MasukNa manhã seguinte, acordei sentindo os raios de sol entrando pela janela, era quentinho, mas incomodava meus olhos irritados, fazendo com que quase não conseguisse mantê-los abertos. Bocejei, sentando-me desajeitadamente em meio ao amontoado de panos e observei ao redor, reconhecendo o que parecia ser as pernas de Mari sobre seu estomago. Ela estava esticada de qualquer jeito, e seus braços mantinham-se jogados próximo à sua cabeça, repuxando a camiseta longa e branca, mostrando o short curto e rosado que usava.
Ri baixo, percebendo que não estava em posição de criticá-la, visto que uma de minhas pernas estava sobre a mesinha e a outra dobrada formando um “quatro”, isto enquanto meu pescoço entortava-se para caber no espaço entre o um móvel que não consegui identificar e a parede.
“Como raios eu consegui ficar nessa posição?” Questionei para mim mesma, tentando pela segunda vez, me sentar direito.
Esfreguei os olhos, finalmente conseguindo identificar onde estávamos e fiquei um pouco surpresa ao entender que, em algum momento ontem à noite, pegamos os cobertores e os travesseiros da minha cama, e os colocamos no chão da sala, arrumando um verdadeiro ninho de pássaros para dormir.
Levei as mãos à cabeça, chiando enquanto sentia pontadas crescentes, doía tanto que parecia ter levado uma paulada, e para piorar, meus olhos continuavam doendo bastante, fazendo com que eu começasse a pensar na possibilidade de procurar um oftalmologista novamente.
– E então, a choradeira passou? Mari questionou de repente, havia acordado e agora tentava sentar-se, esboçando uma expressão sonolenta.
– Choradeira... – Repeti em tom de indagação, porém, logo arregalei meus olhos inchados ao perceber do que ela estava falando, e dei um tapa em minha própria testa. – Ah Jesus, eu preciso parar de beber com urgência mesmo, Mari.
As lembranças voltavam amontoadas, matando-me de vergonha do meu próprio comportamento, e não para menos pois, como uma adolescente apaixonada, eu havia passado o restante da noite desidratando de tanto chorar nos braços de Mari. E para completar, a ideia de dormir naquele ninho havia sido minha, motivada pelo desejo de não ficar sozinha, sendo que ela não iria embora em plena madrugada de qualquer forma.
– Não se preocupe, não te deixei ligar para ele! Mari exclamou, abrindo um sorriso orgulhoso enquanto empinava seu nariz longo e fino, modelado por uma rinoplastia muito bem feita. – Se bem que você queria muito, e ficou chorando horrores, dizendo que não queria terminar com ele, que o amava e...
Não deixei que ela terminasse seu monologo, tapando sua boca com a mão, e suspirei, fechando meus olhos enquanto sentia a cabeça latejando ainda.
– Melhor a gente levantar, é outro dia... – Murmurei tirando suas pernas de cima da minha barriga, levantei-me e a puxei pelo pé, rindo de sua expressão de susto pelo gesto abrupto. – Aliás, isso está parecendo uma cena de crime.
Ela concordou, rindo também e depois de reclamar um pouco sobre sentir o estômago se revirando, começou a dobrar os cobertores, colocando-os sobre o acolchoado do sofá, em seguida, virou-se para mim e pousou as mãos sobre a cintura como uma mãe dando bronca.
– Não vai me ajudar? Questionou arqueando uma sobrancelha indagadora e tentou puxar a borda do carpete que havia ficado presa sob o pezinho do sofá. – Caramba, nem é tão pesado, porque ficou preso?
Mari agachou-se no chão, tentando erguer o móvel, e para ajudá-la, fiquei dando solavancos enquanto procurava uma forma de puxar o carpete com toda a minha força. O carpete se soltou abruptamente, quando aconteceu, me desequilibrei caindo no chão, ouvindo um estalo esquisito, e chiei de dor esfregando o lugar dolorido.
A minha frente, minha melhor amiga parecia entretida com algo embaixo do sofá, seu braço estava esticado e seus dedos uniam-se em um formando de pinça enquanto tentava puxar algo que eu não conseguia ver, mas que parecia estar preso numa fenda entre as extremidades do piso de madeira polida.
– ‘Tá’ bebendo tanto que anda perdendo os brincos? Ela questionou em tom brincadeira e ergueu o objeto, segurando-o entre suas unhas longas e decoradas, sorrindo-me de maneira um tanto sugestiva. – Uau, é lindo... eu não sabia que gostava de diamantes.
– Não tenho joias tão caras... – Respondi aproximando-me para olhar o que ela estava me mostrando e tendo certeza de que aquilo não me pertencia.
