LOGINAzarya...
Depois de noite de bebedeira e a conversa com Mari, dormi uma longa noite de sono cheia de sonhos confusos nos quais a antiga inquilina sempre aparecia entristecida, era como se ela continuasse tentando se comunicar comigo, mas fosse impossibilitada por algo que eu desconhecia.
Quando acordei, na manhã seguinte, senti vontade de trabalhar no meu livro compilado antes do café da manhã. Sentei-me em frente a escrivaninha onde ficava o notebook, planejando iniciar um novo conto a partir das anotações que havia feito nos últimos dias, e estranhamente me vi sem saber por onde deveria começar.
Esfreguei as têmporas, confusa pelo que estava acontecendo, já havia uma linha de raciocínio pronta, então não fazia sentido estar com aquele tipo de bloqueio praticamente sem motivo. Suspirei apoiando o queixo na mão e tentei pensar em uma frase que fosse impactante o suficiente para iniciar o primeiro parágrafo, algo que passasse para o leitor as informações preliminares a respeito dos personagens e o enredo da história, mas curiosamente nada interessante me vinha à mente.
Fui tirada dos meus devaneios quando ouvi o som familiar do meu celular vibrando, estiquei o braço alcançando-o, e notei que se tratava de uma ligação da minha irmã. Fiquei em dúvida se deveria atender ou não, fazia algum tempo que havíamos tido uma conversa decente e desde que me mudei, estava evitando o máximo de contato possível com a minha família, afim de diminuir as brigas.
Nosso relacionamento parecia ter degringolado ainda mais com o tempo, e depois de refletir um pouco, comecei a pensar que minha atitude apenas nos deixaria ainda mais distantes, me fazendo repensar se deveria permanecer daquela forma, ou tentar fazer algo para melhorar nossa relação.
No fim, depois de tanta insistência, acabei aceitando.
Lia possuía uma voz delicada e gentil que tinha o poder de acalmar qualquer situação, por mais delicada que fosse, era sempre ela a resolver os problemas que surgiam entre os membros da nossa família, e naquele momento não parecia ser diferente.
– Você vai ser titia! Ela exclamou de repente, quase aos gritos, tamanha era sua alegria. – Estamos na cidade fazendo compras para o enxoval do bebê.
– Isso é maravilhoso, Lia! Exclamei sentindo-me tão alegre quanto ela, e pude imaginar que expressão ela estaria fazendo naquele momento.
– Venha se encontrar conosco... – Ela pediu repentinamente e sons de barulhos na rua ecoaram pelo fone. – Podemos almoçar e conversar um pouco!
Quis recusar, e até tentei profusamente, mas logo percebi que ela não aceitaria um “não” como resposta, assim como sempre havia sido pois, desde criança, ela me convencia a fazer as coisas mais aleatórias apelando para a minha consciência. E no fim, acabei concordando de novo.
“Espirituosa como sempre...” Pensei comigo mesma enquanto caminhava em direção ao banheiro, tomei um banho rápido, aproveitando para lavar meus cabelos que começavam a ficar oleosos, e poucos minutos depois, já estava pronta.
O clima ainda estava um pouco frio, vesti um casaco de moletom por sobre uma blusa branca de malha, e completei o visual com um short jeans não muito curto. Vincent, o marido da minha irmã, era do tipo respeitoso ao ponto de sequer olhar para as minhas pernas, porém, sentia que o deixaria desconfortável e por isso, havia escolhido uma peça mais discreta.
Marcamos de nos encontrar em um pequeno restaurante próximo à estação rodoviária antes do horário de pico, um dos poucos pontos de referência que tínhamos em comum, e quando nos encontramos, Lia veio em minha direção, abrindo os braços em um abraço caloroso.
– Meu Deus! O que você fez com seus cabelos? Ela perguntou rindo, e arregalando os olhos enquanto analisava a minha aparência de cima a baixo. – É por causa do curso de arte moderna?
– Não necessariamente... – Respondi lhe sorrindo de canto, em seguida, voltei meus olhos ao meu cunhado que erguia a mão em um cumprimento formal.
Vincent era um advogado charmoso e jovem, alguns anos mais velho que a minha irmã, eles haviam se conhecido por frequentarem o mesmo grupo da igreja, e eram o típico casalzinho tradicional que namora alguns anos, casa e tem filhos, planejando ficar velhinhos juntos.
