LOGINDo outro lado do avião, Miguel se acomodava na poltrona, passando a mão pelo cabelo de forma distraída.
E então pensou nela. — Mas que mulher é aquela… A imagem veio clara. Corpo bonito. Bem modelado. Os cabelos castanhos, levemente ondulados, caindo de forma natural. E os olhos… Cor de mel. Expressivos. Mesmo irritada, havia algo nela que chamava atenção. Ele soltou um pequeno sorriso de canto. — E brava ainda… Encostou a cabeça no banco, ainda com a imagem dela na mente. Sem saber o nome. Sem saber nada. Mas, de alguma forma, sabendo que não era alguém fácil de esquecer. O avião começou a se mover lentamente. Os dois seguiram no mesmo voo… Carregando a mesma primeira impressão: Errada. Mas impossível de ignorar. _ O voo seguia tranquilo. As luzes suaves da cabine, o som constante dos motores e o céu limpo além das janelas criavam uma sensação quase hipnotizante. Muitos passageiros cochilavam, outros liam ou assistiam a filmes. Tudo parecia exatamente como deveria ser. Laura observava as nuvens pela pequena janela ao seu lado. Ainda custava acreditar que estava ali. Era a primeira vez que viajava de avião sozinha. Pela primeira vez, deixava para trás a rotina, o restaurante, as lembranças da mãe e os medos que insistiam em acompanhá-la. Não sabia exatamente o que encontraria no destino, mas tinha certeza de que precisava daquela viagem. Talvez fosse o primeiro passo para mudar de vida. Respirou fundo. Fechou os olhos por alguns segundos e sorriu discretamente. Até que... Uma leve sacudida. Ela abriu os olhos imediatamente. Olhou ao redor. Algumas pessoas também perceberam, mas continuaram agindo normalmente. Um senhor voltou a ler seu livro. Uma mulher sorriu para o filho pequeno, tentando distraí-lo. Laura apoiou a cabeça no encosto. — Deve ser normal... — murmurou para si mesma. Algumas fileiras à frente, Miguel observava distraidamente o oceano pela janela. Viajar de avião nunca o incomodara. Pelo contrário. Gostava da sensação de estar acima das nuvens. Gostava de imaginar o imenso mar lá embaixo, escondido sob aquele tapete branco. Mas pequenos detalhes dificilmente escapavam à sua atenção. Sentiu uma nova vibração. Diferente da primeira. Franziu a testa. O avião sacudiu outra vez. Mais forte. Dessa vez, várias pessoas interromperam o que estavam fazendo. O silêncio começou a substituir as conversas. Uma das comissárias de bordo caminhou apressadamente pelo corredor, verificando os cintos e pedindo, com um sorriso que tentava parecer tranquilo, para que todos permanecessem sentados. Segundos depois, a voz do comandante ecoou pelos alto-falantes. — Senhores passageiros, estamos entrando em uma área de instabilidade. Pedimos que todos permaneçam sentados, com os cintos devidamente afivelados. A tripulação também retornará aos seus assentos. Agradecemos a compreensão. Laura apertou o cinto. Seu coração começou a bater mais rápido. Tentou controlar a respiração. Era só uma turbulência. Precisava acreditar nisso. Miguel cruzou os braços e olhou discretamente para a asa do avião. Ela vibrava mais do que o normal. Então veio outra sacudida. Muito mais intensa. O avião perdeu altitude por alguns segundos. Foi como se o chão simplesmente desaparecesse. Diversos passageiros gritaram. Uma criança começou a chorar desesperadamente. Alguém iniciou uma oração em voz alta. Laura segurou com força os apoios da poltrona. Os dedos ficaram brancos. Sentia o peito apertado. O ar parecia não chegar aos pulmões. — Vai passar... vai passar... Mas nem ela acreditava mais naquelas palavras. As luzes da cabine piscaram. Uma vez. Duas. Três. Depois permaneceram acesas de forma irregular, lançando sombras inquietantes pelo interior do avião. Foi então que um ruído diferente tomou conta da cabine. Não era o barulho dos motores. Era um som