로그인POV: Bianca Bellini
Meu pai sempre dizia que o silêncio era a arma mais elegante de uma mulher criada entre homens perigosos. Eu aprendi essa lição cedo. Aprendi a sorrir quando, por dentro, queria chorar; a baixar os olhos quando a minha vontade era desafiar; e a ouvir ameaças disfarçadas de brindes durante jantares luxuosos. Entendi, desde muito jovem, que em famílias como a minha, as meninas não nasciam apenas filhas. Nasciam alianças, promessas, moedas de troca vestidas de seda. Naquela noite, enquanto caminhava pelo corredor da Villa Bellini em direção à biblioteca, cada passo parecia me afastar de mim mesma e me aproximar de uma vida que não me pertencia.
Eu sabia exatamente quem estava me esperando atrás daquela porta de madeira maciça: Lorenzo De Luca. O jovem Don. O herdeiro de uma família outrora rival e o homem com quem eu deveria me casar. O homem que, acima de tudo, amava outra mulher. Essa última parte todos no nosso meio fingiam não saber, mas o mundo da máfia era feito de segredos mal escondidos. Bastava observar os cochichos nos bailes, os olhares demorados e os nomes pronunciados com excesso de cuidado. Sofia Moretti. O primeiro amor dele. A mulher que já ocupava o espaço que eu jamais deveria ousar tentar tomar. Quando meu pai me contou que o contrato seria cumprido, eu não chorei, pelo menos não na frente dele. Apenas perguntei quando aconteceria, e ele respondeu de forma lacônica: "Em breve". Como se a minha vida pudesse ser rearranjada com duas palavras. Como se o meu futuro coubesse dentro de uma pasta de couro antiga.
Parei diante da porta da biblioteca e respirei fundo. Minha mão estava gelada, mas, ainda assim, empurrei a porta e entrei. Lorenzo estava de pé ao lado da mesa. A primeira coisa que percebi foi que ele parecia maior do que eu me lembrava. Não apenas fisicamente, embora fosse alto, com ombros largos e uma postura rígida demais para alguém tão jovem, mas havia nele um peso invisível. Uma espécie de autoridade fria que parecia ocupar todo o ambiente antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. Cabelos negros, olhos azul-gelo, terno preto impecável e uma expressão completamente fechada. Ele era bonito, assustadoramente bonito, mas não havia calor algum naquela beleza. Era como olhar para o fio de uma lâmina polida.
Meu pai nos deixou sozinhos, e o silêncio que se seguiu pareceu ser cuidadosamente posicionado entre nós. Fui a primeira a falar, tentando quebrar a tensão:
— Imagino que nenhum de nós desejava que nosso primeiro reencontro acontecesse dessa forma. Ele soltou uma risada seca, totalmente sem alegria. — Não. Pelo menos Lorenzo era honesto. A honestidade, naquele mundo, era rara o suficiente para merecer o meu respeito. Foi então que ele disparou: — Existe alguém que eu amo.Eu já sabia, mas ouvir aquilo diretamente da boca dele fez algo apertar dentro do meu peito. Não era ciúme; como sentir ciúme de algo que nunca foi meu? Era apenas a confirmação brutal de que eu estava prestes a entrar em um casamento onde o meu lugar já nascia vazio.
Assenti, mantendo a voz firme. — Eu ouvi alguns rumores. Ele me encarou fixamente, como se estivesse esperando uma reação mais intensa da minha parte. Talvez lágrimas, súplicas ou uma onda de indignação. No entanto, eu não lhe daria o gosto de nenhuma delas. Minha dignidade era uma das poucas coisas que aquele contrato de casamento ainda não havia me tirado.— Então você sabe que nunca poderei lhe oferecer o que uma esposa merece — ele continuou.
A frase deveria ter me ofendido, mas não surtiu esse efeito. Na verdade, foi quase um alívio saber que ele não tentaria fingir. Homens como Lorenzo eram perigosos, mas homens falsamente gentis eram ainda piores. Baixei os olhos por um segundo para buscar controle e voltei a encará-lo. — Não espero amor, Lorenzo. Espero apenas respeito. Ele ficou em silêncio. Por um breve instante, achei ter visto algo mudar em seu olhar, não uma suavidade, mas talvez culpa ou desconforto. Mas a expressão sumiu rápido, rápido demais.A porta se abriu novamente e meu pai retornou, acompanhado por Matteo, o consigliere dos De Luca. Os dois homens carregavam a formalidade rígida de quem já havia decidido todo o nosso destino antes mesmo de nos ouvir. Sentei-me à mesa e Lorenzo ocupou a cadeira à minha frente. Entre nós, repousava o contrato: páginas envelhecidas, assinaturas antigas e cláusulas terrivelmente frias. Li cada linha, embora já conhecesse o conteúdo de cor: união entre as famílias, prazo para a celebração, preservação de bens, aliança política, compromisso de não agressão e herdeiros reconhecidos por ambas as linhagens. A palavra herdeiros fez meus dedos apertarem a borda do papel. Não por medo de ter filhos, mas por entender que, para eles, até as crianças que eu ainda nem tinha já pertenciam àquele tabuleiro de xadrez. Meu pai percebeu o meu gesto e seu olhar pousou em mim por um instante. Havia dor ali. Ele me amava, eu nunca duvidei disso, mas homens como meu pai amavam dentro dos limites do poder. E, naquela noite, o poder falava muito mais alto que o amor.
