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CAPÍTULO 15

last update publish date: 2021-09-07 22:37:31

      No sábado à tarde, foi até a igreja.

      O pastor Gutemberg estava sentado à mesa, esperando a sua vez de pregar. Não quis ouvi-lo. Não valeria à pena ouvir tantas bobagens.

      Decidiu esperar no carro.

      Uma hora depois, a multidão começou a sair da igreja. Também saiu do carro e esperou, o coração aos saltos. Não demorou para ver a figura do pastor Gutemberg, elegante num terno azul-marinho, que acabara de sair.

      Nos degraus da igreja, ele conversou com algumas pessoas, enquanto cumprimentava as que passavam; sorrindo, a simpatia em carne-e-osso. Notou que algumas garotas o encaravam com admiração. Com certeza achavam ser ele um bom partido. Óbvio!

      Os carros passavam, lentamente; a multidão se dispersava, a benevolente e sutil calmaria voltando a dominar.

      O pastor, enfim, começou a se dirigir para o estacionamento. Foi atrás dele. Quando o viu apertar o botão do controle remoto do veículo, acercou-se discretamente e murmurou, em voz baixa, iniciando o ataque:

      → Boa tarde, pastor.

      O falso médico virou-se. Olharam-se. Se o reconheceu não demonstrou. Seu rosto era pura inexpressividade.

      Nenhum músculo se mexeu, evidenciando surpresa ou qualquer outro tipo de sentimento.

      → Boa tarde → ele respondeu. → Em que posso servi-lo, irmão?

      Nossa! Era a mesma voz! Não teve dúvidas de que estava diante do maldito falso médico. Arre! Gostaria de ouvir ele dizer: “você gosta de Miojo?”, embora não fosse necessário.

      Não tinha mais dúvidas!

      Controlou a emoção, que fazia seu coração acelerar, diabolicamente, os batimentos cardíacos.

      → Gostaria de conversar com você, mas dentro do seu carro. Tenho uma coisa muito importante para mostrar. Pode ser?

      → Dentro do carro? Mas... posso perguntar qual seria o assunto que o irmão quer tratar comigo?

      → Você não está me reconhecendo… doutor?

      O rosto continuou impassível.

      “Esse desgraçado é muito frio. Nossa! Um maldito e asqueroso iceberg!

      → Irmão, é a primeira vez que o vejo. Acho que você está me confundindo com alguém. Acho, não. Tenho certeza.

      → Será, pastor? Há cerca de um ano, dois meses e alguns dias, no hospital Medicory, 5º andar. Você, que usava uma bata de médico, me abordou e começou a fazer um monte de perguntas. Você gosta de Miojo? Sabe dançar? Sabe cozinhar? Lembra disso… pastor?

      O homem riu, ainda frio e calmo:

      → Eu, usando uma bata de médico, num corredor de hospital? Eu, fazendo perguntas indiscretas a você? Irmão, definitivamente você me confundiu. Jamais entrei no hospital Medicory. E jamais me passaria por médico. Sou honesto. Sou um homem de Deus. Há aqui um grande mal-entendido, com certeza.

      → Posso te mostrar uma coisa?

      → Que coisa? → ele perguntou, desconfiado. Franziu a testa. Seus olhos não brilharam. Talvez já antevisse que alguma notícia ruim sairia dali.

      Ignorando o que se passava na mente do falso médico, Macto ergueu o celular e apertou um botão. Colocou a telinha diante dos olhos do sujeito.

      Notou que, na medida em que ele olhava as fotos e as imagens, seu rosto foi empalidecendo, adquirindo um tom cadavérico, como se acabasse de ser acometido por algum tipo de doença infectocontagiosa.

      Ciente de ter obtido o efeito que desejava, baixou lentamente o aparelho, enquanto ouvia o pastor murmurar, visivelmente apavorado:

      → Meu Deus! Meu Deus!

      Ele encostou-se no carro, já trêmulo.

      → Eu sabia que um dia isso iria acontecer → disse, nervoso. → U-Um dia todos saberiam… e esse dia c-chegou... Meu Deus! Meu... Deus!...

      → Então? Podemos continuar a conversa no carro?

      → O que q-quer de mim? → ele, de repente, parecia com raiva. → O que quer de mim, seu desgraçado?!?

      → Manere a linguagem, pastor. Não se esqueça de que és um homem de Deus. Controle-se. Podemos entrar no carro?

      Ele inspirou o ar e passou as mãos nos cabelos. Fechou os olhos. Abriu-os, no segundo seguinte. Buscou a frieza de sempre. Tentou ficar calmo.

      → T-Tudo… b-bem… → murmurou.

      Entraram.