metálico. Agudo. Longo. Como se alguma parte da aeronave estivesse sendo forçada além do limite. Miguel ergueu o olhar imediatamente. Seu instinto dizia que aquilo não fazia parte de uma simples turbulência. Ao redor, os rostos já demonstravam pânico. Uma mala caiu de um compartimento superior. Outra deslizou corredor abaixo. Uma comissária tentou se levantar, mas foi obrigada a voltar ao assento quando uma nova sacudida lançou seu corpo para trás. O avião inclinou bruscamente para um dos lados. Os gritos se multiplicaram. Laura fechou os olhos. Levou as mãos ao peito. pensou na mãe. Em todos os sonhos que ainda não tinha realizado. Do outro lado da cabine, Miguel segurou o banco à sua frente. Sua mente tentava entender o que estava acontecendo, mas não havia lógica suficiente para explicar aquela sequência de acontecimentos. Então veio a queda. Violenta. O estômago pareceu subir até a garganta. Os corpos foram pressionados contra os cintos. Alguns objetos flutuaram por um breve instante antes de despencarem novamente. O comandante dizia alguma coisa pelos alto-falantes. Mas ninguém conseguia entender. As palavras eram engolidas pelo barulho ensurdecedor do avião. Outro impacto. Ainda mais forte. O metal estalou. Um som seco atravessou toda a fuselagem. Laura abriu os olhos no exato instante em que viu máscaras de oxigênio caindo do teto. Antes que pudesse reagir... O mundo pareceu girar. Um estrondo ensurdecedor tomou conta de tudo. O avião atingiu a água com uma violência inimaginável. O corpo de Laura foi lançado contra o cinto. Vidros estilhaçaram. Bagagens voaram. Pessoas gritavam por socorro. Em poucos segundos, a água gelada começou a invadir a cabine. Subia depressa. Muito depressa. O caos tomou conta de tudo. E então... A escuridão.A água continuava fria, mas o banho seria um verdadeiro luxo depois de tantos dias. Ela deixou as roupas próximas às pedras e entrou devagar na água. Quando a água caiu sobre seus cabelos, Laura fechou os olhos. Por alguns minutos, esqueceu a ilha. Esqueceu o acidente. Esqueceu o medo. Usou o sabonete cuidadosamente, limpando a pele e os cabelos, sentindo-se pela primeira vez em muitos dias um pouco mais próxima da mulher que era antes de tudo aquilo acontecer. Depois escovou os dentes e lavou o rosto. Ao terminar, sentou-se sobre uma pedra e ficou observando a água cair. Pensou em Miguel. Esperava que a pesca tivesse mais sorte daquela vez. ____ Perto do rio, Miguel preparava a linha. Prendeu uma das minhocas no anzol de espinho e lançou a linha na água. Esperou. Nada. Mudou ligeiramente de posição e lançou novamente. A correnteza fazia a linha se mover devagar. Miguel permaneceu imóvel, atento a qualquer sinal. Naquele momento, não sabia se cons
Antes de começarem a explorar a região, Miguel pegou algumas brasas e as colocou cuidadosamente dentro de um pedaço grande de bambu, usando-o para transportá-las sem deixá-las apagar. Os dois subiram até o alto do morro e, com folhas secas e pequenos galhos, conseguiram reacender a fogueira. Quando as chamas finalmente cresceram, Miguel acrescentou mais madeira para mantê-la acesa. Só então voltaram para perto do abrigo e partiram para explorar a ilha. Quanto mais se afastavam do abrigo, mais sinais do acidente apareciam. Havia galhos espalhados pela areia, folhas acumuladas entre as pedras e pedaços de madeira que provavelmente haviam sido carregados pelas ondas. Em alguns pontos, encontraram pequenos fragmentos de plástico, pedaços de tecido e objetos que pareciam ter pertencido aos passageiros. Laura caminhava devagar, olhando para todos os lados. De repente, parou. — Miguel... Ele voltou imediatamente. — O que foi? Ela apontou para a areia. Entre alguns gal