– Certeza que não é seu? Perguntei sentindo um arrepio subir pela minha coluna ao vê-la balançando a cabeça negativamente. – Será que era da moça?
Nesse momento, olhamos uma para a outra, ambas assustadas, e em seguida, observei ao redor, sentindo um frio na barriga, e lembrando-me que, quando aluguei a casa, os móveis já estavam inclusos no contrato como um bônus.
– A casa era mobiliada quando me mudei... – Contei baixinho, sentindo o enjoo crescendo e levei a mão à boca, quase passando mal. – Ela viveu aqui, e deve ter perdido o brinco em algum momento.
– Isso é um pouco mórbido... – Mari disse enquanto abraçava seu próprio corpo, e fazendo uma expressão de quem sentia muito frio enquanto olhava ao redor com ansiedade. – Melhor devolver para ela, não é bom ter coisas assim...
– E como farei isso? Perguntei mais para mim do que para ela, e fechei os olhos, unindo as mãos em frente ao rosto. – Nem sei onde a família dela mora!
– Será que o locatário não tem essa informação? Mari perguntou, gesticulando com as mãos tremulas. – Agora você tem um bom motivo para isso.
Peguei o brinco, colocando-o dentro de um pequeno envelope que encontrei em minha bolsa e guardei no bolso interno, deixando-o protegido. Em seguida, peguei meu celular, e comecei a pesquisar sobre quaisquer incidentes naquele endereço nos meses que antecederam a minha chegada.
E foi assim que descobri que meu bairro não era tão seguro quanto pensei. Havia uma grande lista de crimes envolvendo tráfico de drogas e assaltos, porém, o mais chocante era o número de mulheres que foram dadas como desaparecidas naquela região.
Um desses infortúnios, colocado apenas como um “acidente”, era a morte da moça que morava na casa antes de mim. Chamava-se Sharon, não havia fotos dela – a família não permitiu tal divulgação –, e pelo que estava nas notícias, apenas sabia-se que teve uma overdose.
– Ela tinha 21 anos, estudava moda... – Li um dos comentários deixados por conhecidos dela, e sorri fraquinho para minha melhor amiga, sentindo-me novamente próxima àquela moça que, assim como eu, havia se mudado para Nova York em busca de seus sonhos.
– É uma pena que tenha morrido tão cedo... – Mari murmurou
– Pergunto-me se a família sabe que ela não está em paz... – Murmurei ampliando a imagem do que parecia ser o seu funeral, notando uma grande quantidade de flores brancas e uma mulher de cabelos grisalhos próximo ao caixão chorando muito.
– É bom óbvio que você quer contar a eles. – Mari resmungou fazendo uma expressão de quem parecia não conseguir decidir se concordava ou não comigo. – Não tem um modo fácil de simplesmente chegar a eles e dizer, então eu moro com o fantasma da sua filha falecida há três meses.
– Eu preciso fazer alguma coisa para ajudá-la a ter paz... – Murmurei com tristeza, olhando-a com minha melhor cara de “cachorrinho que caiu da mudança”. – Não acho que terei paz se continuar omissa a isso, você sabe.
Depois de algum tempo, consegui convencê-la de que era o correto a se fazer, e um tanto a contragosto, ela decidiu que me ajudaria no que pudesse.
– Mas antes, precisamos cuidar das nossas vidas! Mari exclamou alto enquanto caminhava em direção à cozinha, remexeu nos armários parecendo procurar por alguma panela especifica e me fitou por sobre o ombro. – Estamos vivas, e levaremos brinca se não chegarmos à faculdade no horário.
Eu concordei, não podendo retrucar aquele argumento e segui seus passos, percebendo que ela havia pego uma panela enorme para preparar sua famosa sopa da ressaca, para comermos antes de sair, me aproximei tentando ajudá-la, mas praticamente só fui entregando os ingredientes.
E enquanto a sofá fumegava ao fogo baixo, nos revezamos para tomar banho, por sorte eu tinha algumas roupas intimas e escova que nunca usei, podendo emprestar para ela. Porém, ainda assim, seria necessário usar roupas minhas, e ao deparar-se com meu guarda-roupas, provavelmente dando falta de roupas coloridas, Mari me fitou com uma sobrancelha erguida.
– Suas roupas e cabelos dizem coisas diferentes sobre você... – Reclamou praticamente enfiando a cabeça dentro do guarda-roupas como se assim, fosse brotar do nada alguma coisa que a agradasse. – Nenhuma blusinha rosa?
– Experimenta juntar minha personalidade e gosto musical... – Respondi sorrindo de canto, e apontei a parte das peças mais claras. – Tenho bege, serve?
