imediatamente.Julie: NÃO BRINCA.Julie: Você não pode aparecer lá sozinha. O que você falou pra sua irmã?Olivia: Eu disse que estava saindo com alguém. NÃO PRECISA FALAR NADA, EU SEI. ENTREI EM PÂNICO.Largo o telefone na mesa antes que ela tenha tempo de responder. Conhecendo Julie, isso pode levar a uma conversa bastante longa, e tenho documentos da conciliação de divórcio que vou conduzir no fim da tarde para analisar.Eu odeio divórcios. São o tipo de processo em que prefiro não me envolver, embora nem sempre tenha esse luxo. De vez em quando, especialmente quando o volume de demandas aumenta, acabo tendo que assumir alguns. E, bom, não dá para escolher só os casos agradáveis da profissão.Estou tentando me concentrar nos documentos quando a tela







