LOGINO telefone tocou às seis e quarenta da manhã de segunda-feira, quando Vera Duarte estava com um pé dentro da calça do uniforme e o outro no chão frio da cozinha, e ela atendeu com o ombro porque a mão estava ocupada.
— Dona Vera, é o Gabriel.— Eu sei quem é. — Ela terminou de puxar a calça. — O senhor liga sempre nesse horário.— É o único em queRestavam sete.O Dr. Roberto Fontes tinha escrito o número num canto do quadro branco da sala de reunião do décimo segundo andar, e todo dia de manhã, às oito, alguém apagava e escrevia o número menor. Era uma prática de quartel e Gabriel odiava, e mesmo assim não mandou parar, porque a verdade é que ele também olhava para aquele número antes de olhar para qualquer outra coisa.**7.**Na mesa havia três pastas.— Antes de mais nada — disse Fontes, tirando os óculos —, eu quero deixar registrado que existem três caminhos e que dois deles resolvem isso até quinta-feira.— Registra.— Caminho um. — Fontes abriu a primeira pasta. — A senhora do jurídico societário reclassifica as três contratações como despesa de responsabilidade social vi
O telefone tocou às seis e quarenta da manhã de segunda-feira, quando Vera Duarte estava com um pé dentro da calça do uniforme e o outro no chão frio da cozinha, e ela atendeu com o ombro porque a mão estava ocupada.— Dona Vera, é o Gabriel.— Eu sei quem é. — Ela terminou de puxar a calça. — O senhor liga sempre nesse horário.— É o único em que a senhora atende.Isso era verdade e ela não discutiu.Do outro lado da linha havia aquele silêncio dele que não era hesitação, era escolha de palavra. Vera já tinha aprendido a reconhecer. Nos últimos três meses ela tinha aprendido uma quantidade absurda de coisas sobre um homem que ela odiou por nove anos sem nunca ter visto a cara dele de perto.— Ontem à noite aconteceu uma coisa — disse
O jantar de domingo na casa dos Aragão, no Alto de Pinheiros, era um ritual de trinta e um anos.Cinco da tarde, mesa posta, torta de maçã da dona Vitória, café coado às seis e meia, e nos últimos onze anos um lugar vazio que ninguém comentava — porque a Renata quase sempre vinha, mas quase sempre chegava tarde.Naquele domingo ela chegou às cinco em ponto.— Filha!— Oi, pai.Ele abraçou-a na porta, do jeito que sempre abraçava, com as duas mãos nos ombros dela e um beijo na testa.Renata Aragão abraçou de volta.E foi ali, no vão da porta de uma casa em que ela tinha crescido, com o cheiro de torta de maçã vindo da cozinha, que ela entendeu por que tinha vindo — e não era para confrontar, e não era para acusar, e não era para tirar satisf
Marcos Viana achou Emerson Baptista em nove dias, e achou pelo caminho que Vera Duarte tinha ensinado a ele sem saber.Não procurou o homem. Procurou a mulher do homem.Ligou para a paróquia de Bragança Paulista, disse que estava organizando a missa de sétimo dia de um antigo membro da comunidade, e perguntou se alguém tinha contato com a família do falecido Nivaldo Baptista. A secretária da paróquia deu o telefone de uma prima. A prima deu o telefone de uma cunhada. A cunhada disse que o Emerson morava em Aveiro e que a mulher dele, a Sandra, era de Atibaia e vinha ao Brasil todo dezembro visitar a mãe.Levou nove dias e três ligações.— Doutor, eu tenho o número — disse Marcos. — Mas eu não vou ligar.— Por quê?— Porque se um chefe de segurança de conglomerado brasileiro liga p
Fausto Aragão fez a jogada dele numa quarta-feira, e foi elegante.Não vazou nada. Não ameaçou ninguém. Não procurou advogado, não chamou a imprensa e não fez uma única coisa que pudesse ser apontada depois como reação.Ele protocolou um pedido de auditoria interna.---O documento chegou à presidência às nove e quarenta da manhã, com cópia para o conselho de administração, para o comitê de auditoria e para o Dr. Roberto Fontes, e tinha quatro páginas de linguagem impecável.Fontes ligou às dez.— Doutor Gabriel, o senhor já leu?— Estou lendo agora.— Leia até o fim antes de a gente conversar.Gabriel leu.O documento, assinado pelo diretor financeiro, comunicava formalmente ao conselho que a
O Dr. Roberto Fontes subiu na terça-feira com dois historiadores, uma pasta de couro e uma cara que Gabriel conhecia de trinta anos e que aparecia umas quatro vezes por década.Reuniram-se na biblioteca do casarão, com a mesa de jacarandá coberta de papel: a certidão de inteiro teor da Carta Patente Imperial de 1878, a escritura ratificada de 1885, as plantas de agrimensura, o mapa cartográfico em aquarela e as seis matrículas das glebas da encosta norte.Fontes não sentou. Ficou de pé, com os dedos apoiados na mesa, e falou durante quarenta minutos.— Doutor Gabriel, eu vou dizer uma coisa antes de começar, e eu preciso que o senhor entenda que eu não estou sendo dramático. — Ele ajustou os óculos. — Eu trabalho para esta família há trinta anos. Eu li esse decreto pela primeira vez em dois mil e vinte e quatro, quando o se