– Queria uma roupa menos comportada! Mari exclamou ficando séria, e pousou a mão no queixo enquanto caminhava ao meu redor, parecendo estar me analisando. – Tem cabelos coloridos, mas sem roupas coloridas, suspeito...
– Eu era professora... – Expliquei ainda rindo do seu pequeno escândalo e procurei por alguma peça que lhe servisse, percebendo que era a primeira vez que falava sobre isso.
– É. Você tinha dito que se formou em pedagogia... – Mari murmurou aproximando-se, seu rosto esboçando grandes curiosidades. – E porque deixou?
– Não se desdobrou como eu esperava... – Contei quase em um sussurro, não sentia vergonho de ter desistido, mas ainda era algo que me ressentia.
Mari pareceu ter percebido o quanto era desconfortável tratar daquele assunto e não questionou mais nada, sorrindo de canto enquanto escolhia algumas peças aleatórias, vestindo-as rapidamente para em seguida, correr de volta à cozinha com o pretexto de que a sopa já deveria estar no ponto.
Agradeci mentalmente por seu gesto, era realmente agradável saber que podia contar com esse tipo de amparo. Respeitei fundo, saindo dos meus devaneios e tomei meu próprio banho, começando a me arrumar com o conjunto simples que escolhi. Dei uma boa escovada nos meus cabelos ainda um pouco úmidos, passei perfume e caminhei em direção à cozinha, sentindo o cheiro bom do cozido.
Sentei-me à mesa, notando que a sopa estava servida em duas grandes tigelas de porcelana, agradeci, e peguei uma das colheres para provar o sabor, soprando o vapor antes de levar à minha boca. E estava maravilhosa, apesar de ser um prato simples, feito com ingredientes que todo mundo tem na geladeira.
– Então, como pretende fazer para falar com a família? Mari questionou de repente, ficando mais séria, e parando de comer para me encarar.
– Eu mandei algumas mensagens para o locatário... – Respondi soltando um longo suspiro, ainda não fazia ideia de como poderia entrar em contato com aquela pessoa. – Estou esperando que me consiga algo, talvez um número de telefone ou e-mail.
– Ele deve ter algo... – Mari concordou, voltando a comer sua sopa enquanto concluía suas ideias. – Sempre ficam informações assim nos arquivos!
Enquanto comia minha sopa que já estava esfriando, comecei a devanear novamente sobre a situação em que minha vida se encontrava, pensando no quanto as situações complicadas viam em ondas de tamanho crescente, até transformar-se em um tsunami no fim das contas.
Uma relação delicada com a minha família, um namorado potencialmente casado, e agora, uma colega de quarto de outro mundo, sem “redundâncias”.
De alguma forma, lembrei-me das orações que nos ensinavam quando éramos crianças, para que orássemos antes de dormir. Eu havia recebi educação cristã formal, porém, como não era praticamente, estava muito afastada daquela fé. E agora parecia que estava sendo testada.
Deixei aquelas questões de lado por um momento, peguei nossa louça e coloquei sobre a pia, enquanto lavava, ouvi minha melhor amiga comentando sobre ainda estar sentindo dor de cabeça e concordei, a minha também latejava. Quando estávamos prestes a sair do apartamento, dei uma última olhada de soslaio e me deparei com o pequeno vulto que estava de pé na sala.
Dessa vez, o espirito estava visivelmente mais sólido, possibilitando que eu visse suas roupas e cabelos cumpridos. Ela usava algo semelhante a um vestido longo que não consegui identificar a cor por ainda estar um tanto opaco, mas imaginei que fosse rosa ou bege.
– O brinco é realmente seu, não é? Questionei, tentando pela primeira vez, me comunicar com ela.
E por não esperar uma resposta, fiquei surpresa, quando a vi balançando a cabeça positivamente, enquanto sussurrava algo que não consegui entender.
