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Capítulo 2 — A mão do inimigo

last update 게시일: 2026-09-22 10:15:20

POV VALENTINA

A mão de Dante permanecia estendida entre nós.

Atrás de mim, duzentas pessoas esperavam para descobrir se eu fugiria chorando ou armaria um escândalo. À minha frente, o homem que transformara cada encontro profissional dos últimos anos em uma guerra me oferecia um pacto.

Nada naquela situação fazia sentido.

— Qual é o preço? — perguntei.

O canto da boca de Dante se moveu.

— Finalmente uma pergunta inteligente.

— Retiro o que disse. Prefiro enfrentar as câmeras.

Tentei passar por ele, mas Dante segurou meu pulso com delicadeza. Meu corpo inteiro ficou em alerta. Ele nunca havia me tocado.

Discutíamos em tribunais, eventos beneficentes e reuniões intermináveis, mas sempre existira uma distância segura entre nós. Agora, o calor dos dedos dele atravessava minha pele.

— Ethan preparou uma declaração para a imprensa — sussurrou. — Neste momento, a equipe dele está enviando aqueles documentos para todos os veículos de comunicação.

Olhei para as câmeras às minhas costas.

— Como você sabe disso?

— O assessor dele tentou me vender a informação.

— E você comprou?

— Eu compro o que pode ser útil.

— Inclusive pessoas?

Os olhos cinzentos se estreitaram.

— Principalmente pessoas.

Puxei meu pulso.

— Então você sabia o que aconteceria e não me avisou.

— Descobri há vinte minutos.

— Tempo suficiente para impedir.

— Você teria acreditado em mim?

Abri a boca, mas nenhuma resposta saiu. Não teria.

Se Dante tivesse ligado naquela manhã dizendo que Ethan planejava me abandonar no altar, eu o acusaria de querer sabotar o meu casamento.

— Por que você está aqui? — questionei.

Dante olhou por cima do meu ombro.

— Beaumont me convidou.

Aquilo conseguiu ser pior do que a traição.

Ethan fizera questão de chamar o homem que mais odiava para assistir à minha humilhação.

Fechei os olhos por um instante.

Eu poderia desabar depois. No carro, no banheiro, no fundo de uma garrafa de uísque. Mas não ali.

Quando voltei a encará-lo, estendi a mão.

— Faça com que ele se arrependa.

Os dedos dele envolveram os meus.

— Com prazer.

Dante não me levou para fora. Virou-se e caminhou comigo de volta ao altar.

Os murmúrios cresceram. Chloe soltou uma exclamação indignada, mas não tentou nos impedir. Noah, ao lado dela, observava Dante com desconfiança.

Ethan nos viu aproximar e seu rosto perdeu a cor.

Aquilo me deu forças.

— O que você está fazendo, Valentina?

— Terminando a minha execução pública.

Dante soltou minha mão apenas para tirar o paletó e colocá-lo sobre meus ombros. O tecido carregava o perfume dele: madeira, couro e algo perigosamente masculino.

O gesto provocou uma nova explosão de flashes.

— Tire as mãos dela — ordenou Ethan.

Dante se posicionou atrás de mim.

— Você perdeu o direito de fazer exigências quando engravidou a irmã dela.

Camille protegeu o ventre com as duas mãos.

— Isso não é da sua conta.

— Agora é.

Olhei para ele.

— O que isso quer dizer?

Em vez de responder, Dante fez um sinal para um dos homens da equipe dele. Os documentos financeiros desapareceram da tela. No lugar deles, surgiu o registro de acessos ao sistema do Grupo Lancaster.

— As supostas transferências foram autorizadas pelo computador pessoal de Valentina — Dante apontou — às duas e dezessete da madrugada do dia oito de março.

Ethan endureceu o maxilar.

— Exatamente.

— Naquela madrugada, Valentina estava em Zurique, negociando com a minha empresa.

Eu me lembrava da reunião. Dante prolongara a discussão até quase o amanhecer só para me obrigar a aceitar uma cláusula que eu detestava.

