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A floresta parece que vai me sufocar a qualquer momento. Cada galho que quebra debaixo dos meus pés soa alto demais, parecendo um tiro no meio daquela escuridão. O barulho continua ecoando dentro da minha cabeça, aumentando ainda mais o meu desespero. O ar aqui fora é tão gelado que machuca a minha garganta toda vez que eu tento respirar, como se o frio quisesse roubar até o pouco de ar que ainda resta nos meus pulmões. Atrás da gente, os sons ficam cada vez mais próximos. Consigo ouvir galhos se quebrando, vozes grossas atravessando a mata e passos pesados esmagando as folhas secas. Eles não estão mais longe.
Estão perto.
Perto demais.
Meu coração b**e tão forte e tão rápido que sinto cada pulsação latejar nas minhas têmporas. Parece que ele quer escapar do meu peito antes mesmo que eles consigam me alcançar. Minhas pernas tremem sem parar. Os músculos das minhas coxas queimam e imploram por um descanso que eu não posso dar. Eu sei muito bem que parar agora significa morrer. Ou algo muito pior do que a morte. Tropeço em uma raiz grossa escondida pela escuridão e pela lama. Perco completamente o equilíbrio. Meu corpo despenca para a frente, mas, antes que minhas mãos toquem o chão gelado, uma mão segura meu braço com força e me coloca de pé outra vez.
— Eles estão alcançando a gente — ele sussurra perto do meu ouvido.
A voz sai trêmula por causa do cansaço, enquanto os olhos procuram qualquer movimento no meio daquela escuridão.
— Eu não consigo mais correr... — minha voz sai fraca, cortada pela falta de ar. Tento engolir o choro, mas não consigo.
As lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto, misturando-se ao suor, à terra e à sujeira dessa fuga desesperada. Heitor para por apenas um segundo. Tempo suficiente para virar o rosto na minha direção e olhar bem dentro dos meus olhos. O cabelo está grudado na testa por causa do suor, e o peito sobe e desce depressa por causa do esforço. Mesmo assim, os olhos continuam os mesmos.
Firmes.
Teimosos.
A mesma teimosia que eu conheço tão bem e que me fez apaixonar por ele.
— Você consegue, sim! — ele diz, apertando meu braço com ainda mais força, como se quisesse me passar um pouco da coragem que ainda tem. — Se a gente parar agora, Yari, já era. Tudo o que a gente fez não vai valer de nada. Corra comigo. Só mais um pouco. Por favor... faça isso por nós.
E então o mundo volta a girar em um borrão. Voltamos a correr. Juntos. Heitor segura minha mão com força, entrelaçando os dedos aos meus. Ele me puxa para a frente, obrigando minhas pernas exaustas a continuarem. Olho rapidamente por cima do ombro, e o medo toma conta de mim outra vez. As luzes das lanternas surgem entre as árvores, cada vez mais próximas. Os gritos dos homens do meu pai ecoam por todos os lados. São vozes graves, de homens que sabem exatamente o que estão fazendo e que não sentem a menor pena da gente. Parece que estão vindo de todos os lados ao mesmo tempo, cercando a gente no meio do nada. Continuamos correndo por um caminho cercado por árvores tortas e antigas. O chão é um pesadelo, coberto por pedras pontudas e uma lama escura que gruda nos nossos pés e faz cada passo exigir o dobro de esforço. Galhos baixos e espinhos atingem o meu corpo enquanto atravessamos a mata sem pensar duas vezes. Eles rasgam a minha pele e deixam marcas que ardem no rosto, nos braços e nas pernas. Sinto o sangue escorrer pelo meu queixo, misturando-se ao vento gelado da noite, mas a dor é a última coisa com que posso me preocupar.
— Heitor, eu realmente não aguento mais! — grito, com os dentes batendo de puro pavor.
— A gente precisa sumir da visão deles. Continua, Yari. Só mais um pouco. Eu prometo que falta pouco.
Meus pulmões queimam a cada tentativa de respirar. O ar nunca parece suficiente, e a sensação de sufocamento aperta meu peito. Minhas pernas pesam como se estivessem presas à lama, e cada passo exige uma força que eu nem sei de onde ainda consigo tirar. O som do meu próprio coração é tão alto que, por um instante, tenho medo de que os homens que estão nos caçando também consigam ouvi-lo. Mas eu não posso parar. Se eu parar agora, aquela vida horrível que deixei para trás vai me alcançar de novo. Tudo o que construímos em segredo durante dois anos vai desaparecer.
Cada sorriso trocado nos corredores da faculdade.
Cada toque rápido, escondido entre os alunos.
Cada beijo roubado no estacionamento quando a noite caía.
