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Capítulo 2

Author: Porca Glamourosa
Eu mesma liguei para ele. Quem atendeu foi Tatiane.

— Francisco, nós já estamos divor...

— Desculpe, eu não sou ele. — Disse Tatiane.

Ela perguntou:

— Quem é você?

— Uma amiga do Francisco.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

— Precisa falar com ele sobre alguma coisa? Ele passou a noite inteira arrumando as malas e nem dormiu. Se for algo importante, pode falar comigo.

Dei um sorriso amargo.

Eu estava prestes a desligar quando ouvi a voz de Francisco do outro lado da linha.

— Quem é?

— Parece que é... Sua esposa.

Francisco pegou o celular.

— Manuela, aconteceu alguma coisa?

— Quem é ela?

Houve um longo silêncio do outro lado.

— Uma amiga.

— Só uma amiga?

— Só uma amiga. Não fique pensando demais.

— Vocês vão voltar juntos?

— Sim. Ela não está bem de saúde e, como sou médico, posso cuidar melhor dela.

Ao fundo, ouvi um anúncio do aeroporto.

— Ah, você não gosta de flores? Trouxe uma mudinha para você. — Depois de dizer isso, ele desligou.

Fui até a varanda. Os vasos continuavam sobre o suporte, mas a terra já estava completamente ressecada e rachada.

O vento soprou, levantando poeira. Aquela terra já não tinha mais vida suficiente para cultivar nada.

A tela do celular se acendeu. Era uma mensagem de Francisco, com apenas uma frase.

[Embarcando. Não me incomode.]

Ele já havia me enviado aquelas palavras centenas de vezes. Sempre que não queria perder tempo comigo, era isso que dizia.

Foi assim durante a cirurgia de Tatiane. E agora também.

Murmurei baixinho:

— Não vai acontecer de novo.

Às dez da manhã, Francisco voltou.

O cabelo estava mais curto e havia leves olheiras sob seus olhos, mas ele parecia mais sereno, até mais gentil.

Fiquei paralisada por alguns segundos. Ele soltou uma risada baixa e me envolveu de leve nos braços.

— Três anos sem me ver e já não me reconhece?

— Sim.

Ele afagou meu cabelo.

— Que ingrata. E pensar que ainda trouxe uma muda para você.

Era apenas um galho reto, com algumas folhas verdes esparsas. Nenhuma flor.

Pá! Me virei na direção do som e vi um frasco branco de remédio caído no chão.

Remédio para problemas de estômago.

— É seu?

— Não. É... Da Tatiane.

— Sua amiga?

— Sim.

— Ela está doente?

— Está. É uma doença grave. Quando as dores atacam, ela não consegue comer nada.

— Então por que o remédio dela está com você?

— Devo ter pegado por engano.

Ele mentiu de novo.

Francisco me puxou pela mão e me levou até a varanda.

— Vamos parar de falar nisso e plantar a flor, está bem? — Ao ver a terra seca e rachada, ele hesitou por um instante. — Não tem problema. Depois peço para Tatiane trazer um pouco de terra.

— Sua mãe já melhorou?

— Está praticamente recuperada.

— Quando você tiver tempo, pode me levar para visitá-la?

A mão que segurava a muda se contraiu.

— Da próxima vez.

Ele continuava mentindo. Não disse mais nada.

Às oito da noite, recebi uma ligação da casa de repouso. Era a avó de Francisco.

Depois do jantar, ele havia dito que sairia para caminhar, mas ainda não tinha voltado para casa.

— Manuela, Francisco esqueceu o celular aqui. Venha buscá-lo.

— Ele acabou de ir visitar a senhora?

— Sim, até trouxe uma amiga.

— Tatiane?

— Sim.

— A senhora a conhece?

— Conheço desde antes de conhecer você. Vi essa menina crescer.

— A senhora gosta dela?

— Gosto. Se meu neto gosta, eu também gosto.

Senti os olhos se encherem de lágrimas.

— Vovó, já que a senhora gosta dela, então deixe que ela vá visitá-la com frequência daqui para a frente, está bem?

— Não!

Fiquei surpresa.

— Francisco jamais teria coragem de deixar Tatiane fazer esse tipo de coisa. Esse trabalho sujo e cansativo ainda tem que ficar por sua conta...

Foi como se um nó se formasse na minha garganta. Durante um bom tempo, não consegui dizer nada. Mas ela era avó de Francisco, não minha.

Durante os três anos de casamento, fui eu quem cuidou dela. Quando ficou imóvel na cama, era eu quem limpava suas fezes e sua urina.

Quando estava acamada e precisava tomar remédios, era eu quem ficava ao seu lado, cuidando de tudo. Se hoje ela conseguia conversar com lucidez, era porque eu tinha feito tudo o que estava ao meu alcance.

Houve uma época em que liguei para Francisco e pedi que voltasse.

Ele respondeu: "Você não está aí?"

Por causa de uma única frase, passei a cuidar da avó dele como se fosse minha própria avó.

Mais tarde, ela foi transferida para uma casa de repouso. Francisco fez questão de me ligar para me questionar e repreender.

Três anos. E, no fim, tudo o que recebi foi um "Francisco jamais teria coragem de deixar Tatiane fazer esse tipo de coisa".

— Vovó, já está tarde. A senhora precisa dormir.

— Está bem. Amanhã é meu aniversário. Se lembre de pedir para Tatiane vir jantar com a gente.

Quando a ligação terminou, a casa voltou a mergulhar no silêncio. Às dez da noite, Francisco chegou.

— A vovó disse que você esqueceu o celular lá.

Ele parou no meio do movimento enquanto trocava os sapatos.

— Então você já sabe?

— Por que ela também foi?

— Não tire conclusões erradas. Ela se preocupa com a vovó, então eu a levei para visitá-la.

— Você a levou, mas não me levou?

— Você já não a vê com frequência?

— Não é a mesma coisa.

Ele me olhou, surpreso.

— O que tem de diferente?

— O significado é diferente.

Eu tinha ido até lá por conta própria. Tatiane tinha sido levada por Francisco.

Era diferente.

— Está bem, está bem. Não vamos brigar, pode ser? Daqui para a frente, faço tudo como você quiser.

Ele parecia estar cedendo em tudo, como se coubesse a mim decidir absolutamente tudo.

Durante os três anos em que vivemos separados, essa foi a frase que mais ouvi dele.

O que comprar para casa, eu decidia. O que fazer em relação à saúde da avó, eu decidia.

Até mesmo as alianças que nunca chegamos a usar ficaram por minha conta.

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