LOGIN
— Se alguém tiver alguma objeção a este casamento, fale agora ou cale-se para sempre — ouvi o padre dizer.
Era isso, o momento havia chegado. Era o meu momento.
Eu esperava para arruinar esse casamento desde que descobri que meu namorado não era... bem, não era exatamente meu namorado. Ou, pelo menos, não apenas meu namorado.
Meu namorado tinha uma noiva.
Uma noiva linda, de boa família — alguém que antecipava todos os desejos dele e que provavelmente passara os últimos meses escolhendo flores, provando vestidos e decidindo entre guardanapos cor de marfim ou branco-pérola, tudo isso enquanto eu dormia com o futuro marido dela, sem a menor ideia de que eu era a amante dele.
Aliás, você conhece aquela música sobre a Amélia, a “mulher de verdade”? Pois é exatamente isso que me vem à cabeça sempre que penso naquela noiva.
E não me leve a mal, eu não queria criar rivalidade entre mulheres. Eu não a culpava. Depois do choque inicial, na verdade, senti até um pouco de pena dela. Nós duas tínhamos sido enganadas pelo mesmo canalha. A única diferença é que uma de nós descobriu a tempo de evitar se casar com ele.
E eu queria garantir que a outra também tivesse essa chance.
O único problema é que eu estava bem bêbada naquela hora. E gente bêbada faz besteira.
Não besteiras do tipo invadir o casamento de um ex e gritar objeções quando o padre pergunta, é claro, mas sim algo mais no estilo de mandar uma mensagem de texto da qual certamente se arrependeria no dia seguinte.
Mas eu estava bêbada, parada diante das portas da capela do Hotel Milani e, naquele momento, estava muito inclinada a elevar significativamente a média das minhas loucuras movidas a álcool. Respirei fundo, segurei a maçaneta e empurrei a porta.
— Eu tenho!
Tudo bem. Eu só não esperava já entrar tropeçando direto no tapete vermelho.
Mas, além de estar bêbada, eu também tinha esquecido minhas lentes de contato. Eu as tinha deixado na pia do banheiro de casa, depois de passar a maior parte da manhã chorando e o resto procurando maneiras de arruinar a vida de um homem sem ser presa (e acredite em mim: as pessoas na internet podem ser bem criativas!). Sem elas, eu enxergava o suficiente para andar por aí sem esbarrar em postes, mas, pelo visto, não o bastante para notar uma pequena ondulação no carpete, bem na entrada da capela.
Meu salto enganchou, fui projetada para a frente e precisei esticar os braços para não cair de cara no chão e dar início à minha grande vingança do jeito mais humilhante possível.
Ajeitei o vestido e ergui a cabeça com toda a dignidade que uma mulher bêbada e traída — que acabara de quase ir parar de quatro no meio de uma capela — conseguia reunir. Não era muita coisa, tenho que admitir.
Apertei os olhos para ver melhor o altar. Consegui distinguir o padre, um mar de flores brancas, a noiva e, ao lado dela, um homem alto de terno escuro.
Aquele canalha!
— Senhoras e senhores... — Limpei a garganta como se estivesse diante de uma plateia de circo, e não no meio de uma capela. Bem, em minha defesa eu estava prestes a apresentar uma aberração para aqueles que provavelmente o achavam perfeito. — Este homem é um traidor! Ele estava construindo uma vida comigo, enquanto ela provavelmente estava organizando um casamento e escolhendo entre brigadeiros e... ou... brigadeiros! Porque, vamos ser sinceros, quem não quer brigadeiros no casamento? Mas, enfim...
Tentei voltar ao assunto principal quando percebi que estava divagando. Não era o momento certo para falar de doces, embora eu tivesse uma opinião bem forte sobre o assunto.
— Traidor! Babaca! Filho da puta! Você prometeu que ficaria comigo para sempre! Disse que não íamos nos casar ainda porque você tinha outros planos... — Soltei uma risada amarga. — Mas o plano era se casar com outra, não é?
Todos pareciam tão chocados com a situação que ninguém disse uma palavra. Estavam paralisados e, sinceramente, eu queria poder ver os rostos deles em vez de apenas vultos borrados que mal conseguia distinguir. Mas, pelo visto, eles estavam se divertindo muito. Afinal, todo mundo adora um bom escândalo, desde que seja sobre a vida de outra pessoa.
Então, continuei e dei alguns passos em direção ao altar.
— Você me fez abrir mão de um emprego em outro estado por sua causa! Só para ficar aqui com você!
Tudo bem, eu tinha sido bem estúpida nessa. Eu admito. Mas cresci assistindo a Friends, e a Rachel Green abriu um precedente.
— Você sumia nos finais de semana e dizia que estava trabalhando, mas era para ficar com ela, não era? NÃO ERA? — Dei mais um passo. — Fala alguma coisa! Se defenda!
— Não tem defesa...
Ouvir a voz vinda do altar.
Por um instante, alguma coisa me pareceu estranha. A voz estava diferente. Não era muito diferente. Só... diferente.