Depois de tudo o que aconteceu, precisei ficar alguns dias internada no hospital para tratar uma inflamação no estomago causada pelos socos, como estava medicada a maior parte do tempo, não sentia dor, mas a angustia em não poder ver Dylan era o pior. Ele havia passado por cirurgias por cauda das facadas, sua parceira de ação, Hanna, havia me visitado, contando sobre seu estado de saúde que era estável, mas não conseguiu me acalmar. Mari passava a maior parte do tempo ao meu lado, tendo que ser praticamente expulsa pelos médicos, quando o horário de visita acabava, o que sempre me fazia rir de suas carinhas de cachorro sem dono dela. Meus pais eram outros que sempre estavam por perto, não queria contar para eles sobre o incidente, inicialmente, para não os preocupar, mas depois de um tempo, percebi que seria pior se descobrissem depois. Tenho feito muito, mesmo estando presa naquele hospital, trabalhei em meu romance, usando como base o manuscrito que fiz na noite de bebedeira, e não
Devo ter desmaiado em algum momento pois, quando acordei estava dentro de um galpão escuro, ouvia choros, havia muitas mulheres que pareciam jovens ao meu redor, o ambiente estava muito quente, e a única luminosidade vinha de uma porta de metal entreaberta. Quando meus olhos finalmente se acostumaram à penumbra, percebi a presença de Sophia, fazendo meu sangue ferver.Gritei me estatelando no chão empoeirado, e a xinguei de todos os nomes que me vieram à cabeça, como meus braços estavam amarrados para trás, a única coisa física que consegui fazer foi chutar as grades que nos prendiam. Estávamos dentro de uma maldita gaiola.As outras moças começaram a chorar ainda mais, fitei seus rostos joviais por sobre a penumbra, percebendo que eram muito novas, e fiquei ainda mais enojada por uma mulher ser capaz de participar de algo tão hediondo.– Não gas
Azárya Depois de três dias, tendo me acertado com meus pais e reencontrado alguns dos meus antigos educandos, percebi que precisava retomar minha vida acadêmica, ou acabaria reprovando, então, depois de uma choradeira e promessas de que passaria o natal com eles, voltei para Nova York, sendo recebida na rodoviária por um abraço caloroso de Mari. – Tenho tanto para te contar... – Murmurei sorrindo enquanto a acompanhava, ajeitei a alça da mochila sobre o ombro e suspirei feliz. – Sinto que tirei um peso das minhas costas depois de conversar com a minha mãe, agora ela e meu pai já sabem de tudo, e resolvi minha situação com Neuza também. Mari ouvia tudo, balançando a cabeça em concordância, e ao ouvir sobre meu desfecho de novela mexicana com a ex-diretora, soltou alguns palavrões, mas ainda assim, continuou ouvindo e rindo com meus comentários. – Cadê minha pipoca? Ela questionou retoricamente, ainda divertindo-se muito com o que ouvia,
DylanO dia estava escaldante naquela manhã de verão, e para piorar a situação, eu ainda precisava ficar a postos no estacionamento perto dos carros, sendo que a lataria quente deixava tudo ainda pior. Olhei ao entorno, sentindo que estava apertando a mandíbula involuntariamente, procurei por um cigarro em meus bolsos, mas não encontrei nenhum, o que apenas me deixou ainda mais ansioso. Gale, há alguns metros de distância, parecia me observar em silencio, o que estava em sua mente era óbvio: ele não confiava em mim.Eu estava ciente disso desde a primeira vez que o vi, porém, dessa vez, ele não estava fazendo o menor esforço para esconder.Fui tirado dos meus devaneios quando uma chave foi jogada em minha direção, voltei meus olhos para Scar que havia acabado de sair de dentro do galpão e esperei suas ordens, já podendo imaginar que tratava-se de
Azarya...Os desmaios não são como nos filmes, durante os quais se fica desacordado por horas, pelo contrário, foi muito mais rápido do que imaginei, e quando voltei a mim, ainda estava na igreja, sendo amparada pelo marido de Neuza, que inclusive não consigo recordar o nome de jeito nenhum, ele me segurava com cuidado, seu rosto lívido de preocupação enquanto a minha irmã – tão apavorada quanto ele –, usando um pano embebido em álcool, tentava me acordar.Senti-me no chão, atordoada e precisei de alguns minutos para enfim, processar o que estava acontecendo à minha volta. Minha estava chorando alto, sendo amparada pela minha mãe que ostentava uma expressão lívida, como se seu cérebro tivesse travado, não sei se por causa do escândalo com a tão “cristã” mãe de família e coordenadora do gr
Estar com a família de Christopher fez com que eu pensasse cada dia mais sobre a minha, quando eu cheguei em casa naquele dia, depois de ir para o trabalho, sentei-me no sofá pensando se Noah dormiria na casa do namorado aquela noite. Não conversamos muito, fazemos as tarefas domésticas que separados para cada um, e organizamos as contas, mas tirando isso, quase nunca temos contato. Fiquei meu celular, tomando coragem para m****r mensagem novamente para o meu irmão, e depois de algum tempo, finalmente mandei uma mensagem para Matteo, perguntando como ele estava, e para a minha surpresa, a resposta foi imediata novamente, dessa vez, fazendo uma ligação. De repente, como uma epifania, percebi o quanto fui imaturo e cruel, tomando coragem para atenção a chamada, afim de me desculpar corretamente, mas antes, desatei em lágrimas como um idiota. – Eu percebi que você apagou as fotos com Thomas, vocês brigaram? Matteo questionou sua voz tomando um tom séri







