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CAPÍTULO 06

last update Fecha de publicación: 2021-09-07 22:31:45

      Na terça-feira, de manhã, de volta ao trabalho — era advogado, especializado em causas trabalhistas e trabalhava numa grande empresa do ramo — procurou seu colega Kleber, na sala adjacente à sua.

      Kleber — sujeito de seus trinta e poucos anos, moreno-claro, gordo e baixo, que usava feiosos óculos de grau —, encontrava-se sentado à mesa, concentrado, digitando, no notebook, alguns textos.

      Não eram realmente amigos, até porque tinham filosofias diferentes, no que dizia respeito a quase tudo. Kleber, casado, era religioso demais para seu gosto. Contudo, respeitava o colega, apesar deste ter sido contratado, pela empresa, há somente um ano e meio. Apesar do pouco tempo dele ali, já haviam colaborado um com o outro, em vários trabalhos. Ele era do tipo sério, tranquilo, educado e, claro, bem simpático.

      → Oi, Kleber → disse, postando-se de pé ao lado da mesa dele.

      → Oi, Macto. Tudo bem?

      → Tudo. Kleber, posso conversar com você por alguns instantes?

      → Claro. Sente-se, por favor.

      Puxou uma das cadeiras que estavam próximas da parede e a colocou de frente para a mesa de Kleber.

      Sentou-se, contrito — meio que ansioso — e começou a por em prática uma ideia:

      → É o seguinte: você continua frequentando aquela igreja evangélica? A da ressurreição?

      → Igreja Geral da Ressurreição é o nome correto → Kleber respondeu, sem parecer ofendido. Ele, na verdade, possuía uma calma acima da média. Praticamente nada o tirava do sério. → Sim. Continuo frequentando. E sempre frequentarei. Você devia voltar lá, um dia, sabia?

      → Pode ser → respondeu, de modo evasivo. Decidiu ser direto e objetivo: → Escute: você contou para alguém que eu fui à matriz da igreja? Alguém da empresa, talvez.

      → Só para minha esposa. Por que?

      → Nada, não. Você saberia me informar se lá trabalha algum pastor alto, magro, loiro, de cabelos dourados e olhos azuis?

      Kleber parou de digitar e o encarou. Fixamente! Teria surgido um brilho sinistro nos olhos dele? O brilho da desconfiança? Do instinto protetor?

      Não. Não havia brilho nenhum. Enganara-se. O Kleber de sempre estava ali e quis saber:

      → Por que você quer saber?

      Num primeiro momento, havia decidido não revelar o estranho e bizarro diálogo do hospital, com receio de ser tachado de maluco.

      Mas depois mudou de ideia; até porque estava convicto de que o falso médico era um pastor da tal igreja Geral da Ressurreição, como ele mesmo reconheceu.

      Talvez Kleber pudesse ajudá-lo.

      Contou tudo. Desde o estranho diálogo, no corredor do hospital, naquela fatídica tarde, até a descoberta de que se tratava de um falso médico. Parou, enfim, de falar.

      Kleber suspirou e respondeu:

      → Amigo, a igreja Geral da Ressurreição possui mais de 30 templos, espalhados pelas quatro cidades que nos cercam. São mais de 150 pastores, dentre os quais muitos loiros de olhos verdes ou azuis. Gente demais. Estamos crescendo, entende? Aconselho você a ir até lá, para tentar identificar esse pastor. Isso se ele pertencer aos quadros da igreja, o que duvido.

      → Por que duvida?

      → Nossos pastores jamais abordariam uma pessoa num hospital e muito menos fingindo-se de médico. Isso é crime. Desculpe, mas na nossa igreja não trabalham criminosos. Agora me diga: por que quer encontrá-lo?

      Estava esperando por essa pergunta. Tinha uma resposta pronta, que considerava coerente:

      → Principalmente por não ter gostado do teor das perguntas que ele me fez. E estou mais chateado ainda por saber que o sujeito nem médico era. Quero encontrá-lo para denunciá-lo à justiça, fins evitar que ele volte a cometer esse tipo de loucura, de bizarrice, de crime.

      → Você tem razão. Foi realmente uma atitude deprimente e asquerosa, a que ele tomou. Terrível!

      → Pois é. E o que me deixa irritado é ter certeza de que ele sabia que minha esposa estava morrendo. Não sei como, mas tenho quase certeza de que ele sabia. Foi uma ação covarde, a dele, a de usar essa informação para me forçar a fazer parte, por pressão psicológica, da igreja Geral da Ressurreição. Um plano realmente esdrúxulo e nauseabundo. Ele tem que responder, perante a justiça, por esse crime.

      → Certamente. Mas já te adianto que esse homem não pertence à nossa igreja. Se por acaso for, será imediatamente expulso dos nossos quadros, sem dúvida. Nossos líderes não toleram esse tipo de desonestidade.

      → Talvez não seja da sua igreja, mas não custa nada fazer uma verificação, você não concorda?

      → Concordo, sim. Infelizmente sou obrigado a reconhecer que, em todas as instituições em atividade neste planeta, sempre há uma ovelha negra, alguém que foge aos padrões normais de comportamento.

      → Concordo. É isso mesmo → afirmou. → Provavelmente não é um pastor de sua igreja, mas… → suspirou. Decidiu encurtar a conversa, pois ambos precisavam trabalhar: → E aí, Kleber? Quando tem culto lá? Você me disse, mas, devido a tudo que passei, já esqueci. Desculpe.

      → Entendo. Que bom que você vai voltar a nos visitar, mesmo que seja por outros motivos. Quem sabe se já não fica de vez? → sorriu, discretamente, algo raro nele. Depois voltou a ficar sério: → Memorize: na segunda e terça a igreja não abre, pois eles aproveitam o dia para realizar as reuniões internas. De quarta a domingo, a igreja funciona, a partir das oito horas da noite. Nos sábados e domingos, há cultos também de manhã, a partir das oito horas, e à tarde, a partir das três horas. Aconselho você a ir no sábado de manhã, pois nesse horário há a “sessão dos casais”, que permite a possibilidade de se conhecer uma garota bacana, para relacionamento sério. Garotas de Cristo. Quer dizer… não é que eu ache que…

      → Tudo bem. Já entendi. Não precisa explicar. “Sessão dos casais”. Entendo. → não quis dizer que não estava interessado em se relacionar com uma fanática religiosa, repleta de crendices e preconceitos, pois só lhe traria problemas →. Mas não é o meu caso, no momento. De qualquer forma, darei uma passadinha lá, no sábado. Muito obrigado, Kleber, pela ajuda.

      → Por nada, amigo. Caso encontre esse criminoso, por favor, me informe, para que eu tome as devidas providências. Ah, sim. Também espero, de coração, que possa se converter e tornar-se um de nós. Que aceite Jesus em seu coração.

         "Quanta bobagem. Sou católico, amigo. Você não vai conseguir me convencer.", refletiu.

      → Tchau → foi o que disse, fins não magoá-lo ou causar-lhe algum constrangimento.

      Afastou-se dele, pronto para agir.

      Anotou os dias e horários dos cultos, fins não esquecer. Em seguida, passou o resto da tarde digitando relatórios, concentrado, sem pensar nas suas próximas ações.

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