LOGINNo sábado à tarde, foi até a igreja.
O pastor Gutemberg estava sentado à mesa, esperando a sua vez de pregar. Não quis ouvi-lo. Não valeria à pena ouvir tantas bobagens.
Decidiu esperar no carro.
Uma hora depois, a multidão começou a sair da igreja. Também saiu do carro e esperou, o coração aos saltos. Não demorou para ver a figura do pastor Gutemberg, elegante num terno azul-marinho, que acabara de sair.
Nos degraus da igreja, ele conversou com algumas pessoas, enquanto cumprimentava as que passavam; sorrindo, a simpatia em carne-e-osso. Notou que algumas garotas o encaravam com admiração. Com certeza achavam ser ele um bom partido. Óbvio!
Os carros passavam, lentamente; a multidão se dispersava, a benevolente e sutil calmaria voltando a dominar.
O pastor, enfim, começou a se dirigir para o estacionamento. Foi atrás dele. Quando o viu apertar o botão do controle remoto do veículo, acercou-se discretamente e murmurou, em voz baixa, iniciando o ataque:
→ Boa tarde, pastor.
O falso médico virou-se. Olharam-se. Se o reconheceu não demonstrou. Seu rosto era pura inexpressividade.
Nenhum músculo se mexeu, evidenciando surpresa ou qualquer outro tipo de sentimento.
→ Boa tarde → ele respondeu. → Em que posso servi-lo, irmão?
Nossa! Era a mesma voz! Não teve dúvidas de que estava diante do maldito falso médico. Arre! Gostaria de ouvir ele dizer: “você gosta de Miojo?”, embora não fosse necessário.
Não tinha mais dúvidas!
Controlou a emoção, que fazia seu coração acelerar, diabolicamente, os batimentos cardíacos.
→ Gostaria de conversar com você, mas dentro do seu carro. Tenho uma coisa muito importante para mostrar. Pode ser?
→ Dentro do carro? Mas... posso perguntar qual seria o assunto que o irmão quer tratar comigo?
→ Você não está me reconhecendo… doutor?
O rosto continuou impassível.
“Esse desgraçado é muito frio. Nossa! Um maldito e asqueroso iceberg!”
→ Irmão, é a primeira vez que o vejo. Acho que você está me confundindo com alguém. Acho, não. Tenho certeza.
→ Será, pastor? Há cerca de um ano, dois meses e alguns dias, no hospital Medicory, 5º andar. Você, que usava uma bata de médico, me abordou e começou a fazer um monte de perguntas. Você gosta de Miojo? Sabe dançar? Sabe cozinhar? Lembra disso… pastor?
O homem riu, ainda frio e calmo:
→ Eu, usando uma bata de médico, num corredor de hospital? Eu, fazendo perguntas indiscretas a você? Irmão, definitivamente você me confundiu. Jamais entrei no hospital Medicory. E jamais me passaria por médico. Sou honesto. Sou um homem de Deus. Há aqui um grande mal-entendido, com certeza.
→ Posso te mostrar uma coisa?
→ Que coisa? → ele perguntou, desconfiado. Franziu a testa. Seus olhos não brilharam. Talvez já antevisse que alguma notícia ruim sairia dali.
Ignorando o que se passava na mente do falso médico, Macto ergueu o celular e apertou um botão. Colocou a telinha diante dos olhos do sujeito.
Notou que, na medida em que ele olhava as fotos e as imagens, seu rosto foi empalidecendo, adquirindo um tom cadavérico, como se acabasse de ser acometido por algum tipo de doença infectocontagiosa.
Ciente de ter obtido o efeito que desejava, baixou lentamente o aparelho, enquanto ouvia o pastor murmurar, visivelmente apavorado:
→ Meu Deus! Meu Deus!
Ele encostou-se no carro, já trêmulo.
→ Eu sabia que um dia isso iria acontecer → disse, nervoso. → U-Um dia todos saberiam… e esse dia c-chegou... Meu Deus! Meu... Deus!...
→ Então? Podemos continuar a conversa no carro?
→ O que q-quer de mim? → ele, de repente, parecia com raiva. → O que quer de mim, seu desgraçado?!?
→ Manere a linguagem, pastor. Não se esqueça de que és um homem de Deus. Controle-se. Podemos entrar no carro?
Ele inspirou o ar e passou as mãos nos cabelos. Fechou os olhos. Abriu-os, no segundo seguinte. Buscou a frieza de sempre. Tentou ficar calmo.
→ T-Tudo… b-bem… → murmurou.
Entraram.
Uma vez no carro, Macto respirou fundo e prosseguiu com o plano:
→ Que tal uma conversa franca, de homem para homem? Que tal você contar a verdade? Toda a verdade?
O pastor suspirou. Aos poucos, recompôs-se, apesar de ainda estar pálido e tenso.
→ O que você q-quer s-saber? → ele parecia mais calmo, ou menos tenso, passado o choque inicial. Contudo, suas mãos tremiam.
→ Você é gay?
Alguns segundos de silêncio. O homem pareceu entrar em reflexões! Parecia meditar! Analisar as possibilidades! O que poderia dizer?
Depois, ouviu-se um profundo suspiro e a plena resignação:
→ Sou.
→ Seus supervisores sabem disso?
→ Não.
→ E o que acontecerá se descobrirem?
→ Com certeza terei que sair da igreja.
→ E você quer sair?
→ Claro que não! Amo o que faço. Além do mais eu ajudo as pessoas e todos gostam de mim. Esse é o meu mundo, é o que escolhi para me dar felicidade. Como você descobriu? Quem te contou?
