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13 Empatia...

last update publish date: 2021-10-13 21:15:34

Fitei o carro sumindo ao longe, ainda acenando caso minha irmã continuasse me vendo e, de repente, senti uma súbita vontade de contar sobre a novidade para Mari, imaginando que “doida” como ela era, certamente ficaria muito feliz, não conseguindo pensar nas consequências e responsabilidades que eu criança acarretaria.

No fundo, eu não podia culpa-la, assim como não podia culpar Lia, elas amavam crianças e isso não era de todo ruim, tirando o fato de que ambas viam apenas a parte fofa e babona do processo.

Apalpei os bolsos, procurando pelo celular, quando o encontrei, mandei algumas mensagens para ela, avisando que planejava passar em sua casa, talvez para dormir, e ao receber uma resposta positiva, guardei o aparelho novamente.

Depois disso, caminhei pelas calçadas, aproveitando que passei em frente a uma padaria, que possuíam um letreiro chamativo, para comprar um bolo com cobertura de ninho e morango fresco, nosso favorito, e ri ao pensar comigo mesma que sempre estávamos mastigando enquanto seguia para seu endereço.

Quando cheguei à casa dela, começava a anoitecer e fui recepcionada na porta com um sorriso enorme, em seguida, praticamente fui arrastada para dentro pela mão. Sentamos no sofá de canto, lado a lado, e estiquei as pernas sentindo-as latejando pela longa caminhada, imaginando que poderia ser sinal de má circulação por causa do sedentarismo recente.

– Fico feliz que você veio! Mari exclamou sorridente enquanto gesticulava com as mãos, e logo seus olhos recaíram sobre a embalagem do bolo. – Hum... já estou com fome, vou passar um café para a gente como acompanhamento. 

– Está sozinha? Questionei estranhando, olhei ao redor, sem entender o porquê de seu namorado não estar por perto, e em seguida, a fitei. – Cadê Nick?

– Precisou fazer hora-extra... – Ela respondeu fazendo uma expressão penosa, como se achasse uma maldade o namorado ter que trabalhar um pouco mais. – Ele vai chegar tarde, então se você não tivesse vindo, eu ficaria sozinha.

Balancei a cabeça concordando e escondi o riso pois, apesar de ela estar fazendo um belo drama, seria maldade da minha parte afrontá-la naquele momento. Pelo canto do olho, a fitei afastando-se em direção à cozinha para preparar o tal café, e estando sozinha, passei a tentar abrir a embalagem do bolo, o que parecia mais difícil do que imaginei.

Quando finalmente consegui quebrar o lacre e expor o bolo, ela já estava de volta sorrindo enquanto colocava, sobre a mesinha de centro, uma bandeja com xicaras cheias de café puro e pequenos conjuntos de pires com colherinhas.

– Parece uma delícia! Exclamou sentando-se ao meu lado, cortou uma generosa fatia do bolo, servindo-nos, e de repente, parecendo ter acabado de se lembrar de algo, me fitou com uma expressão indagadora. – O que estamos comemorando?

– Vou ganhar uma sobrinha! Expliquei sorrindo de canto, voltando a me sentar confortavelmente em seu sofá enquanto soprava o vapor do café para poder prova-lo. – Minha irmã está esperando um bebê, e supostamente tem certeza de que é uma menina.

– Que notícia maravilhosa! Mari exclamou, batendo palmas, cheia de alegria, assim como eu havia previsto. – Então, ela quer que você batize, é isso?

– Sim, mas não sei se poderei realizar seu desejo... – Murmurei mexendo com o garfo na cobertura do bolo, retirando um morango que parecia muito suculento, e o fitei fixamente. – Não sou praticamente e também, não sei se minha mãe vai concordar.

– Sua irmã é maior de idade, casada e a mãe do bebê... – Mari retrucou franzindo as sobrancelhas séria, e apontou o garfo em minha direção. – Se ela te quer como madrinha, ela tem certeza disso.

