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CAPÍTULO 14

last update publish date: 2021-09-07 22:36:51

      A semana demorou a passar.

      Na quarta-feira, Kleber o abordou:

      → E aí? Encontrou o falso médico?

      Seguindo seu instinto, decidiu não contar nada a ele. Seria seu segredo. Depois ele saberia de tudo, assim que o escândalo estourasse.

      → Não. Acho que irei desistir.

      → Isso! Eu sabia que ele não pertencia à nossa igreja. Não temos criminosos em nossos quadros. Largar isso de mão é a melhor coisa que você faz, amigo. Não se esqueça: Deus te ajudará a superar essas maledicências. Ore e serás recompensado.

      “Você é que pensa que ele não é da tua igreja, amigo. Logo terás uma surpresa.

      Dúvidas brotaram em sua mente.

      Saberia Kleber de alguma coisa? Teria ele contado ao pastor que o convidara para ir à igreja? Teria ele contado ao pastor que sua esposa estava internada?

      Estaria ele, de alguma forma, mancomunado com o famigerado pastor? Não quis acreditar nisso. Não tinha lógica. Provavelmente não.

      Kleber era sério demais para se envolver nesse tipo de falcatrua. No fundo, não passava de mais uma das marionetes da igreja, um patético e crédulo fantoche.

      Era, acima de tudo, um pobre e infeliz fanático, subjugado por crendices.

      → Muito obrigado, Kleber → disse, para não prolongar a conversa. → Rezarei, não se preocupe. Tchau, parceiro!

      Na sexta-feira, à noite, assistiu a um filme de suspense, no cinema. Assassinatos violentos e desnecessários na telona. Um filme nota cinco.

      De madrugada, teve um inusitado e ignóbil pesadelo, após meses de noites bem dormidas.

      Sonhou ter visto sua esposa na praia, numa noite de lua cheia, linda e sexy, usando o mesmo vestido branco das outras vezes.

      O falso médico — que também usava roupas brancas — dela se aproximou, por trás, munido com o punhal, pronto para matá-la, pronto para dar as terríveis e fatídicas estocadas no…

      No entanto, de modo surpreendente, ela virou-se e reagiu. Os dois começaram a lutar, rolando na areia. Ela parecia ter força para enfrentá-lo.

      Segundos depois, viu sua esposa por cima do falso médico, com o punhal na mão direita. Como isso foi possível?

      Ela soltou um grito insano e baixou a mão armada diversas vezes. Foram pelo menos 22 ou 23 estocadas. Gemidos de dor foram ouvidos.

      O sangue jorrou do corpo do falso médico. Macto nunca tinha visto tanto sangue! Sua esposa estava literalmente banhada em sangue.

      De repente, ela parou de apunhalar o falso médico e voltou-se para ele. No rosto completamente vermelho, os olhos sem pupilas brilhavam. Um brilho homicida e horripilante, que caracterizava suas intenções sinistras.

      Não! Ela não iria atacá-lo!

      Não poderia!

      Levantou-se, trêmulo.

      → Eu te amo, Vera! → dizia, em pânico. → Eu te amo! Por favor, eu te… amo. N-Não faça... isso...

      Quando sua esposa — ou o monstro em que ela se transformou — começou a se aproximar, erguendo o punhal, acordou, pálido e assustado.

      → Meu Deus! → murmurou, tenso.

      Sentou-se na cama e passou as mãos nos cabelos. Perguntou-se o motivo desse pesadelo, depois de tanto tempo. Seria obrigado a procurar de novo o psiquiatra? Ou foi apenas um caso isolado, que não se repetirá? O fato de ter descoberto o segredo do pastor Gutemberg, o falso médico, teria contribuído para esse pesadelo? Deveria ficar preocupado?

      "Merda! Estou pirando na batatinha. Só o tempo mesmo para me dar as respostas. Terei que esperar pelas próximas noites. Maldito pastor do cacete!"

      Meio que tenso, levantou-se e foi até a cozinha, onde ingeriu um copo d’água. Delícia! Aquela água o deixou calmo. Procurou não pensar no pesadelo.

      Voltou a se deitar; cobriu-se com o lençol e fechou os olhos. Afastou dos neurônios a esposa e o falso médico. Respirou fundo.

      “Concentre-se, Macto. Concentre-se! Permaneça calmo… bem calmo...

      Elevou sua mente para a dimensão da lucidez e da calmaria. Inspirou o ar noturno. Buscou o sono; deixou-se por ele subjugar.

      Deu certo.

      Minutos depois, o sono veio… inexorável, profundo e benevolente…

      Ato contínuo, dormiu otimamente bem, sem pesadelos, sem perturbações.

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