— Bianca — ele disse, com a voz baixa e ponderada —, você entende perfeitamente o que está aceitando?
Achei aquela pergunta de uma crueldade sem tamanho, como se eu realmente tivesse alguma escolha. Mesmo assim, ergui o queixo e respondi: — Entendo. Lorenzo olhou para mim. Não havia admiração ou ternura em seus olhos, apenas uma curiosidade fria, como se tentasse decifrar por que eu não estava desmoronando ali mesmo. Talvez ele não soubesse que mulheres como eu aprendiam desde o berço a sangrar por dentro, sem deixar cair uma única gota no chão. Peguei a caneta e assinei. Minha caligrafia saiu firme: Bianca Bellini. Pelo menos por enquanto. Lorenzo assinou logo em seguida, sem hesitação e sem qualquer traço de emoção. Quando ele terminou, senti algo dentro de mim se fechar trancado à chave, não o meu coração, mas a porta de uma vida normal que eu jamais viveria.Matteo recolheu os documentos enquanto meu pai servia conhaque para os homens. Ninguém ofereceu a mim, e eu não me importei. Levantei-me da cadeira com elegância.
— Com licença. Meu pai franziu levemente a testa, surpreso. — Bianca. — Preciso de um pouco de ar.Não esperei por autorização. Saí da biblioteca mantendo a postura perfeitamente ereta até alcançar o jardim interno da propriedade. Só ali, longe dos olhos vigilantes deles, permiti que o ar escapasse trêmulo dos meus pulmões. A chuva havia diminuído, deixando no ambiente aquele cheiro característico de terra molhada. Caminhei até a fonte de mármore no centro do jardim e, isolada, fechei os olhos. Eu estava oficialmente noiva. Não por amor, não por escolha, mas por causa de uma guerra que havia começado muito antes do meu nascimento.
Ouvi passos firmes ecoando atrás de mim. Não precisei me virar para saber quem se aproximava; a presença de Lorenzo tinha peso demais para passar despercebida.
— Você saiu rápido — ele pontuou. Abri os olhos, encarando as estátuas. — Achei que a minha parte no protocolo já tivesse terminado. — Ainda não conversamos sobre os termos entre nós.Virei-me lentamente para encará-lo. Lorenzo estava a poucos metros de distância, com uma das mãos guardada no bolso do paletó e a outra segurando o celular. Ele parecia impaciente, como se aquele casamento fosse apenas mais uma reunião chata em sua agenda de negócios.
— Termos? — perguntei, cruzando os braços. — Este casamento será extremamente público. Nós precisamos manter as aparências diante da sociedade e das outras famílias. — Aparências... — repeti, saboreando o amargor da palavra. — Você terá segurança total, acesso à mansão principal, funcionários à disposição, cartões e tudo o que for necessário.Olhei fixamente para ele por alguns segundos, deixando o silêncio se estender.
— Está me oferecendo uma prisão confortável, Lorenzo? O maxilar dele endureceu imediatamente com a minha ousadia. — Estou apenas sendo prático. — Não duvido da sua praticidade.Ele desviou o olhar por um breve instante, visivelmente desconfortável, como se eu tivesse dito algo altamente inconveniente.
— Eu não vou interferir na sua vida mais do que o estritamente necessário — ele continuou, retomando o tom corporativo. — E espero o mesmo de você. Ali estava, enfim. A verdadeira cláusula invisível do nosso matrimônio: não se aproxime, não espere nada, não faça perguntas e não me ame. Assenti com a cabeça. — Entendido.Lorenzo pareceu genuinamente surpreso com a minha facilidade em aceitar suas regras.
— Só tenho uma única condição — acrescentei, antes que ele desse o assunto por encerrado. Seus olhos azuis voltaram a cravar nos meus. — Qual seria? — Não me humilhe em público.Um silêncio pesado caiu entre nós dois, quebrado apenas pelo som da água que escorria pelas folhas do jardim. Lorenzo me encarou demoradamente, como se aquela frase simples tivesse sido muito mais profunda e cortante do que ele antecipava.