      Uma vez no carro, Macto respirou fundo e prosseguiu com o plano:

      → Que tal uma conversa franca, de homem para homem? Que tal você contar a verdade? Toda a verdade?

      O pastor suspirou. Aos poucos, recompôs-se, apesar de ainda estar pálido e tenso.

      → O que você q-quer s-saber? → ele parecia mais calmo, ou menos tenso, passado o choque inicial. Contudo, suas mãos tremiam.

      → Você é gay?

      Alguns segundos de silêncio. O homem pareceu entrar em reflexões! Parecia meditar! Analisar as possibilidades! O que poderia dizer?

      Depois, ouviu-se um profundo suspiro e a plena resignação:

      → Sou.

      → Seus supervisores sabem disso?

      → Não.

      → E o que acontecerá se descobrirem?

      → Com certeza terei que sair da igreja.

      → E você quer sair?

      → Claro que não! Amo o que faço. Além do mais eu ajudo as pessoas e todos gostam de mim. Esse é o meu mundo, é o que escolhi para me dar felicidade. Como você descobriu? Quem te contou?

      → Ninguém me contou. Simplesmente segui você, desde o condomínio onde mora até a boate. Como nos filmes de suspense.

      → Você sabe onde moro? Meu Deus!. Mas… por quê? O que fiz de errado?

      → Ora, você sabe. Não se faça de desentendido. Não está mesmo me reconhecendo? Diga a verdade! Vamos! DIGA A VERDADE!

      O homem o olhava. Os olhos azuis vidrados. Parecia… atônito. Desesperado. Agoniado. Sem saída. Suspirou novamente e murmurou:

      → De novo a história do... do... h-hospital?

      → Você me abordou no hospital. Sabia que minha esposa tinha morrido. E se aproveitou disso para tentar, de modo nojento, me convencer a frequentar sua igreja. Quero saber por que fez isso.

      → Irmão, eu…

      → NÃO ME CHAME DE IRMÃO! → gritou, com raiva → Não sou irmão de um crápula como você! Meu nome é Macto. MACTO, entendeu?

      Ele se assustou. O medo despontou nos olhos azuis-cerúleos. O rosto continuava pálido e as mãos, trêmulas. Tentou argumentar:

      → Macto, escute. Você... você me confundiu com outra p-pessoa. Nunca estive nesse hospital. N-Nunca conversei com você antes. Nunca! Acredite!

      Viu uma lágrima brotar do olho esquerdo do sujeito. O quê? Lágrima?!? Aquilo o confundiu.

      “Nossa! E agora! Ele está dizendo a verdade? Confundi tudo? Abordei o homem errado? Ou esse choro faz parte da encenação? Ou está negando para proteger alguém? Sim. É isso! Claro! O miserável está protegendo alguém! Um cúmplice!"

      → Quem você está tentando proteger?

      Após enxugar a lágrima, o pastor suspirou, recuperou a calma e respondeu:

      → Não estou tentando proteger ninguém. Você... você tem que acreditar em mim. Nunca conversei com você antes, muito menos num hospital. P-Por favor… Sou gay, mas sou honesto. Eu jamais…

      → Pare com essa lengalenga! É o seguinte: vou te dar um dia para pensar. Um dia, para que você reflita e consulte seus colegas de crime. Amanhã à noite, às 10 horas, eu irei até teu endereço. Quero conversar com você no teu apartamento. Se a conversa não for do meu agrado, na segunda-feira mostrarei as fotos e as imagens para teus supervisores. Depois, espalharei tudo na internet. Você entendeu o que eu disse?

      → Meu Deus! Você não pode…

      → ENTENDEU O QUE EU DISSE?

      → Sim… Sim!

      → Ótimo! Ótimo... → baixou a voz, controlando a ira. → Qual o número do apartamento?

      → 801, bloco “C”, oitavo andar.

      → Perfeito! Pois comece a mexer seus pauzinhos. Se tua igreja estiver envolvida, será o fim dela. Ah! Outra coisa: se algo me acontecer, um amigo meu continuará minha missão. Ele sabe de tudo e tem cópias das fotos e das imagens. Portanto, não tente enveredar pela violência, que não dará certo.

      → Violência? Violência? Eu... eu... S-Sou um homem de Deus. Eu nun…

      → Até amanhã… seu babaca!

      Saiu do carro, bufando, tentando controlar a raiva. Uma vez no Uno, notou que suas mãos tremiam. O coração aos pulos!

      "Gay desgraçado! Babaca! Lixo! Vou te pegar! Ah, se vou! Você não me escapará!"

      De volta à calma, respirou fundo, ligou o carro e saiu dali.

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