Nosso respeito era mútuo. Ele era um dos poucos homens que conheço que, apesar de cristão, não seguia os preceitos mais extremistas, tratava minha irmã respeitosamente, a incentivava a estudar e trabalhar, coisas que faziam dele, meu cunhado predileto.
Estava vestido em um terno de corte fino e de cor grafite, combinando com seus cabelos escuros que estavam penteados, repartidos para o lado – o comum visual de um advogado do interior –, mas isto não fazia dele um homem medíocre, pelo contrário, sua inteligência e competência faziam dele um advogado notável. E, no fundo, por mais que sua modéstia cristã o impedisse de seguir a diante, queria esse reconhecimento, talvez até algo mais grandioso como um cargo na promotoria geral
– Como tem passado? Ele questionou ainda em tom polido e sereno, parecia ter dificuldade em falar mais casualmente comigo, talvez porque não me visse como um familiar. – Soube que a rotina nessa cidade é bem agitada...
– Estou bem, obrigada! Respondi aceitando o cumprimento e sorri, tentando deixa-lo mais confortável com a minha presença. – E vocês, como estão lidando com a família crescendo?
– Estamos bem ansiosos na verdade... – Ele comentou com um sorriso cheio de orgulho, transparecendo o quanto estava amando ser pai futuramente.
Eles já haviam feito as compras e estavam cheios de sacolas, fazendo com que me adiantasse e os ajudasse a coloca-las no porta-malas do carro popular que possuíam. Depois disso, caminhamos pelas calçadas olhando ao redor enquanto procurávamos o restaurante onde deveríamos ter nos encontrado, e quando o vimos, adiantamos os pedidos para que pudéssemos almoçar antes do horário de pico.
Sentamos à mesa, um de frente para o outro, e fiquei alguns instantes apenas fitando minha irmã acariciar sua barriga que começava a dar os primeiros sinais de uma vida se desenvolvendo, o marido ao seu lado, fazia o mesmo ainda com aquele mesmo semblante amoroso.
Era lindo olhar para eles assim, tão felizes.
– Posso tirar uma foto de vocês? Questionei, procurando por a câmera em minha mochila, sentindo que precisava registrar aquele momento, talvez para mostrar ao bebê no futuro. – Aliás, nesse estágio, já é possível saber o sexo?
– Claro, por favor! Lia exclamou sorridente e arrumou a postura, ficando mais próxima do marido para que ficassem centralizados na fotografia. – Ainda não sabemos, mas tenho a intuição de que seja uma menina!
– Bem, está se desenvolvendo dentro do seu útero... talvez o seu cérebro tenha algum tipo de conhecimento mais aprofundado, não sei! Exclamei me atrapalhando um pouco na linha de pensamento, não sabia bem como falar sobre o que me parecia sobre aquele assunto.
Eu não tinha uma opinião formada ao certo, a maternidade era algo impressionante e intuitivo, porém, me preocupava a ideia de uma criança ser gerada daquela forma, sem planejamento, apenas confiando na providência divina.
– Queria que você fosse a madrinha. – Lia murmurou de repente, chamando a minha tenção, e me surpreendendo. – Nascerá no outono, então...
Fiquei em silencio, um pouco hesitante. Não que fosse algo ruim, mas havia muitas questões envolvidas que não se limitavam somente a minha condição de cristã não-praticamente, mas também à nossa família.
– Não sei se a mãe ficaria feliz com a ideia! Murmurei um pouco envergonhada, sabendo que ela ficaria triste com isso. – Não quero confusão...
– A filha é minha! Lia reclamou fitando-me séria, e franziu as sobrancelhas junto aos lábios torcidos. – E você é a tia dela, de qualquer forma, faça o curso.
Nesse momento, nossas refeições chegaram causando uma pequena pausa naquela conversa. Respirei fundo, imaginando que não poderia fugir daquele assunto por muito tempo, e provei um pouco da salada que havia pedido, gostando do sabor adocicado dos tomates cereja.
– Por favor, tenha outra pessoa em mente... – Pedi depois de refletir um pouco, enfiei o garfo em um pequeno rolinho que havia feito com alface e a cebola, em seguida, ergui meus olhos para fita-la. – Não vou ficar magoada.