O dia amanheceu com um sol fraco, escondido entre algumas nuvens que ainda cobriam o céu. O vento frio continuava soprando pela ilha, fazendo as folhas das árvores balançarem sem parar. Laura acordou sentindo o corpo pesado e dolorido depois da noite difícil. Por alguns segundos, permaneceu deitada, observando o teto improvisado do abrigo. Ela se levantou devagar e foi até o lugar onde haviam deixado as roupas. — Vou tentar lavar tudo de novo — disse, pegando os tecidos ainda úmidos e sujos. Caminhou até a cachoeira e começou a lavá-los, esfregando cuidadosamente a sujeira que havia ficado presa nas fibras. Depois de enxaguá-los, voltou para o abrigo e estendeu as roupas ao lado, onde poderiam receber um pouco do sol e do vento. Enquanto isso, Miguel decidiu procurar alguma coisa que pudesse servir para fazer fogo. Andou pela mata, afastando folhas e galhos espalhados pelo chão. Depois da tempestade, porém, quase tudo estava encharcado. Ele tentou encontrar pedaços de ma
A noite chegou lentamente sobre a ilha. Depois de um dia cansativo, Miguel e Laura haviam terminado de organizar o abrigo e se preparavam para descansar. O céu, porém, começava a mudar. Nuvens escuras cobriram as estrelas, escondendo a lua. O vento, que antes soprava suavemente entre as árvores, ficou mais forte. Laura olhou para o céu, inquieta. — Miguel... acho que vem chuva. Ele se levantou e observou as nuvens. — Parece que sim. Precisamos reforçar o abrigo. Os dois começaram a trabalhar rapidamente. Miguel firmou os galhos enquanto Laura tentava prender melhor as folhas que cobriam a estrutura. Mas não tiveram tempo suficiente. Um forte trovão ecoou pela ilha. Laura se assustou. Poucos segundos depois, a chuva começou a cair. Primeiro, em gotas grossas e espaçadas. Depois, como se o céu tivesse se aberto. O vento aumentou violentamente, fazendo as árvores se curvarem. As folhas do abrigo começaram a se soltar, e os galhos rangiam sob a força das rajada
O grito de Laura atravessou a mata. Miguel levantou a cabeça imediatamente. — Laura? Por um instante, ficou imóvel, tentando descobrir de onde vinha o grito. — MIGUEL! SOCORRO! À ouviu gritar novamente. Ele largou o pedaço de madeira que segurava e correu na direção da voz. Quando chegou próximo à cachoeira, encontrou Laura parada, completamente imóvel. As roupas estavam caídas no chão, e alguns metros à frente dela, entre as folhas, uma cobra havia se enrolado. — Laura, não se mexa! Ela olhou para ele, com os olhos arregalados. — Miguel... eu estou com medo. — Fique atrás de mim. Devagar. Miguel se aproximou cuidadosamente, mantendo os olhos fixos no animal. A cobra ergueu a cabeça. Miguel parou. — Calma... Ele pegou um galho comprido que estava no chão e o segurou à frente do corpo. Laura recuou alguns passos. — Miguel ela vai dar o bote! — Não saia daí. Por alguns segundos, nada aconteceu. Então, de repente, a cobra avançou. Miguel reagi
Na manhã seguinte, Miguel e Laura acordaram com os primeiros raios de sol atravessando as folhas das árvores. Como já havia se tornado costume, seguiram a mesma rotina de todas as manhãs. Depois do susto do dia anterior, Miguel decidiu tentar novamente checar o recife. Caminhou até a margem e observou o mar por alguns minutos, procurando algum sinal de perigo. Mas logo percebeu uma sombra escura se movendo sob a água. O tubarão ainda estava por ali. Miguel recuou imediatamente. — Nem pensar — murmurou. Não valia a pena arriscar. Se não podia pescar no mar, teria que encontrar outra alternativa. — Vamos tentar o rio — disse, voltando para perto de Laura. — E como você pretende pescar sem uma vara? — ela perguntou. Miguel sorriu. — A vara eu consigo fazer. Ele já sabia onde encontrar bambu e não demorou muito para escolher um pedaço comprido e resistente. Com sua faca improvisada, limpou os galhos e preparou a vara de pesca. O problema seguinte seria o anzol







