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Capítulo 5

Author: Pêra
Quando Susana abriu os olhos novamente, o som rítmico dos aparelhos hospitalares preenchia o quarto e sua cabeça pesava sob camadas de gaze. Ao tentar se sentar, percebeu Nathan na cadeira ao lado, com a testa franzida e o olhar carregado de preocupação.

— Você acordou? — A voz dele soou rouca, tensa. — Sente algum desconforto? Por favor, me diga. A queimadura ainda dói muito? Vou chamar a enfermeira para trocar o curativo.

Ele se inclinou, ansioso, sem esperar resposta.

— O médico disse que não foi grave, mas quer que você fique em observação por dois dias. Se passar a pomada direitinho, não vai ficar cicatriz. Como foi o sono? Quer que eu ajeite o travesseiro para você?

Susana o encarou com um olhar opaco, desprovido de brilho.

— Estou bem. — Respondeu ela, com a voz fraca. — Você poderia sair um pouco? Ainda me sinto cansada e queria dormir mais. Sua presença aqui... atrapalha meu descanso.

O pomo de adão de Nathan subiu e desceu, engolindo as palavras que pretendia dizer. Ele observou Susana fechar os olhos novamente, rejeitando qualquer interação. Derrotado, levantou-se em silêncio e caminhou devagar até a porta, deixando o quarto mergulhado na quietude.

Susana abriu os olhos assim que ouviu o clique da fechadura. Fitou a janela, sentindo o coração calmo, congelado como um lago no inverno. Mas a solidão durou pouco.

Menos de vinte minutos depois, a porta foi empurrada com suavidade. Nathan estava de volta, trazendo consigo uma marmita térmica. Ao abrir a tampa, o vapor subiu, espalhando um aroma suave e reconfortante pelo quarto.

— Pedi para a Vera preparar esta comida especial para você. Ela sabe exatamente o que é nutritivo e fácil de digerir. — Disse ele, aproximando-se da cama. Nathan pegou uma colherada, soprou com cuidado para esfriar e a levou até os lábios de Susana. — Coma pelo menos um pouco. Você precisa de energia para que a ferida cicatrize rápido.

Susana sentia o estômago vazio e, mecanicamente, abriu a boca, aceitando o alimento sem protestar. A cena tinha um ar de intimidade doméstica, quase terna, até que a porta do quarto foi aberta bruscamente.

Bianca estava parada na entrada, segurando um enorme buquê de rosas cor de champanhe. O sorriso radiante que ela trazia morreu instantaneamente ao ver Nathan alimentando a esposa. O choque foi tão visível que as lágrimas brotaram em seus olhos sem aviso prévio.

O buquê escorregou de suas mãos trêmulas, batendo no chão com um baque surdo, espalhando pétalas pelo piso frio. O ruído assustou o casal. A mão de Nathan, que segurava a colher, travou no ar por uma fração de segundo.

Percebendo o clima, Bianca limpou as lágrimas com as costas das mãos num gesto infantil e forçou um sorriso doloroso.

— Susana... eu trouxe flores, espero que melhore logo. — Gaguejou ela, abaixando-se apressada para recolher o buquê despedaçado. Caminhou trôpega até o móvel, enfiou as flores de qualquer jeito num vaso e saiu correndo do quarto, como se fugisse de um incêndio.

O silêncio retornou, mas a atmosfera havia mudado drasticamente. Nathan tentou retomar o movimento, levando a colher novamente à boca de Susana, mas seu pulso já não tinha a firmeza de antes. A colher de porcelana oscilou, e o caldo morno escorreu pelo queixo de Susana, traçando uma linha úmida e incômoda.

Ele pareceu despertar de um transe, pousando a tigela no criado-mudo com um barulho seco e nervoso, como se o objeto queimasse suas mãos.

— Me desculpe. — Murmurou ele, com o cenho franzido em aflição. — A Bianca... ela não parecia bem emocionalmente. Preciso ver o que houve.

Susana não respondeu. Apenas observou as costas de Nathan desaparecerem pela porta, apressadas.

Sozinha, ela terminou de tomar o caldo, que já esfriara, engolindo cada colherada com uma calma metódica. Precisava de ar. Levantou-se com dificuldade e caminhou até a saída de emergência no final do corredor. A porta estava entreaberta, e vozes familiares escapavam pela fresta.

— Fui eu quem recusou o casamento no passado, a culpa é toda minha. — Soluçava Bianca. — A Susana é a mulher que você deve proteger. Vá cuidar dela, Nathan, por favor...

Houve um suspiro profundo de Nathan antes de ele responder:

— Bianca, pare com esse ciúme sem sentido. A Susana se machucou porque eu estava protegendo você. Estou cuidando dela agora justamente por sua causa, para compensar o que aconteceu no seu jantar.

Susana paralisou no corredor. O coração afundou no peito com um peso chumbo. Uma onda de absurdo e desespero gelado a envolveu, fazendo suas pernas tremerem. Então, todo aquele cuidado, o caldo, a preocupação não eram por ela. Era apenas uma extensão da culpa e do amor que ele sentia por Bianca.

Incapaz de ouvir mais uma palavra, ela deu meia-volta e retornou ao quarto, arrastando-se como uma sombra.

Mal havia se deitado quando uma enfermeira irrompeu no quarto, a expressão alarmada e a respiração ofegante.

— Senhora, aconteceu algo terrível! É a sua família!
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