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6 Segredos, álcool e drama...

last update Fecha de publicación: 2021-08-04 18:15:24

Dylan me mandou algumas mensagens, depois de dias sem nenhum sinal de vida, fiquei irritada, sentindo vontade de deixa-lo no vácuo, mas não o fiz. Respondi seus questionamentos de como eu estava, e franzi as sobrancelhas ao perceber a frequência com que ele me questionava a respeito da minha segurança.

“Porque a minha segurança te preocupa tanto?” Retribui sua pergunta com outra, e esperei pelo que ele responderia, ficando cada vez mais irritada com suas mensagens ambíguas.

“Quando nos veremos novamente?” Questionei sentindo meu peito se apertar pois, começava a pensar novamente sobre nosso possível término, pois, dessa vez, o questionaria sobre minhas dúvidas e caso ele realmente fosse casado, essa seria a última vez que nos veríamos.

Para a minha surpresa, uma chamada começou a sinalizar na tela do meu celular, pensei um pouco se deveria atender, calculando a possibilidade de ter consequências ruins para mim, e depois de alguns segundos, atendi, esperando para ouvir sua voz tão apaixonante.

“Devo estar retornando em algumas semanas...” Ele explicou, sua voz soando um pouco baixa como se não quisesse ser ouvido por outras pessoas. 

Fiquei triste ao perceber isso, imaginando em minha mente um tanto neurótica, que ele estaria falando baixo para que sua esposa e filhos não o ouvissem conversando com a amante. Fechei os olhos sentindo minha garganta doer, e não conseguia dizer mais nada depois de chegar àquela conclusão, porém, quando estava prestes a desligar, ouvi uma segunda voz masculina jovem.

Fiquei em silencio, tentando entender o que ele dizia e me surpreendi ao ouvir alguns palavrões um tanto obscenos, aparentemente, o outro homem perguntava algo como “quem era a put*” com quem Dylan estaria conversando durante o trabalho. E nesse momento, a tristeza se transformou em raiva, senti vontade de xingar os dois, principalmente meu namorado que, ao que parecia, não estava me defendendo.

Contudo, Dylan não foi tão filho da put* e eu o ouvi reclamando para o outro que não falasse daquela forma comigo, em seguida, pediu desculpas dizendo que o amigo tinha um senso de humor digno de um moleque da quinta série.

Depois disso, a ligação caiu e não consegui mais conectar, então decidi voltar para minha casa antes que ficasse muito escuro para perambular pelas ruas de bicicleta. Guardei o celular na bolsa e me preparava para ir embora quando ouvi meu nome sendo chamado pela voz de Mari, olhei para trás e franzi as sobrancelhas, questionando silenciosamente o que ela estava fazendo.

– Eu vou com você... – Ela gritou ao longe, acenando e balançando seus cabelos longos enquanto corria em minha direção. – Pode me dar uma carona?

 – Não, porque não tenho garupa! Respondi apontando para a bicicleta.

– A pois, você terá que ir empurrando... – Mari reclamou cruzando os braços e fitando-me como se seu comportamento fizesse algum sentido.

Dei de ombros, concordando, e então seguimos pelo caminho conversando sobre coisas aleatórias, passando por uma loja de conveniência, onde compramos algumas latinhas de cerveja e petiscos salgados. Era engraçado ver alguém se alocar em minha casa por conta própria daquela forma, mas eu não tinha nada a reclamar, pelo contrário, estava muito feliz pelo cuidado que ela estava tendo comigo.

Quando chegamos ao apartamento, colocamos as latinhas de cerveja na geladeira e aproveitei para pegar alguns ingredientes afim de fazer sanduiches para nós. Enquanto eu preparava os lanches, ela procurava pela programação algum filme interessante, rindo loucamente ao encontrar um longa-metragem que havia estreado em seus anos de infância.

– Esse filme revela a minha idade! Exclamou ainda rindo como uma doida, e correu a cozinha, animada para falar do que havia encontrado. – Está passando Resident Evil, podemos assistir esse e fazer maratona das continuações...

– Parece uma boa ideia... – Murmurei retirando os sanduiches da grill, coloquei em um prato grande e segui em direção à sala sendo seguida por ela. – Nem me fale, as crianças que peguei no braço já estão tirando a habilitação.

– Eu pego a cerveja! Mari se prontificou sorridente, e poucos segundos depois já estava me seguindo, caindo na gargalhada com algo que certamente passou em sua mente por causa do que falávamos. – Somos idosas, mano...