– Lia disse a mesma coisa! Concordei com um suspiro longo, ouvindo minha voz saindo abafada pela mastigação. – Mas não quero complicar a relação dela com a mãe, seria injusto pois, ela nunca a desobedeceu.

Nesse momento, ao ouvir meu desabafo, Mari abaixou a cabeça, concordou, e suspirou parecendo ter perdido um pouco do apetite. Porém, em uma mudança abrupta de humor, ergueu o olhar em minha direção e segurou minhas mãos, mantendo o contato olho no olho.

– Pense bem Azarya, a sua relação com sua família é tão ruim assim? Perguntou, claramente desejando ouvir uma resposta negativa. – Pode não ser o caso, ao invés disso, seja uma oportunidade de acertar as coisas!

Fiquei surpresa com sua linha de raciocínio.

– Espero que seja isso mesmo... – Murmurei tentando sorrir fraquinho, e senti meu corpo sendo abraçado com força. – O que eu faria da vida sem você?

– Então, vou começar a cobrar! Mari exclamou rindo e me lançou uma piscadela, em seguida, olhou para a porta quando ouvimos a companhia tocando. – Pode ir preparando o cheque enquanto eu atendo a porta...

– Você está esperando mais alguém? Questionei não dando muita atenção a história do pagamento, ao invés disso, me deliciei com o bolo.

– Deve ser o Michel... achei que não voltaria hoje pois, pela demora, imaginei que teria se acertado com o namorado. – Ela explicou enquanto caminhava em direção a porta, ainda rindo, porém, seu sorriso sumiu completamente quando se deparou com o rapaz. – O que aconteceu?

Me estiquei no estofado, tentando entender o que havia acontecido para ela ficar tão silenciosa, e notei a pequena pessoa encolhida de pé a frente de minha amiga. Michel estava com suas roupas e cabelos molhados, havia hematomas em seu rosto, um pequeno corte em sua boca, e parecia chorar.

– Oh lindinho... – Ela murmurou abraçando-o, e o puxando para dentro enquanto tentava o consolar de forma amorosa. – Se acalme, não fique assim.

Os dois caminharam em direção ao banheiro, pensei em me aproximar, tentar ajudar de alguma forma, mas senti que apenas deixaria o rapaz mais desconfortável se fizesse isso. Então fiquei apenas esperando que me contassem quando fosse preciso, ouvi o som da ducha aberta, alguns minutos depois Mari voltou para a sala, remexeu na mala que ele havia trazido e logo, retornou para o banheiro com uma muda de roupas.

Alguns minutos depois, vestido e secando os cabelos loiros com uma toalha, ele apareceu, seu rosto ainda vermelho e os olhos um pouco inchados pelo choro. Mari correu em sua direção, perguntando como ele estava, e procurando seus olhos por causa de seu rosto cabisbaixo.

Michel não respondia, provavelmente constrangido com a minha presença, então pedi licença e disse que iria lavar os pratos que havíamos sujado, porém, antes disso, fui parada por o rapaz que segurou meu braço.

– Desculpe... estou atrapalhando o descanso de vocês... – Ele murmurou erguendo seus olhos avermelhando, e tentou me sorrir, mas apenas pareceu mais triste. – É ridículo, e me sinto um idiota por não poder lidar com isso cozinho.

– Creio que não seja sua culpa! Murmurei procurando as palavras certas para não o deixar ainda mais magoado do que já estava e tomei a liberdade de acariciar suas mãos, notando que eram bem pequenas. – Conte comigo também.

Ele pareceu surpreso com as minhas palavras, mas não disse nada quanto a isso, em seguida, sentou-se no sofá, sendo puxado por Mari que enfiou bolo em sua boca. E alguns minutos depois, parecendo mais calmo depois de ter sua corrente sanguínea invadida pela glicose, começou a nos contar toda a história que a cada palavra, parecia mais absurda.

– Como alguém pode ser cretino nesse nível? Mari questionou quase em um grito, erguendo-se enquanto apertava os punhos cheia de ódio. – Que filho de uma cadel*!

