LOGINO amanhecer ainda não havia chegado quando Kael percebeu que não conseguiria dormir.Isaac repousava nos braços de Elena, pequeno e tranquilo, como se o mundo ao redor não estivesse à beira de se transformar em um campo de batalha. Kael permanecia sentado junto à cama, observando os dois, mas seus pensamentos continuavam na fronteira.A cada ruído no corredor, ele erguia a cabeça.A cada minuto sem notícias, a inquietação crescia.Elena percebeu.— Você está aqui, mas sua cabeça está longe.Kael soltou o ar devagar.— Estou tentando entender o que a Ordem pretende.— E já descobriu?— Não.Ela ajeitou Isaac com cuidado antes de olhar para o marido.— Então talvez você precise aceitar que ainda não tem todas as respostas.Kael baixou os olhos para o filho.Era fácil dizer aquilo quando não se carregava a responsabilidade por uma alcateia inteira. Pelo menos, era o que ele teria pensado alguns meses antes.Agora, começava a entender que reconhecer os próprios limites não significava dei
O terceiro toque do sino ainda parecia ecoar dentro da cabeça de Kael.Ele olhou para a porta da enfermaria, depois para Isaac, adormecido contra seu peito. O filho mal havia chegado ao mundo, e a guerra já tentava arrancá-lo daquele instante.Elena se mexeu na cama.— Kael?Ele voltou imediatamente a atenção para ela.— Estou aqui.— O que foi esse sino?Kael hesitou por um instante. Não queria assustá-la, mas também não voltaria a esconder dela o que estava acontecendo.— A fronteira foi violada.O sorriso cansado desapareceu do rosto de Elena.— A Ordem?— Ainda não tenho todas as informações.— E você vai embora?A pergunta o atingiu com mais força do que qualquer ordem de batalha.Kael se aproximou da cama, tomando cuidado para não acordar Isaac. Sentou-se ao lado dela e segurou sua mão.— Não vou sair correndo por aquela porta sem saber o que está acontecendo. Victor está no comando, e confio nele.Elena procurou alguma hesitação em seus olhos.— Mas você é o Alfa.— E Victor é
O tempo parecia ter perdido o sentido.Elena já não sabia quantas vezes havia apertado a mão de Kael, nem quantas vezes ele havia sussurrado que tudo ficaria bem. Cada nova contração apagava qualquer pensamento que não fosse atravessar aquele momento.Kael, porém, continuava ali.Não havia conselheiros exigindo sua presença, ordens sendo gritadas à sua espera ou fronteiras que precisasse defender pessoalmente. Havia apenas Elena, o filho que estava prestes a nascer e a promessa silenciosa de que não repetiria os erros do passado.— Kael... — Elena chamou, apertando os dedos dele.— Estou aqui, meu amor.— Não me solta.Ele se inclinou e encostou a testa na dela.— Nem por um segundo.Liam orientava Elena com calma, atento a cada sinal de que o nascimento se aproximava. Selene permanecia por perto, tentando esconder a própria ansiedade. Evelyn também estava ali, com os olhos marejados e as mãos unidas em uma prece silenciosa.Kael olhou para todas aquelas pessoas e compreendeu algo que
A viagem até a enfermaria pareceu interminável.Kael não soltou a mão de Elena nem por um instante.Ela estava encostada nele, tentando controlar a respiração enquanto as contrações se tornavam cada vez mais intensas.— Kael...Ele virou o rosto imediatamente.— Estou aqui, meu amor.— Acho que não vou conseguir.A expressão dele mudou.Kael levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo que grudara em sua testa.— Você não precisa pensar em tudo agora. Só precisa passar por uma contração de cada vez. Eu vou estar aqui em todas elas.Elena tentou sorrir.— Você está falando como se soubesse o que está fazendo.— Não faço a menor ideia.Ela soltou uma risada fraca, interrompida por outra contração.Kael sentiu a dor atravessar o vínculo e apertou a mão dela.Por mais que quisesse assumir aquela dor para si, não podia.Tudo o que podia fazer era permanecer ao lado dela.E, dessa vez, permanecer era exatamente o que pretendia fazer.Quando chegaram, Liam já os aguardava.O cura
Kael não olhou para trás.Correu pelo corredor da antiga casa do Conselho, seguido por Victor.A voz daquele homem ainda ecoava em sua cabeça.“Se sair daqui agora, talvez nunca descubra quem estava naquele caixão.”Durante anos, aquela pergunta havia perseguido Kael.Quem estava enterrado ali?Seu pai?Um desconhecido?Alguém colocado naquele caixão apenas para sustentar uma mentira?Ele queria respostas.Precisava delas.Mas, naquele momento, havia algo mais importante.Elena.Seu vínculo ainda queimava dentro do peito.Não era apenas preocupação.Era medo.Um medo que não vinha dele.Vinha dela.— Ela está com dor — Kael disse enquanto descia as escadas.Victor o acompanhava.— Você tem certeza?— Sinto.Kael abriu a porta da casa.— E está piorando.Os dois correram até o veículo.Antes de entrar, Victor olhou para trás.A antiga casa permanecia silenciosa.Nenhuma janela se abriu.Nenhum movimento apareceu.O homem simplesmente havia desaparecido.Victor apertou a mandíbula.— Nã
Elena permaneceu imóvel por alguns segundos. A mão ainda estava apertada contra a barriga. A pressão havia passado. Mas não completamente. Havia alguma coisa diferente. Alguma coisa que ela não conseguia explicar. Selene se aproximou devagar. — Elena? Ela respirou fundo. — Acho que começou. Selene arregalou os olhos. — O trabalho de parto? Elena assentiu lentamente. — Acho que sim. Por um instante, nenhuma das duas disse nada. Selene olhou para a porta. Kael tinha acabado de sair. E estava longe. Muito longe. — Precisamos chamar alguém — Selene disse. Elena tentou se levantar. Assim que ficou de pé, outra pressão atravessou seu corpo. Dessa vez, muito mais forte. Ela segurou o braço de Selene. — Espera... Selene imediatamente a apoiou. — Respira. Elena fechou os olhos. Inspirou devagar. Soltou o ar. Quando a dor diminuiu, abriu os olhos novamente. — Agora eu tenho certeza. Selene engoliu em seco. — Isaac está vindo. Elena levou a mão à barriga. Um so