Cada promessa que Heitor sussurrava no escuro do meu quarto, depois de subir pela janela só para segurar a minha mão e dizer que existia um mundo muito maior do que aquele em que eu vivia. Tudo isso vai virar cinzas se eu desistir agora. Olho rapidamente para baixo enquanto continuo correndo. Meu vestido de noiva está completamente destruído. Aquele vestido simples, macio, sem brilho algum, que comprei com todo o dinheiro que consegui juntar às escondidas para não ser rastreável… agora não passa de um monte de pano rasgado e encharcado. Está coberto de lama, com pedaços do tecido perdidos pelo caminho e manchado pelo meu próprio sangue. É impossível não comparar com o outro vestido. O vestido que meu pai mandou trazer de Paris. Pesado, coberto por pedras preciosas e feito para impressionar qualquer pessoa que o visse. O vestido que eu deveria usar em um casamento que nunca foi meu. Um casamento que não passava de um acordo entre famílias poderosas. A faculdade foi a única porta que encontrei para respirar. O único lugar onde consegui ser apenas a Yari. Foi lá que conheci Heitor.
Foi lá que, pela primeira vez, tive coragem de escolher o meu próprio caminho. “Você não é mais minha filha.” A voz do meu pai invade meus pensamentos outra vez, fria como o inverno. Foram as últimas palavras de Richard Ashford antes de mandar os seguranças atrás de nós. Meu estômago se revira ao lembrar do momento em que aqueles homens invadiram a pequena igreja bem no meio da cerimônia. Heitor não hesitou. Apenas segurou minha mão com força, olhou dentro dos meus olhos e gritou: — Corre!
O olhar do meu pai naquele instante ainda me persegue. Era o olhar de um homem que via um objeto escapando do próprio controle. Aquelas palavras machucaram muito mais do que qualquer espinho dessa floresta. E, desde então... Nós não paramos mais de fugir.
— Olha! Água! O grito de Heitor me arranca dos meus pensamentos.
A voz dele mistura alívio e um novo medo enquanto aponta para a frente. O rio surge entre as árvores como uma faixa escura, cercado por pedras perigosas. Pode ser a nossa salvação… ou a nossa sentença. A água corre com tanta força que parece engolir tudo o que encontra pelo caminho. Choveu muito nos últimos dias na Escócia, e o barulho da correnteza batendo contra as pedras ecoa pela floresta, indiferente ao nosso desespero.
— A gente tem que atravessar. — Heitor solta uma nuvem branca de vapor ao falar por causa do frio. Pela primeira vez desde que entramos na parte mais fechada da mata, ele se vira completamente para mim. Sob a luz fraca da lua, consigo enxergar melhor o rosto dele. Há arranhões profundos nas bochechas, um corte acima da sobrancelha esquerda e um fio de sangue escorrendo pelo canto do rosto. Os olhos castanhos, que sempre foram o meu lugar seguro, agora estão arregalados pelo medo e pela urgência. Ainda assim, quando ele olha para mim, alguma coisa muda. A expressão dele se suaviza por um instante.
— Você confia em mim?
Ele pergunta, aproximando-se e segurando meu rosto com as duas mãos trêmulas.
ALGUMAS HORAS ANTES.Ela entra pela porta da igreja e meu mundo simplesmente para.Não é dramático, nem é poético como nos filmes. É apenas... a verdade nua e crua. Tudo o que ocupava minha mente — as reuniões de negócios atrasadas que meu assistente mencionou três vezes hoje, o contrato urgente que preciso revisar antes de segunda-feira, a ligação que deveria ter feito ontem para o investidor japonês — desaparece completamente. Apaga-se como uma luz que deixa de existir.Vejo apenas ela.O vestido é branco, impecável, com uma cauda que se estende por metros intermináveis. Seu cabelo está penteado em ondas suaves e românticas, que caem graciosamente sobre os ombros. A maquiagem é perfeita, profissional, mas há algo em seus olhos que nem a melhor maquiagem consegue esconder.