Ele apertou os olhos, mordendo o lábio inferior e percebi que os gestos abruptos da minha amiga apenas estavam assustando-o, então, a puxei para sentar-se novamente e segurei sua mão como uma forma de pedir para que se acalmasse.

– Fez bem em vir para cá... – Murmurei calmamente, precisava fazê-lo sentir-se o mais confortável possível pois, a situação era delicada. – E aliás, você está sendo bem maduro sobre isso para alguém tão jovem.

– Você quer mais bolo? Mari perguntou fazendo um beicinho, cheia de empatia pelo sofrimento do rapaz. – O açúcar é bom para levantar o ânimo.

– Não, obrigado... – Michel sussurrou ainda entristecido e abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se até virar uma bolinha. – Desculpe, mas você se importaria se eu dormisse agora?

– Claro que não... – Ela respondeu gentil acariciando seus cabelos, e em seguida, voltou sua atenção para mim. – Poderia me ajudar a arrumar a sala para a gente dormir aqui?

Concordei, acenando positivamente e saímos da sala, caminhando para o quarto onde poderíamos encontrar cobertores e travesseiros. Quando voltamos, estendemos tudo sobre o carpete fofinho e deitamos cada uma ao lado de Michel, protegendo-o.

Depois de alguns minutos, quando estava quase cochilando, senti algo semelhante a uma câimbra, provavelmente pela posição bagunçada em que estava. Olhei para o lado e fiquei surpresa ao me deparar com os grandes olhos claros de Michel abertos, aparentemente eu havia o acordado.

– Desculpe te acordar... – Murmurei falando baixo para não acordar minha amiga que estava em seu terceiro sono. – Aliás, se estiver precisando de um lugar para ficar, estou em um apartamento próximo daqui.

– Obrigado, mas já aceitei a proposta de Noah... – Ele explicou baixinho também e sorriu parecendo feliz por toda a ajuda que recebia.

De repente, ouvi meu celular vibrando, pedi licença enquanto me esticava procurando-o e quando o encontrei, notei que eram mensagens do proprietário do apartamento, ele havia conseguido descobrir o endereço da família da antiga moradora.

De início fiquei surpresa, ele não parecia tão disposto da última vez que nos falamos, porém, ao que parecia, alguma coisa havia tocado nele, talvez a consciência tivesse pesado, ou se sentisse em dívida com a moça que havia perdido a vida em sua casa. 

Fitei o celular em minhas mãos, notando que além do endereço, havia também um ponto de referência, mostrando que ele estava realmente impenhado em conseguir com que eu me encontrasse com a mãe de Sharon. Estiquei minhas costas no carpete aquecido e olhei para o ventilador de teto, em minha mente, acumulava-se um amontoado de perguntar que eu queria fazer àquela mulher, mas estava ansiosa, temia sua reação.

Era óbvio o motivo para isso: a minha relação com a minha própria mãe.

Lembrei-me novamente da conversa que tive com Lia e senti meu peito se apertando ao pensar que em algum momento, eu precisaria confrontar minha progenitora, e se esse momento fosse no batismo da minha sobrinha, então deveria estar bem preparada pois, seria realmente complicado. 

- Tudo bem? Michel quesitonou parecendo curioso.

Fiquei em dúvida se deveria lhe contar a história, imaginando que ele já tivesse preocupações o suficiente, sem contar que ele poderia apenas pensar que sou louca.

- Preciso devolver os brincos de um pessoa que se foi à mãe dela... - Contei virando-me para encará-lo. - O dona da casa em que eu moro conseguiu o endereço.

Um silencio pesado caiu sobre nós, e logo percebi que não deveria ter trazido aquele assunto a tona, uma vez que falar de algo tão mórbido com alguém magoado como ele estava, não era o melhor jeito de adormecer melhor. Porém, para a minha surpresa, Michel segurou minhas mãos sorrindo gentilmente, e acenou positivamente como se dissesse que eu estava fazendo a coisa certa.

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