LOGINPouco tempo depois de o homem sair, uma agitação repentina tomou conta do lado de fora, como se algo grave e caótico tivesse acontecido.Algumas enfermeiras entraram às pressas e, sem me dar qualquer explicação, me ajudaram a sentar em uma cadeira de rodas.— Para onde vocês vão me levar?— O Sr. Aureliano não vai resistir... Ele quer vê-la uma última vez, Sra. Vasconcelos. Por favor, vá até ele.— Como isso é possível? — Instintivamente, achei que elas estavam mentindo. Ele estava perfeitamente bem até há pouco... Como poderia já estar à beira da morte?As enfermeiras falaram apressadamente, tentando me explicar:— A Isabela acabou de falecer. A mãe dela perdeu o controle, parecia enlouquecida... Pegou uma faca de frutas e esfaqueou o Sr. Aureliano várias vezes.Na sala de emergência, Aureliano jazia deitado, coberto de sangue. Do baixo-ventre, o sangue jorrava sem cessar, como se fosse impossível contê-lo.Assim que entrei, ele fixou o olhar em mim e estendeu a mão ensanguentada.Fiq
Presa ao lado de Aureliano, eu já não via mais sentido em continuar vivendo, nem sequer queria acordar.A inconsciência se tornou a forma mais eficaz de resistir ao cativeiro que ele me impunha.Minha consciência vagava, como se flutuasse no ar, observando, dia após dia, sua impotência diante do meu corpo.Seu semblante se tornava cada vez mais abatido e tenso; ele só conseguia descarregar sua frustração nos médicos, perguntando repetidamente quando poderiam realizar o transplante em mim.— Precisamos esperar que alguns indicadores importantes da paciente melhorem. Fazer a cirurgia agora é muito arriscado; ela pode não sobreviver à mesa de operação.Aureliano explodia em fúria mais uma vez, proibindo qualquer menção a palavras de mau agouro relacionadas à morte.Como se, ao me manter em silêncio, eu pudesse evitar a morte.Isabela, ao lado, ouvia aquilo com evidente satisfação.— Então é melhor deixá-la se recuperar por mais alguns dias. Se os indicadores dela estiverem ruins, isso pod
Do lado de fora da tela, eu assistia àquela farsa com um prazer quase cruel.Gustavo me ligou. Sua voz soava estranhamente fraca.— Ainda precisa que eu faça mais alguma coisa? Posso incluir no pacote do divórcio, não vou cobrar nada a mais.Pensei com cuidado no que ainda estava pendente.— Depois que eu morrer, por favor, espalhe minhas cinzas no mar. Não deixe que o Aureliano me prenda... Não quero ser enterrada no cemitério da família Vasconcelos.Do outro lado, houve alguns segundos de silêncio atônito. Em seguida, ele falou em voz baixa:— Isso eu não posso garantir... Pode ser que eu morra antes de você.— Por quê? — Aquilo soava estranho demais. "Como ele poderia morrer antes de mim?"— Problema no coração. Cada dia a mais já é um lucro. — O tom dele era displicente, como o de alguém que não temia mais nada.Suspirei.— Então trate de viver mais alguns dias. Quando eu não aguentar mais, vou doar meu coração para você.Era a única parte do meu corpo que ainda funcionava bem. Ac
Aureliano parecia não dar a menor importância às minhas palavras frias.Ele tomou minha mão, tirou um anel do bolso e o encaixou com firmeza no meu dedo anelar, dizendo em tom suave:— Tola... Se estivesse precisando de dinheiro, por que não veio me procurar? Da próxima vez, não venda algo tão importante, está bem?Segurando a raiva no peito, me forcei a sentar na cama. Nem me importei com a agulha ainda cravada na outra mão. Arranquei o anel que ele havia colocado à força e o arremessei com violência para longe.— Aureliano, eu quero me divorciar de você. Quero me divorciar, você não entende?O sangue já começava a refluir pela agulha presa no dorso da minha mão. Na verdade, havia muito tempo que eu estava acostumada com esse tipo de dor. Durante anos, vivi carregando um corpo inteiro ferido.Até que esse homem me deu o golpe final.Doía tanto... A ponto de eu começar a desejar a morte.Arranquei de vez a agulha da minha mão e encarei o homem à minha frente com frieza, perguntando, nu
Meio mês depois, em uma tarde tranquila, eu já havia me instalado em uma pequena cidade litorânea.Vendi minha aliança de casamento e, em troca, consegui uma quantia considerável. Desde então, passava os dias cercada por boa comida e belas paisagens.Às vezes, sentia uma leve dor em algumas partes do corpo. Eu não sabia quanto tempo ainda me restava, então vivia cada dia como se fosse o último.Deitada em uma espreguiçadeira, ouvindo o som das ondas quebrando, percebi que, em meus vinte e sete anos de vida, nunca havia me sentido tão livre e em paz.Uma figura se aproximava pela praia. Era meu advogado de divórcio, Gustavo Andrade.Diziam que, no meio jurídico, desde que o pagamento fosse alto o suficiente, ele aceitava qualquer caso, e, de fato, só alguém como ele teria coragem de assumir o meu divórcio.Ele tinha um ar despreocupado, quase libertino. Seus traços eram mais delicados do que os de muitas mulheres, e a camisa estava sempre com os dois primeiros botões abertos, transmitin
Minha mãe já havia preparado uma mesa inteira com os pratos favoritos de Isabela para comemorar a gravidez dela.Isabela cobriu o nariz, dizendo que não estava com apetite, e Aureliano sugeriu mandar a babá que cuidava de mim para a casa dela, para cozinhar para ela.Isabela curvou levemente os lábios, apontou para mim e disse:— Melhor não, não é? Olhe para a Juliana, parece que ela não está feliz. Eu não quero que vocês entrem em conflito por minha causa.Minha mãe imediatamente franziu o cenho e me repreendeu:— Você nem está grávida. Por que não consegue cuidar de si mesma? Desde criança, você sempre foi egoísta. Basta pedirem que faça qualquer coisa, e você já começa a reclamar como se estivesse sofrendo.Minha mãe me deu à luz apenas para retirar o sangue do cordão umbilical e tratar a doença da minha irmã. Aos olhos dela, eu nunca passei de uma ferramenta para curar minha irmã, sem o menor direito de desobedecer.Eu não quis discutir. Larguei os talheres e fui até o pequeno quar