— Não tenho esse hábito — ele respondeu, por fim. Quase sorri. Não por alegria, mas por pura melancolia. — Homens poderosos muitas vezes não percebem quando ferem alguém. Vocês estão acostumados demais a serem perdoados por tudo.Pela primeira vez naquela noite, ele pareceu perder as palavras e não respondeu de imediato. Foi então que o celular em sua mão vibrou fortemente. O nome na tela acendeu intensamente antes mesmo que ele pudesse virar o aparelho para esconder: Sofia. Eu vi. E ele percebeu instantaneamente que eu tinha visto. Por um segundo infinito, nenhum de nós se moveu ou desviou o olhar. Então, quebrando a tensão, Lorenzo atendeu a ligação.
— Agora não — disse ele.
A voz dele mudou drasticamente. Não chegou a ficar doce, mas perdeu completamente aquela frieza cortante que ele havia usado comigo durante toda a noite. Meu peito doeu. E não foi porque eu o amava. Pelo menos, ainda não.Mas porque compreendi, naquele exato momento, que eu passaria o resto da vida observando um homem oferecer a outra mulher o pouco calor que ele sempre negaria a mim. Lorenzo desligou o telefone rapidamente, quebrando o silêncio desconfortável que havia se instalado entre nós.
— Bianca... — ele começou, dando um passo em minha direção.
Ergui a mão, interrompendo-o antes que pudesse formular uma desculpa. — Não precisa explicar. — Não era a minha intenção... — Eu disse que não precisa — repeti, cortando sua fala.Minha voz saiu calma, calma demais para a tempestade silenciosa que começava a se formar dentro de mim. Ele me encarou por mais um instante e guardou o aparelho no bolso do paletó.
— O casamento será em três semanas — Lorenzo anunciou, retomando a sua postura fria e corporativa.Três semanas. Vinte e um dias para deixar de ser apenas Bianca Bellini. Vinte e um dias para me tornar a esposa de um homem que atendeu o telefone da amante no meio da nossa primeira conversa significativa. Engoli o amargor que subiu pela garganta e assenti.
— Estarei pronta.Lorenzo estudou o meu rosto por alguns segundos, em silêncio. Talvez ele estivesse procurando rachaduras na minha armadura, ou talvez quisesse apenas confirmar se eu era tão obediente e submissa quanto aparentava. Mas ele não encontraria as minhas fraquezas ali expostas. A partir daquele momento, eu aprenderia a escondê-las ainda melhor.
— Boa noite, Bianca.
— Boa noite, Lorenzo.Ele deu as costas e se afastou. Dessa vez, fui eu quem ficou para trás, observando enquanto sua silhueta imponente voltava para dentro da villa. Alto, frio e irremediavelmente distante: esse era o meu futuro marido.
Quando finalmente fiquei sozinha no jardim, levei a mão ao peito e senti o meu coração bater de forma frenética contra as costelas. Não era por amor e muito menos por desejo. Era puro instinto de sobrevivência. Alguma parte de mim, lá no fundo, sabia perfeitamente que aquele homem não seria apenas o meu marido. Ele seria a minha ruína. E talvez, se o destino jogasse as cartas certas, um dia eu fosse a dele também.