Ela balançou a cabeça positivamente, parecendo satisfeita mesmo com a minha concordância hesitante e então, sem dizer mais nada, focou-se em sua própria refeição, suspirando ao provar a sala agridoce. Vez ou outra, erguia um bocado para que o marido, que não havia pedido salada, provasse também, e ele o fazia, obedientemente.
Quando terminamos, ainda ficamos um pouco passeando pelo parque, olhando as crianças enquanto brincavam. Lia até brincou que era algo suspeito a se fazer causando risos, e minutos depois, continuamos a caminhada em direção à estação rodoviária onde o carro estava estacionado.
Enquanto caminhávamos, me peguei pensando em como poderia retornar para casa sem causar um alvoroço com minha nova aparência, sabendo que minha mãe certamente faria uma bela cena ao ver o que eu havia feito com meus cabelos.
“Devo comprar uma peruca de cabelo humano?” Pensei comigo mesma.
De repente, sai dos meus devaneios quando um homem passou por mim, tão perto que pude sentir o tecido de suas roupas. Seu corpo era enorme, como uma geladeira industrial, e foi impossível não fixar meus olhos nele porque era muito atraente, estava vestido em um terno preto, sem a gravata, seus cabelos eram loiros, e estavam penteados no estilo slick back.
Um conjunto que lhe dava uma aparência de executivo, porém, tudo isso passava desapercebido quando se notava seus olhos castanhos, tenebrosamente frio.
Era naturalmente assustador, mas o que realmente me fez gelar, eram as pequenas – quase imperceptíveis –, manchas de sangue em suas mãos, também havia leves escoriações nas falanges dos dedos, dando a impressão de que havia socado alguém, manchas que não pareciam ser de sangue daqueles machucados, e sim, da pessoa que havia apanhado.
Nossos olhos se encontraram por alguns segundos, e senti que ele estava me analisando, ou melhor, analisando o que meu corpo tinha a oferecer, causando uma sensação desconfortável de invasão que me obrigou a desviar o olhar. Uma sensação tão aterrorizante que meus pelos se arrepiaram enquanto os músculos das pernas tensionaram, me prendendo no lugar momentaneamente.
Era como estar em um daquelas cenas de filmes com psicopata. Uma vez, li que, em algum momento na vida, existe a possibilidade de passarmos por pelo menos, um assassino, e pela angustia que senti, tinha certeza que era o caso.
– O que foi? Lia questionou parando a minha frente, e segurou meu braço, trazendo-me de volta à realidade. – Você parece um pouco pálida, tudo bem?
– Não é nada, apenas me distrai com algo, desculpe-me! Murmurei sem graça, e cocei a nuca enquanto voltava a segui-la ainda um tanto perturbada.
Lia me fitou por alguns instantes, não parecia ter acreditado em minhas palavras, e logo estava olhando ao redor com as sobrancelhas franzidas procurando provavelmente pelo motivo do meu desconforto, mas não pareceu ver nada de anormal no homem que já se afastava.
Depois de tudo o que aconteceu, precisei ficar alguns dias internada no hospital para tratar uma inflamação no estomago causada pelos socos, como estava medicada a maior parte do tempo, não sentia dor, mas a angustia em não poder ver Dylan era o pior. Ele havia passado por cirurgias por cauda das facadas, sua parceira de ação, Hanna, havia me visitado, contando sobre seu estado de saúde que era estável, mas não conseguiu me acalmar. Mari passava a maior parte do tempo ao meu lado, tendo que ser praticamente expulsa pelos médicos, quando o horário de visita acabava, o que sempre me fazia rir de suas carinhas de cachorro sem dono dela. Meus pais eram outros que sempre estavam por perto, não queria contar para eles sobre o incidente, inicialmente, para não os preocupar, mas depois de um tempo, percebi que seria pior se descobrissem depois. Tenho feito muito, mesmo estando presa naquele hospital, trabalhei em meu romance, usando como base o manuscrito que fiz na noite de bebedeira, e não
