INICIAR SESIÓNNo domingo, depois que voltou da igreja católica, sentou-se no sofá e deu uma minuciosa e analítica olhada nas fotos e imagens.
Horríveis! Nojentas!
Porém nítidas.
Sabia que qualquer pessoa que as visse e conhecesse (pessoalmente ou por fotos) o pastor Gutemberg, o reconheceria.
E qualquer pessoa entenderia o significado delas. Como se dizia por aí, eram realmente fotos e imagens comprometedoras.
→ É o fim de sua carreira, babaca → murmurou, os olhos brilhando de ódio.
Almoçou somente com os pais. Sua irmã havia ido à praia, com o noivo.
→ Tudo bem, filho? → sua mãe, curiosa, quis saber → Parece ansioso. Algo o preocupa?
Comia distraidamente, os pensamentos em outra dimensão, e não notou que ela estava com os olhos fixos nele. Merda! Sua mãe havia percebido! Esperta, muito esperta.
→ Nada, mãe → apressou-se em respondeu, calmamente, tentando ser convincente. Optou por mentir: → Estava pensando numa cliente que recebi, sexta-feira. Uma mulher apavorada, que denunciou as agressões do marido. Eles estão se separando. Esses casos terríveis sempre me deixam pensativo.
→ Nossa! E você vai conseguir colocar o monstro na cadeia? → ela indagou, meio que tensa, pois sempre foi radical e incisiva, quando o assunto era a horripilante violência contra mulheres. Detestava esses agressores!
→ Na verdade, estou trabalhando apenas na parte burocrática da divisão de bens. Mas um colega meu, que é da área criminal, já acionou as autoridades. Infelizmente a lei Maria da Penha é muito fraca. Na verdade, nossas leis, de modo geral, são fracas. Todas! Não é à toa que este é conhecido como o país da impunidade. Mas não é nada sério, mãe → sorriu. → Não se preocupe, que seu filho está tranquilo e dormindo bem. Já sou experiente o suficiente para encarar esses obstáculos.
→ Que bom → ela o encarou. → Não costumo fazer isso, mas vou abrir uma exceção. Vou te fazer um pedido: faça com que seu colega coloque esse monstro na cadeia, antes que mate a coitada.
Seu pai a tudo observava, embora preferisse se manter em silêncio. Discreto, sempre deixou que a esposa resolvesse esses problemas.
Era mesmo um excelente pai!
→ Farei o possível, mãe. Acredite.
→ Obrigada, filho.
O delicioso almoço prosseguiu, dentro da normalidade de sempre.
O tempo foi passando e… nada. Os investigadores não avançaram, por mais que se esforçassem. O caso tornou-se um decrépito e infeliz beco sem saída. A frustração deles foi total! Um ano depois, o caso foi, enfim, parcialmente arquivado. Os policiais acharam que se tratou de assassinato seguido de suicídio e que o carro de Macto estaria em alguma ribanceira da região. Mas continuariam procurando, embora com menor intensidade. Ufa!... Na verdade, o Uno de Macto jamais foi encontrado, assim como os corpos dos dois. Kleber sorriu, satisfeito. Chegou a acreditar que os cadáveres seriam encontrados, mas aca
Tudo deu certo. Havia deixado o carro do pastor no aeroporto, atrás de um depósito, pois sabia que ali não havia câmeras. Andou uns 400 metros. Pegou, enfim, um táxi e voltou para casa. Sua esposa estava dormindo — ou fingindo — assim como seus filhos. Havia informado a ela que iria para a reunião de pastores e que o pastor Júlio decidiu lhe dar carona, ida e volta. Deixara, portanto o carro na garagem. Se ela perguntasse, o pastor Júlio confirmaria a inusitada história. Mas ela, inteligentemente, não perguntou. Boa menina! Jogou os celulares no mar, na noite seguinte. Sumiram para sempre. Dois dias dep
Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados. O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro. O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos. O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista. Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.
Kleber, o gordo, simpático e calmo Kleber — um verdadeiro poço de tranquilidade —, estava ali, diante dele, segurando uma pistola. Naquele momento os olhos do gordo brilhavam. Seria ódio? Ou apenas indiferença? Viu o diabólico e mortífero cano da arma apontado na sua direção. → Mas… por quê? Por quê? → indagou, atônito, ainda sem sentir medo. “Sou colega dele. Ele não vai ter coragem de atirar em mim. É calmo, é evangélico, é um homem de Deus. Provavelmente só quer me assustar, para proteger o amigo”, refletiu, esperançoso. Precisava dizer alguma coisa, para convencê-lo a desistir da ideia:
No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno. Delícia! Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro. → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria. → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agress&
Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal. Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa. Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”. Um título conveniente e objetivo. Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário. Desl