POV: Lorenzo De LucaVittorio já estava na sala quando entrei. Não precisava de uma apresentação para entender o que eu havia trazido. Ele acompanhava aquela investigação desde o início, muito antes de os arquivos recuperados dos Balestri começarem a revelar a extensão da infiltração de Marcello Ruggieri. Nossos homens trabalhavam lado a lado havia meses, compartilhando relatórios, imagens e informações que, em outra época, nenhuma das famílias teria confiado à outra.Coloquei a pasta sobre a mesa.— Matteo terminou a integração dos documentos — anunciei.Vittorio puxou a cadeira, mas não abriu a pasta imediatamente.— Incluiu o depoimento completo de Leone?— Sim. Com as declarações separadas dos registros que conseguimos confirmar.Ele assentiu.— Então vamos ver o que realmente mudou.Sentei diante dele. Era exatamente por isso que preferia tratar daquele assunto pessoalmente. Vittorio não precisava que eu repetisse tudo o que já sabíamos. Precisávamos determinar o que as últimas r
Matteo abriu o documento relacionado à Lombardia Distribuzione S.r.l.— A sequência que conseguimos reconstruir passa pelo acervo Balestri, por uma propriedade rural e pela Lombardia Distribuzione. Depois aparecem Gabriele Marchetti e o terminal privado ligado a empresas registradas em Malta, além das referências a Adrian Keller. Esses registros são compatíveis com a existência de uma estrutura usada para encaminhar materiais e informações para fora dos canais habituais.— E a declaração de Leone confirma a existência da traição e a atuação de Marcello dentro dessa estrutura — acrescentei. — Mas não prova que todos os nomes encontrados nos registros participaram da mesma operação.— Exatamente — respondeu Matteo.Passei os olhos pelas páginas seguintes. A transferência continuava incompleta. Parte dos registros havia sido recuperada, mas o volume AURORA que faltava não estava entre os materiais localizados.— Alguma mudança na busca pelo original?— Nenhuma confirmação nova — informou
POV: Lorenzo De LucaA versão do dossiê estava aberta sobre a minha mesa, mas eu ainda não conseguia aprová-la.Matteo havia organizado os registros relacionados aos arquivos AURORA, às movimentações empresariais e à declaração de Leone Balestri. O material estava mais claro do que no dia anterior. Ainda assim, faltava uma parte essencial para que qualquer pessoa de fora da investigação compreendesse a dimensão do que estávamos apurando.A traição não começou com os documentos desaparecidos.Começaram muito antes, quando alguém decidiu que minha esposa, Bianca precisava ser afastada de mim antes que nosso casamento pudesse unir as duas famílias.Peguei o celular e pedi que Matteo e Alessandro voltassem à sala.Os dois chegaram poucos minutos depois. Alessandro fechou a porta, enquanto Matteo se acomodou diante de mim com o tablet nas mãos.— Li o relatório inteiro — comecei. — A parte dos arquivos AURORA está organizada, mas não podemos apresentar a declaração de Leone como se ela dis
Alessandro recolheu algumas páginas e começou a organizá-las em ordem cronológica. Pela primeira vez naquela manhã, a reunião parecia ter encontrado seu objetivo. Não tínhamos recuperado os arquivos que faltavam, nem identificado todos os responsáveis pela rede externa. Ainda assim, já não estávamos diante de fragmentos sem ligação entre si.A declaração de Leone oferecia uma peça importante. Os registros AURORA acrescentavam outra. A cadeia de movimentação mostrava que a traição não se limitou à coleta de informações dentro da nossa organização, mas também a impedir o meu casamento com Bianca, e com isso, fazer as duas famílias se destruírem.Havia material suficiente para preparar a próxima etapa, desde que o trabalho fosse feito com cuidado.— Quero uma versão consolidada até amanhã — falei. — Não precisamos terminar toda a investigação externa para começar a responsabilizar quem já temos condições de enfrentar. Mas também não vamos expor nossas conclusões antes de estarmos prepara
POV: Lorenzo De LucaO relatório de Matteo estava sobre a minha mesa quando entrei no escritório naquela manhã.Eu o havia solicitado depois das informações recebidas no dia anterior, mas, ao ver a quantidade de documentos reunidos, percebi que a conversa seria mais longa do que o previsto. Havia cópias de registros empresariais, movimentações financeiras, referências a autorizações administrativas e algumas páginas extraídas do material relacionado ao arquivo AURORA.Alessandro já estava sentado diante da mesa. Matteo permanecia de pé, com uma pasta mais fina nas mãos.— Espero que vocês tenham alguma coisa concreta para me apresentar — falei, tirando o paletó.— Temos — respondeu Matteo. — Mas ainda precisamos separar o que a declaração de Leone confirma do que os documentos conseguem demonstrar.Sentei-me e abri o relatório.— Então comecem pela declaração.Matteo colocou uma cópia diante de mim. Eu já conhecia boa parte do depoimento de Leone Balestri, mas queria entender como as
POV: Bianca BelliniLorenzo estava tentando preparar o próprio café quando entrei na cozinha.Tentei não rir ao vê-lo encarar a cafeteira com a mesma expressão que costumava reservar para homens que chegavam atrasados às reuniões. A diferença era que, dessa vez, o adversário era uma máquina que provavelmente funcionava melhor do que metade dos funcionários da organização.— Está tudo bem? — perguntei.Ele olhou por cima do ombro.— Por que não estaria?— Você está encarando o café há quase um minuto.— Estou esperando.— O café ou uma confissão?Lorenzo soltou uma risada curta.— Bom dia para você também, Bianca.Aproximei-me, ficando ao lado dele. A cafeteira finalmente terminou o preparo, e ele pegou a xícara com a satisfação de quem havia vencido uma disputa importante.— Viu? — disse. — Paciência.— Impressionante. Vou avisar à Nonna que você desenvolveu uma virtude nova.— Não faça isso. Ela vai querer comemorar.Ri e me inclinei para beijá-lo. Lorenzo passou um braço pela minha