O restante da recepção passa em um borrão nebuloso.Cortamos o bolo — cinco andares de decadência cobertos por fondant branco e flores de açúcar. Sorrimos para mais fotografias. Recebemos parabéns de pessoas cujos nomes já esqueci.E então, finalmente, somos liberados.Um carro nos leva para o apartamento do Nikolai. Não para a casa de Ekaterina, mas para um apartamento em um arranha-céu luxuoso, a alguns quarteirões dali. O apartamento que agora será onde irei morar com ele.Nossa casa…💞O elevador sobe quarenta andares em um silêncio pesado. Nikolai permanece ao meu lado, sem me tocar, respeitando algum espaço invisível entre nós.Quando as portas se abrem diretamente para o apartamento — elevador privativo, é claro —, ele entra primeiro e acende as luzes.É... deslumbrante.Janelas do chão ao teto revelam uma Manhattan que parece infinita. A decoração é moderna, mas acolhedora. Tudo em tons de cinza, branco e azul suave.— Bem-vinda — Nikolai diz, voltando-se para mim. — Bem-vind
A recepção acontece no Plaza Hotel.O Grand Ballroom foi transformado em algo saído diretamente de uma revista. Flores brancas em profusão — rosas, lírios e orquídeas. Velas em castiçais de cristal sobre cada mesa. Toalhas de linho branco impecáveis. Louças de porcelana fina, taças de cristal e talheres de prata.Tudo perfeito, luxuoso e absolutamente sufocante.Sentamos à mesa principal — apenas Nikolai, eu, Ekaterina e alguns outros membros mais velhos da família Konstantin, apresentados tão rapidamente que não consegui guardar nenhum nome. A comida é servida em pratos que parecem verdadeiras obras de arte. Cada garfada é uma produção. Cada mordida é observada.Como, por que esperam que eu me alimente. Sorrio porque é necessário, converso educadamente quando alguém me dirige a palavra. Respondo às perguntas sobre como nos conhecemos com mentiras que soam surpreendentemente convincentes até para mim.“Nos conhecemos por meio das famílias... Sim, foi amor à primeira vista quando final
Há vida de verdade aqui. Genuína, autêntica, verdadeiramente humana.Subimos uma escadaria larga e elegante. Segundo andar. Depois, terceiro. O quarto que me designam fica no terceiro andar, voltado para os fundos tranquilos da propriedade.É absolutamente, indiscutivelmente lindo. Uma cama com dossel de mogno escuro impecável, coberta por roupa de cama branca, meticulosamente bordada à mão. Cortinas de seda azul-clara que combinam perfeitamente com o delicado papel de parede. Móveis antigos, mas impecavelmente conservados. Um banheiro privativo espaçoso, revestido em mármore branco de veios cinzentos naturais, com uma banheira profunda que parece absolutamente divina. E janelas… Janelas grandes, generosas, que oferecem uma vista deslumbrante para um jardim privado surpreendentemente verde e exuberante para o meio do caos de Manhattan.Nenhuma corrente visível. Nenhuma tranca aparente na porta e nem mesmo grades nas janelas. A liberdade sem liberdade de verdade em sua própria forma, p
Saio finalmente, relutantemente, e me seco com uma toalha surpreendentemente macia. Aproximo-me do espelho grande, ainda embaçado pelo vapor denso, e limpo um círculo irregular com a mão trêmula.A mulher que me observa de volta é uma completa estranha.Tenho vinte e dois anos; meu aniversário foi há três meses, comemorado alegremente em Ibiza com Heitor e alguns colegas da faculdade, sob o sol mediterrâneo, uma memória que parece pertencer a outra pessoa, em outra vida completamente diferente. Mas a mulher no espelho poderia facilmente ter trinta, quarenta, talvez até mais. Meus olhos estão completamente vazios. Absolutamente vazios de qualquer emoção, de qualquer vida. Não há luz neles, nem há esperança. Apenas duas órbitas verdes e escuras, cavadas, em um rosto pálido como papel. Minha pele está translúcida, esticada desconfortavelmente sobre ossos proeminentes que desenham ângulos agudos. Meu rosto perdeu toda a redondeza suave e juvenil, substituída cruelmente por ângulos afiados
Meu rosto está magro demais, anguloso, com as maçãs do rosto proeminentes de uma forma que não tem nada de atraente. Meus lábios estão pálidos, rachados, sem cor. Olho para o espelho que há no quarto e suspiro. — Você emagreceu demais — meu pai comenta friamente, de forma quase clínica, como se estivesse apontando um erro gritante em um relatório trimestral, e volto minha atenção para ele. — Seus ossos estão visíveis sob a pele, não é minimamente atraente. É inaceitável. — Estava com muita dor para comer — respondo em voz baixa. Minha voz sai como um sussurro. — Ainda está doendo; na verdade, tudo dói.— Bem, você tem três dias — ele diz, como se três dias fossem tempo mais do que suficiente para desfazer semanas de trauma acumulado, desnutrição proposital e tortura. — Coma mais. Force-se, se for necessário. Não me importa se dói, se enjoa ou se você vomita depois, apenas coma. Durma mais, use os cremes caros que Bernardo deixou para as olheiras. Quando chegar à casa de Ekaterina Ko