Mas, se a bebida já estava interferindo na minha visão, não via porque não poderia estar interferindo na minha audição também. Além disso, aquele não era o momento de questionar o timbre de voz do homem. Eu finalmente consegui fazer com que ele assumisse na frente de todo o mundo que era uma canalha.
Avancei mais um pouco em direção ao altar. Ninguém tentou me impedir, continuavam todos imóveis, acompanhando a cena com uma atenção que eu sinceramente esperava que nunca tivessem dedicado a uma série da N*****x.
— Sabe o que ele me dizia? — Dessa vez, eu viro para a noiva.
Ela era uma mancha branca ao lado dele. Uma mancha branca muito bem-vestida, pelo que eu consegui perceber.
— Que ele amava a pinta que eu tenho na bunda. Que era sexy. Que ele não conseguiria viver sem ela.
Um burburinho começou entre os convidados. Ótimo. Agora estavam participando.
— Aposto que diz uma dessas besteiras para você também. Mas não acredita, tá? — Aviso, apontando na direção dela. Ou pelo menos espero estar apontando. — Não acredita em uma só palavra que saia dessa boca. Quer saber por quê? Eu te digo por quê...
Avancei um pouco mais, fazendo um cálculo dramático.
— Porque esse filho da puta disse que queria ter um filho comigo. E agora... Agora eu estou grávida e ele está se casando com outra.
Finalmente houve um “oooh” coletivo vindo dos convidados.
Era esperado, gravidez sempre mexia com as pessoas. E eu queria o drama mesmo, então continuei.
Dei os últimos passos que me separaram do altar, estiquei a mão, agarrei a gravata dele e o puxei na minha direção. Só então percebi que ele era um pouco mais alto do que eu me lembrava. Ou talvez eu tenha ficado mais baixa por causa do álcool. Não sei se o álcool diminuiu alguém, mas naquele ponto eu também não descartei essa possibilidade.
Aproximei o rosto do dele e disse bem baixinho, para que só ele pudesse ouvir:
— É isso mesmo, Beto. Eu estou grávida de um filho seu.
Ele me olhou por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se eu era louca, perigosa ou apenas muito burra. Então, franziu a testa.
— Quem raios é Beto?
Eu queria dizer “você”. Juro que queria. A palavra chegou até a ponta da minha língua, mas acontece que, agora que eu estava perto, realmente perto, e se forçasse bastante a vista...
Bom...
Parecia o Beto.
Quer dizer, era moreno. Alto. Forte. Terno escuro.
Homem.
Definitivamente homem.
Só que Beto não tinha olhos azuis, tinha?
Soltei a gravata devagar.
Pisquei algumas vezes, como se isso tivesse alguma chance de melhorar uma miopia que eu tratava com lentes de contato havia anos e uma bebedeira que eu tratava com mais bebida por cima há horas.
Não melhorou.
Inclinei o corpo um pouco para a frente e apertei os olhos.
Não.
Não, não, não.
Aquele nariz também não era do Beto.
E o maxilar...
Meu Deus!
— Quem é Beto? — ele repetiu, agora um pouco mais devagar.
Olhei para a noiva. Depois para o padre. Depois novamente para o homem cuja gravata eu ainda segurava entre os dedos.
Ah, céus. O que eu fiz?
Larguei a gravata como se ela tivesse começado a pegar fogo.
— Er...
Minha mente procurou desesperadamente por alguma explicação que pudesse transformar os últimos cinco minutos em algo minimamente aceitável e não encontrou.
Então dei dois tapinhas no peito dele, alisando a gravata que eu tinha acabado de amarrotar.
— Capela errada. Foi mal.
Fiz um pequeno gesto com a mão na direção do padre.
— Continua aí.
Dei meia volta e saí praticamente correndo.