Devo ter desmaiado em algum momento pois, quando acordei estava dentro de um galpão escuro, ouvia choros, havia muitas mulheres que pareciam jovens ao meu redor, o ambiente estava muito quente, e a única luminosidade vinha de uma porta de metal entreaberta. Quando meus olhos finalmente se acostumaram à penumbra, percebi a presença de Sophia, fazendo meu sangue ferver.Gritei me estatelando no chão empoeirado, e a xinguei de todos os nomes que me vieram à cabeça, como meus braços estavam amarrados para trás, a única coisa física que consegui fazer foi chutar as grades que nos prendiam. Estávamos dentro de uma maldita gaiola.As outras moças começaram a chorar ainda mais, fitei seus rostos joviais por sobre a penumbra, percebendo que eram muito novas, e fiquei ainda mais enojada por uma mulher ser capaz de participar de algo tão hediondo.– Não gas
Azárya Depois de três dias, tendo me acertado com meus pais e reencontrado alguns dos meus antigos educandos, percebi que precisava retomar minha vida acadêmica, ou acabaria reprovando, então, depois de uma choradeira e promessas de que passaria o natal com eles, voltei para Nova York, sendo recebida na rodoviária por um abraço caloroso de Mari. – Tenho tanto para te contar... – Murmurei sorrindo enquanto a acompanhava, ajeitei a alça da mochila sobre o ombro e suspirei feliz. – Sinto que tirei um peso das minhas costas depois de conversar com a minha mãe, agora ela e meu pai já sabem de tudo, e resolvi minha situação com Neuza também. Mari ouvia tudo, balançando a cabeça em concordância, e ao ouvir sobre meu desfecho de novela mexicana com a ex-diretora, soltou alguns palavrões, mas ainda assim, continuou ouvindo e rindo com meus comentários. – Cadê minha pipoca? Ela questionou retoricamente, ainda divertindo-se muito com o que ouvia,
DylanO dia estava escaldante naquela manhã de verão, e para piorar a situação, eu ainda precisava ficar a postos no estacionamento perto dos carros, sendo que a lataria quente deixava tudo ainda pior. Olhei ao entorno, sentindo que estava apertando a mandíbula involuntariamente, procurei por um cigarro em meus bolsos, mas não encontrei nenhum, o que apenas me deixou ainda mais ansioso. Gale, há alguns metros de distância, parecia me observar em silencio, o que estava em sua mente era óbvio: ele não confiava em mim.Eu estava ciente disso desde a primeira vez que o vi, porém, dessa vez, ele não estava fazendo o menor esforço para esconder.Fui tirado dos meus devaneios quando uma chave foi jogada em minha direção, voltei meus olhos para Scar que havia acabado de sair de dentro do galpão e esperei suas ordens, já podendo imaginar que tratava-se de
Azarya...Os desmaios não são como nos filmes, durante os quais se fica desacordado por horas, pelo contrário, foi muito mais rápido do que imaginei, e quando voltei a mim, ainda estava na igreja, sendo amparada pelo marido de Neuza, que inclusive não consigo recordar o nome de jeito nenhum, ele me segurava com cuidado, seu rosto lívido de preocupação enquanto a minha irmã – tão apavorada quanto ele –, usando um pano embebido em álcool, tentava me acordar.Senti-me no chão, atordoada e precisei de alguns minutos para enfim, processar o que estava acontecendo à minha volta. Minha estava chorando alto, sendo amparada pela minha mãe que ostentava uma expressão lívida, como se seu cérebro tivesse travado, não sei se por causa do escândalo com a tão “cristã” mãe de família e coordenadora do gr
Estar com a família de Christopher fez com que eu pensasse cada dia mais sobre a minha, quando eu cheguei em casa naquele dia, depois de ir para o trabalho, sentei-me no sofá pensando se Noah dormiria na casa do namorado aquela noite. Não conversamos muito, fazemos as tarefas domésticas que separados para cada um, e organizamos as contas, mas tirando isso, quase nunca temos contato. Fiquei meu celular, tomando coragem para m****r mensagem novamente para o meu irmão, e depois de algum tempo, finalmente mandei uma mensagem para Matteo, perguntando como ele estava, e para a minha surpresa, a resposta foi imediata novamente, dessa vez, fazendo uma ligação. De repente, como uma epifania, percebi o quanto fui imaturo e cruel, tomando coragem para atenção a chamada, afim de me desculpar corretamente, mas antes, desatei em lágrimas como um idiota. – Eu percebi que você apagou as fotos com Thomas, vocês brigaram? Matteo questionou sua voz tomando um tom séri