→ Ninguém me contou. Simplesmente segui você, desde o condomínio onde mora até a boate. Como nos filmes de suspense.
→ Você sabe onde moro? Meu Deus!. Mas… por quê? O que fiz de errado?
→ Ora, você sabe. Não se faça de desentendido. Não está mesmo me reconhecendo? Diga a verdade! Vamos! DIGA A VERDADE!
O homem o olhava. Os olhos azuis vidrados. Parecia… atônito. Desesperado. Agoniado. Sem saída. Suspirou novamente e murmurou:
→ De novo a história do... do... h-hospital?
→ Você me abordou no hospital. Sabia que minha esposa tinha morrido. E se aproveitou disso para tentar, de modo nojento, me convencer a frequentar sua igreja. Quero saber por que fez isso.
→ Irmão, eu…
→ NÃO ME CHAME DE IRMÃO! → gritou, com raiva → Não sou irmão de um crápula como você! Meu nome é Macto. MACTO, entendeu?
Ele se assustou. O medo despontou nos olhos azuis-cerúleos. O rosto continuava pálido e as mãos, trêmulas. Tentou argumentar:
→ Macto, escute. Você... você me confundiu com outra p-pessoa. Nunca estive nesse hospital. N-Nunca conversei com você antes. Nunca! Acredite!
Viu uma lágrima brotar do olho esquerdo do sujeito. O quê? Lágrima?!? Aquilo o confundiu.
“Nossa! E agora! Ele está dizendo a verdade? Confundi tudo? Abordei o homem errado? Ou esse choro faz parte da encenação? Ou está negando para proteger alguém? Sim. É isso! Claro! O miserável está protegendo alguém! Um cúmplice!"
→ Quem você está tentando proteger?
Após enxugar a lágrima, o pastor suspirou, recuperou a calma e respondeu:
→ Não estou tentando proteger ninguém. Você... você tem que acreditar em mim. Nunca conversei com você antes, muito menos num hospital. P-Por favor… Sou gay, mas sou honesto. Eu jamais…
→ Pare com essa lengalenga! É o seguinte: vou te dar um dia para pensar. Um dia, para que você reflita e consulte seus colegas de crime. Amanhã à noite, às 10 horas, eu irei até teu endereço. Quero conversar com você no teu apartamento. Se a conversa não for do meu agrado, na segunda-feira mostrarei as fotos e as imagens para teus supervisores. Depois, espalharei tudo na internet. Você entendeu o que eu disse?
→ Meu Deus! Você não pode…
→ ENTENDEU O QUE EU DISSE?
→ Sim… Sim!
→ Ótimo! Ótimo... → baixou a voz, controlando a ira. → Qual o número do apartamento?
→ 801, bloco “C”, oitavo andar.
→ Perfeito! Pois comece a mexer seus pauzinhos. Se tua igreja estiver envolvida, será o fim dela. Ah! Outra coisa: se algo me acontecer, um amigo meu continuará minha missão. Ele sabe de tudo e tem cópias das fotos e das imagens. Portanto, não tente enveredar pela violência, que não dará certo.
→ Violência? Violência? Eu... eu... S-Sou um homem de Deus. Eu nun…
→ Até amanhã… seu babaca!
Saiu do carro, bufando, tentando controlar a raiva. Uma vez no Uno, notou que suas mãos tremiam. O coração aos pulos!
"Gay desgraçado! Babaca! Lixo! Vou te pegar! Ah, se vou! Você não me escapará!"
De volta à calma, respirou fundo, ligou o carro e saiu dali.
O tempo foi passando e… nada. Os investigadores não avançaram, por mais que se esforçassem. O caso tornou-se um decrépito e infeliz beco sem saída. A frustração deles foi total! Um ano depois, o caso foi, enfim, parcialmente arquivado. Os policiais acharam que se tratou de assassinato seguido de suicídio e que o carro de Macto estaria em alguma ribanceira da região. Mas continuariam procurando, embora com menor intensidade. Ufa!... Na verdade, o Uno de Macto jamais foi encontrado, assim como os corpos dos dois. Kleber sorriu, satisfeito. Chegou a acreditar que os cadáveres seriam encontrados, mas aca
Tudo deu certo. Havia deixado o carro do pastor no aeroporto, atrás de um depósito, pois sabia que ali não havia câmeras. Andou uns 400 metros. Pegou, enfim, um táxi e voltou para casa. Sua esposa estava dormindo — ou fingindo — assim como seus filhos. Havia informado a ela que iria para a reunião de pastores e que o pastor Júlio decidiu lhe dar carona, ida e volta. Deixara, portanto o carro na garagem. Se ela perguntasse, o pastor Júlio confirmaria a inusitada história. Mas ela, inteligentemente, não perguntou. Boa menina! Jogou os celulares no mar, na noite seguinte. Sumiram para sempre. Dois dias dep
Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados. O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro. O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos. O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista. Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.
Kleber, o gordo, simpático e calmo Kleber — um verdadeiro poço de tranquilidade —, estava ali, diante dele, segurando uma pistola. Naquele momento os olhos do gordo brilhavam. Seria ódio? Ou apenas indiferença? Viu o diabólico e mortífero cano da arma apontado na sua direção. → Mas… por quê? Por quê? → indagou, atônito, ainda sem sentir medo. “Sou colega dele. Ele não vai ter coragem de atirar em mim. É calmo, é evangélico, é um homem de Deus. Provavelmente só quer me assustar, para proteger o amigo”, refletiu, esperançoso. Precisava dizer alguma coisa, para convencê-lo a desistir da ideia:
No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno. Delícia! Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro. → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria. → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agress&
Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal. Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa. Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”. Um título conveniente e objetivo. Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário. Desl