Algumas horas se passaram e quando estávamos no terceiro filme da franquia, bêbadas e conversando abobrinha – já somos tagarelas, imagina bêbadas –, o frio retornou, fazendo com que o assunto da casa ser assombrada veio à tona novamente. Nesse momento, o vulto passou por nós, prostando-se em seu lugar habitual, e olhando-me fixamente como sempre, mas dessa vez, parecia mais visível do que antes.

– Você sabe, essa casa tem um clima esquisito... – Mari reclamou abrindo outra latinha, e bebendo cheia de gosto. – E nem é antiga, como pode hein? Hic.

– Na verdade, ela é assombrada... – Expliquei sentindo os efeitos da embriagues, pensando inclusive, em como havia sido rápido dessa vez, e decidindo contar a verdade para ela. – Tem um vulto que sempre vejo, não é como nos filmes, mas eu tenho certeza de que há alguém comigo.

Mari me fitou com olhos arregalados por causa da surpresa, e acabou por abrir a boca sem querer, derramando a cerveja que havia “juntado” em sua bochecha. Depois disso, ambas rimos como duas doidas, esquecendo completamente o que eu mesma havia acabado de dizer. Um claro sinal de que o álcool já havia feito a gente perder a noção.

– Você vê um fantasma? Ela questionou interessada, olhando ao redor, e aparentemente excitada com a ideia. – Conte-me, como é que ele se comporta?

– De alguma forma, imagino que seja uma garota... – Contei pensando em apontar para onde o vulto estava, mas mudei de ideia por causa da proximidade que Mari estava do sofá. – Ela somente fica me olhando, nada mais.

– Será que tem algum corpo sob o assoalho, como nos filmes? Mari perguntou abrindo um sorriso enorme, começando a soluçar por causa da bebida em exagero. – Explicaria porque o aluguel é barato, você devia ter perguntado.

Foi nesse momento que a fixa caiu e percebi o quanto era obvio, surpresa comigo mesma por não ter pensado nisso ainda. Claro que essa hipótese não havia passado pela minha mente objetiva, parecia mais fácil acreditar que a culpa era do mofo tóxico e potencialmente mortal que se alojava na cozinha e área de serviço.

– Vamos ligar pro dono? Mari questionou com um sorriso cheio de dentes.

– O que, ‘tá’ doida? Reclamei descrente, não gostando da ideia que parecia um absurdo do meu ponto de vista. – Estou bêbada, mas não tanto, Mari.

– Ninguém dorme esse horário... – Ela reclamou sorrindo, pegou meu celular e procurando pelo número do proprietário. – E precisamos de informação.

Por alguma loucura, acabei concordando em falar. Discamos o número e colocamos o celular no viva a voz, ficando em silencio enquanto esperávamos a chamada conectar, e depois de chamar três ou quatro vezes, finalmente ele atendeu, questionando imediatamente se havia acontecido algum problema.

– Boa noite! Exclamei sentindo-me uma criança passando trote, em minha mente vindo a imagem de seu rosto gordinho e os cabelos ficando ralos pela calvície de meia idade. – Não. Está tudo bem. Estou ligando para questionar sobre os antigos moradores na verdade, queria saber porque o curto é tão baixo.

A linha ficou em silencio por alguns instantes, era como se ele não quisesse contar o que havia acontecido. Um comportamento que muito suspeito.

– Devia ter perguntado antes, não posso quebrar o contrato agora... – Ele disse depois de algum tempo, claramente procurando as palavras que achava melhor para me contar algo que devia ser incomodo.

– Não pretendo fazer isso, mas... – Apressei-me em explicar, visto que estava gerando uma pequena confusão. – O senhor está me assustando, por favor conte-me o que aconteceu.

– Alguns meses atrás, uma moça morreu de overdose. – Ele contou finalmente, soltando um longo suspiro e pude o imaginar passando a mão pelos cabelos ralos. – Era uma boa pessoa, mas se envolveu com companhias ruins...

Nesse ponto eu já estava sóbria e apavorada. Voltei minha atenção a parede onde o vulto geralmente ficava parado, e notei que não havia nada, como se ela quisesse ouvir aquela conversa. Então olhei para Mari, notando como seu rosto parecia angustiado, mordi o lábio inferior, triste, e suspirei sem saber como continuar aquela conversa sem que ficássemos mais melancólicas, algo que não parecia possível.