— Beija! Beija! Beija!O coro ganhou força por alguns segundos.Benício se afastou do microfone por um instante, esperando o barulho diminuir.— A propósito — retomou, ignorando completamente os pedidos —, meu agradecimento mais do que especial vai para Chiara, minha futura esposa e mãe dos meus filhos. A mulher que me inspira todos os dias.Meu coração tropeçou.Benício estendeu a mão para trás, na minha direção.Olhei para ela.Depois para ele.O que exatamente eu deveria fazer?Como ninguém parecia disposto a me entregar um manual de instruções para futuras esposas falsas em lançamentos automobilísticos, aceitei sua mão.Camilly deu discretamente um passo para o lado, abrindo espaço, e Benício me puxou até que eu ficasse entre os dois. Sua mão deslizou para a minha cintura e, antes que eu pudesse me perguntar o que vinha depois, ele se inclinou e me beijou.Os flashes dispararam imediatamente.Mas, por cima deles, ainda consegui ouvir os uivos vindos do fundo do salão.Céus.Beníci
Entramos no salão e descobri que alguma coisa tinha mudado durante os poucos minutos em que estivemos na sacada. As pessoas começavam a ocupar seus lugares, e algumas mesas bem em frente ao palco tinham sido reservadas.Benício me guiou até uma delas, onde Giulia e Igor já estavam sentados.— Sobreviveu? — Giulia perguntou.— Acho que sim.— Então ele gostou de você.Olhei para Benício.— Vocês têm exatamente o mesmo conceito estranho de simpatia.Ele riu enquanto puxava a cadeira pra mim.Eu ainda não fazia ideia do que estava prestes a acontecer quando as luzes diminuíram e um homem subiu ao palco. Só entendi quando o enorme telão atrás dele exibiu o nome MARZANI RACING.Aparentemente, aquele era o verdadeiro motivo da festa.O apresentador começou a falar sobre o novo braço de competição automobilística da Marzani Motors, focado principalmente em rali. Vieram vídeos de carros atravessando terra, lama e neve, imagens de testes, oficinas, pilotos e engenheiros. Depois começaram a apa
Tá, conhecer o avô de Benício.Foco nisso.Definitivamente seria um momento importante, então eu não podia estar com outras coisas na cabeça, como o fato de Benício ficar muito bem de terno ou o que exatamente Camilly quis dizer quando me desejou boa sorte.Voltei para o salão e encontrei Benício exatamente no mesmo lugar em que o tinha deixado, esperando por mim.— Preparada agora? — perguntou assim que me aproximei.— Não. Não mesmo.— Ótimo. Vamos.— Que bom que minha opinião é tão importante.Ele entrelaçou o braço no meu e começou a me guiar pelo salão.Passamos pelas mesas, por mais algumas pessoas que olharam descaradamente para nós e por um grupo que interrompeu a conversa no segundo em que nos aproximamos. Benício não pareceu notar. Ou simplesmente já estava acostumado demais para se importar.Seguimos até uma grande porta de vidro que dava acesso a uma sacada lateral. A música ficou abafada assim que saímos, assim como o burburinho das centenas de convidados. Havia algumas m
Sabe aquele tipo de mulher que, se dicionários tivessem fotos, teria uma dela ao lado da palavra perfeição?Era Camilly.Ela era tão, tão bonita que, de alguma forma, parecia falsa. Como se alguém tivesse recebido a missão de criar a Barbie estereotipada e levado o trabalho a sério demais. Cintura fina, olhos azuis, cabelos loiros compridos e tão bem hidratados que refletiam a iluminação do banheiro, nariz delicado, pele reluzente e absolutamente nenhuma característica que parecesse ter acordado num dia ruim.Era perfeita demais para ser real.E, para completar o combo, ainda usava um vestido off-white curto e levemente rodado que, apesar de não lembrar em nada um vestido de noiva, conseguiu me transportar diretamente para aquele dia.Para o altar.Para ela vestida de branco do outro lado da capela enquanto eu acusava seu noivo de ter me engravidado.Céus.— Eu... er... oi. Eu...Camilly riu. Uma risadinha discreta, sem qualquer sinal de raiva.— Você está com medo de mim? Não tenha m
— Por que exatamente ela é uma vaca? — perguntei.Se Giulia era o tipo de pessoa disposta a me contar que um membro do conselho tinha sido vítima de um golpe milionário arquitetado pela própria esposa e pela suposta instrutora de golfe, talvez tivesse algumas informações interessantes sobre Camilly também.— Meu irmão não te contou? — Ela virou o rosto para mim com uma expressão estranha.— Contou. Contou, claro que contou.Pensei na história da traição. Benício tinha me contado que descobrira que Camilly estava com outra pessoa poucos dias antes do casamento e que havia coisas profissionais envolvidas naquela relação. Naquele momento, com Giulia me olhando daquele jeito, comecei a me perguntar se era só isso mesmo.— Mas, assim... o que exatamente ele me contou mesmo?Giulia riu.— Você é uma figura, Chiara.Esperei que ela completasse a frase com alguma informação realmente útil, mas aparentemente a central de fofocas dos Marzani também tinha limites.— De qualquer forma, eu realmen
— Você está sugerindo que a solução para eu não estar grávida é... me engravidar?— Tecnicamente, foi o meu advogado quem sugeriu.— Ah, claro. Então está tudo bem porque tem respaldo jurídico — disse, revirando os olhos.Benício deu de ombros, ainda com aquele sorriso irritantemente satisfeito no rosto.— É o que você queria, não é? Uma solução pra não precisar pagar aquela multa. Agora você tem.Cruzei os braços.— Você realmente teria coragem de acabar com a minha vida desse jeito? Me cobrando por algo que você sabe que eu não tenho a menor condição de pagar?Benício abriu a boca para responder, mas seus olhos passaram por mim e alguma coisa mudou em sua expressão.— Então você é a mulher que finalmente conseguiu fazer o Ben protagonizar uma matéria de fofoca. Eu esperei vinte e cinco anos por você.Virei-me.A mulher que tinha parado ao nosso lado era linda. Mas, considerando a quantidade de pessoas lindas por metro quadrado naquela festa, isso já não era exatamente uma informação