— Ela pode ter acessado o sistema remotamente — rebateu Ethan.

— Não sem o dispositivo físico de autenticação. — Dante sustentou o olhar dele. — O mesmo que, segundo o relatório da segurança, ficou trancado no escritório dela, em Nova York.

O salão mergulhou em silêncio.

Meu coração acelerou.

Eu ainda não entendia como Dante conseguira aquelas informações, mas, pela primeira vez desde que Ethan interrompera a cerimônia, as pessoas não olhavam para mim como se eu fosse culpada.

Olhavam para ele.

— Essas informações são confidenciais — falei.

— Eram — respondeu Dante. — Até alguém transformá-las em espetáculo.

Minha madrasta deu um passo à frente.

— Isso não prova a inocência dela.

— Prova que os documentos apresentados estão incompletos. E qualquer jornalista que os publique como verdade vai receber uma ação judicial antes do jantar.

Dante não elevou a voz. Não precisava. Homens como ele não gritavam. Apenas informavam o preço de desafiá-los.

— Você não pode ameaçar a imprensa — protestou Ethan.

— Acabei de ameaçar.

Chloe surgiu ao meu lado, satisfeita.

— Tecnicamente, ele só listou as consequências legais. Eu faria o mesmo, com palavras bem menos educadas.

— Chloe — adverti.

— Estou ajudando.

Ethan apontou o dedo para Dante.

— Você está fazendo isso porque quer destruir a minha empresa.

— Não preciso de Valentina para destruir você.

A mão de Dante pousou na minha cintura.

Meu corpo enrijeceu, mas mantive o sorriso para as câmeras.

— Você já está fazendo um trabalho admirável sozinho, Beaumont.

Camille começou a chorar.

— Eu sabia que você faria isso — acusou, olhando para mim. — Você não aceita que ele me ama.

— Tem razão.

Desci os olhos até a barriga dela.

— Deve ser difícil competir com uma criança que nem nasceu.

— Valentina! — exclamou minha madrasta.

— Fique tranquila, Helena. Não vou disputar o seu prêmio. O Ethan é todo dela.

Virei-me para os convidados.

Minha vontade era desaparecer, mas minha voz não tremeu.

— Agradeço a presença de todos. Como podem ver, não haverá casamento. Aproveitem a recepção. As bebidas já foram pagas e, considerando os novos noivos, vocês vão precisar delas.

Algumas pessoas riram.

Pena que minha pequena vitória durou poucos segundos. Um estalo seco ecoou atrás de mim. A bengala do meu avô tinha caído no chão.

Virei a tempo de vê-lo levar a mão ao peito.

— Vovô?

Augustus tentou se levantar, mas as pernas cederam.

Corri antes que ele atingisse o piso.

— Chamem uma ambulância! — gritei.

Ajoelhei-me, prendendo o vestido sob os joelhos. Meu avô estava pálido, os lábios começando a arroxear.

— Olhe para mim — implorei. — Vovô, olhe para mim.

Os dedos dele apertaram os meus.

— Não deixe... que eles tomem... o que é seu.

— Não fale. A ambulância já está vindo.

Por um instante, o olhar dele se desviou para Dante. Algo silencioso passou entre os dois.

Então a mão do meu avô perdeu a força.

— Vovô?

Dante se ajoelhou ao meu lado e procurou o pulso dele.

A expressão dele mudou.

— Dante?

Ele iniciou as compressões enquanto alguém pedia um desfibrilador. Chloe me segurou quando tentei me aproximar de novo.

As câmeras continuavam disparando.

Meu casamento destruído. Minha reputação sob ataque. E meu avô imóvel no chão, cercado pelas rosas que ele mesmo escolhera para me entregar no altar.

Horas depois, no corredor gelado do hospital, um médico se aproximou e tirou os óculos.

Eu soube antes que ele dissesse qualquer coisa.

— Senhorita Lancaster, fizemos tudo o que era possível... Sinto muito.

Naquele momento, descobri que um coração podia se partir duas vezes no mesmo dia.

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