– Senhorita? O locatário questionou depois de algum tempo, provavelmente achando que a ligação havia caído por causa do meu silencio.

– Estou ouvindo... – Murmurei apertando minhas próprias mãos, e sentindo um incômodo crescente que culminava em um enjoo.

– Perdoe-me por não ter contado antes, eu estava precisando de dinheiro por causa do tratamento da minha filha! Ele exclamou sendo sincero, e lembrei-me do nervosismo que ele apresentou quando me mostrou a casa, parecia realmente se sentir culpado. – Irei entender se quiser se mudar, e não cobrarei a quebra do contrato.

– Não. Eu ficarei! Respondi sentindo um súbito surto de coragem, eu queria ajudar aquela moça a ter paz.

Talvez fosse a minha parte religiosa, mesmo que ainda estivesse impressionada com a história do espirito.

 – Fico muito feliz em ouvir isso! Ele exclamou, sua voz tomando um eco mais alegre e um tanto aliviado.

– Boa noite! Exclamei gesticulando para mim mesma, encerrando a ligação depois de ouvi-lo desejar o mesmo. – E desculpe por ligar esse horário...

Em seguida, respirei fundo enquanto esfregava as mãos pelo rosto sem animo nenhum, e fitei minha amiga de carne e osso, questionando baixinho o que ela achava de tudo aquilo, mesmo que eu mesma não soubesse.

– Não está com medo? Ela perguntou surpresa, arqueando uma sobrancelha, e formando uma expressão indagadora.

– Talvez eu ainda esteja bêbada... – Respondi pensativa, porém, aquilo não era exatamente verdade. – Ela nunca me fez mal, então eu quero ajuda-la.

– Espera, você disso que ela aparece quando você ‘tá’ bebendo? Mari questionou de repente, aquela questão parecia estar brilhando em sua cabeça como se acendesse uma lâmpada.

– É. Inclusive eu achava que fosse até coisa da minha cabeça por causa da bebida... – Expliquei sem pensar muito no que estávamos pontuando, juntei as mãos em frente ao rosto e fechei os olhos sentindo os primeiros sinais da ressaca futura.

– E se tiver alguma relação? Mari questionou, o sorriso animado voltando a surgir em seu rosto. – Tipo, será que ela quer que você pare de beber?

Ouvi sua pergunta e voltei meus olhos à latinha em minha mão, percebendo que existia uma grande possibilidade de ela estar certa. Em seguida, joguei o resto do liquido na pia como havia feito com o vinho, e como ela fez o mesmo, me senti incentivada a jogar o restante das latinhas no lixo.

Ficaríamos sóbrias a partir daquele momento, não planejava tocar em álcool tão cedo, e se ela realmente estivesse certa, eu teria que esperar para ver o que iria acontecer dali para a frente.

– Preciso descobrir mais sobre ela... – Sussurrei pensativa, peguei meu celular e tentei fazer uma pesquisa, mas estranhamente a internet havia caído e até mesmo o sinal da torre havia sumido. – Tá, isso é estranho.

– O que foi? Mari perguntou inclinando o rosto em direção ao meu celular.

– Estamos sem conexão... – Respondi dando de ombros, mas fazendo uma expressão que transparecia a sensação de que estávamos ficando cada vez mais imersas naquele problema. – Lasquemo-nos muito provavelmente.

– E você ainda faz piada... – Mari reclamou erguendo a mão e me dando um peteleco, para em seguida, puxar-me para mais perto pela gola da blusa, e nos encaramos. – Se essa casa for assombrada e tiver um espirito maligno querendo comer uma alma, saiba que vou dar a sua.

– Que maldade! Exclamei sorrindo de canto, e fiz uma negativa com a cabeça. – Aliás, você me assustou, parecia até que ia me bater de verdade.

– Merecia apanhar mesmo, para levar coisas assim mais a sério... – Mari resmungou, sua voz soando um pouco mais alta que o normal. – Maluquinha!

Fiz minha melhor carinha de cachorro que caiu da mudança, e deitei a cabeça sobre o encosto do sofá, caindo em um choro desconsolado de repente. Era como se toda a angustia que vinha sentindo, estivesse transbordando naquele momento, provavelmente por algum efeito retardado da bebida alcoólica.

– Não chora... – Mari murmurou, seus olhos começando a marejar também enquanto me abraçava com força. – Eu estava brincando, não vou te bater de verdade.

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