LOGIN— Novata. -- Kimberly me chamou com um tom rude. Olhei para ela, como um soldado olhava para seu comandante. — Senhor Windergard quer conhecê-la.
Luana me olhou com pena. Como se eu tivesse indo para a forca.
E eu não fazia ideia.
Kimberly me puxou pelo ombro, me levando para algum lugar que eu não sabia qual era. Aos poucos nos aproximávamos de um grupo de homens. Todos mais velhos, exceto por um deles. Ele era loiro, jovem e bonito.
Torci para que fosse ele o tal senhor.
E era.
— Senhor, essa é nossa novata, Lilith. — Lilith até onde eu sabia era algum tipo de demônio sexual.
Porque me chamavam assim?
Eu era praticamente virgem. Não entendia muito de relações com homens .na verdade quase nada.
— Linda, Kim. Obrigado. — Então o homem me pegou pela cintura, me tirando do tumulto. Não sabia exatamente para onde ele estava me levando, mas eu sei que ele me levava para o estacionamento, porque pegamos o elevador.
Durante todo o trajeto ele não disse nada.
Até de fato chegarmos numa BMW que estava estacionada.
Achei que ele dirigiria, mas havia um motorista no banco da frente.
Senhor Windergard abriu a porta pra mim. Entrei sem entender nada, esperando que ele me explicasse alguma coisa, porém passamos o percurso em silencio, enquanto ele admirava a paisagem local eu surtava por dentro.
Claramente eu havia assisitido Verdades Secretas e sabia do que se tratava, mas na novela eles explicavam pra Angel o que estava acontecendo, no meu caso parecia mais tráfico humano.
Não vou negar que ele era um belo de um homem, e jovem ainda por cima.
Esperava que ele fosse o cliente, não mais um aliciador.
Eu ficaria realmente frustrada em transar com um velho.
Naquele momento eu percebi que havia me entregue a ideia, afinal o que eu ia fazer? Me jogar do carro em movimento? Sem chance.
Nunca havia feito isso e pela velocidade parecia ser perigoso.
Poucos km dali, num hotel ainda mais de luxo onde ocorreu a festa, nós saímos do carro. Ele novamente abriu a porta do carro pra mim. Fomos andando pelo saguão até o elevador, tudo num silencio que acabava comigo. Subimos para o décimo terceiro andar, lá ele me pegou pelo braço, como se fossemos um casal. Ali já me aliviei um pouco, sabia que amanha amanheceria com o rim.
Parecia um programa mesmo.
Foi quando me lembrei, num lapso quase que desastroso, eu ainda era virgem.
E com certeza essa era a pior forma de perder a virgindade, por mais bonito que Senhor Windergard fosse.
Olhando bem para ele, devia ter uns 25 anos, provavelmente herdeiro, cabelos loiros, lisos, que caiam sobre o rosto dando um ar jovial, ele tinha lábios bonitos, me perguntei por um mero segundo se poderia beijá-lo.
Já que naquele momento eu era claramente uma prostituta, virgem! Me perguntava tantas coisas.
Ele passou o cartão na porta do apartamento, entrou, tirou o casco, pôs num cabide e sentou-se numa poltrona grande, mas não como aquelas de vó, algo mais chique.
Tudo ali era muito fino.
— Prazer, meu nome é Constatino Windergad. — Eu ainda estava parada igual um poste na porta. — Entra, fica com medo não.
Minhas mãos estavam unidas na frente do corpo. Dei dois passos a frente e fechei a porta atrás de mim.
— Assim tá bom?
Ele riu.
— Achei que fosse mais solta pelo nome que escolheu.
— Na verdade, não tenho a mínima ideia do que está acontecendo. — Sua expressão foi de dúvida sincera.
— Bom, pra começar eu sou estudante da USP, moro em cima de uma sex shop, minha locatária me apresentou um tal de Emerson e era pra eu ser só hostess. Até me apresentarem você e agora estamos aqui.
Ele fez uma expressão de choque.
— Talvez seja porque eu tenha pedido uma menina de 18 anos, não deviam ter.
— Provavelmente.
— Mas você não sabe porque tá aqui? — Ele questionou com a sobrancelha arqueada.
— Tenho uma mínima ideia. — Ele acenou positivamente com a cabeça e se ajeitou na cadeira.
— Vamos lá, eu sou herdeiro de um grande império metalúrgico. — Essa foi minha vez de acenar com a cabeça enquanto ia em direção a cama e sentava. Prestes a ouvir uma história. — Bom, eu invisto na startup do Emerson, mas ele não começou como um mago da tecnologia, ele começou como dono de uma “agência” — Ao dizer isso ele fez aspas com a mão — de modelos.
— Ah então eu faço parte de um cabaré de luxo?
— Isso.
— Por que não me avisaram? — Ah Lourdes ia ouvir MUITO amanhã.
— Medo de você não topar e acreditarem que quando me vissem por eu ser jovem, mudasse de ideia. — Fazia sentido. Mas era loucura.
— Constantino, eu sou virgem. — A expressão dele foi de surpresa.
— Nunca pagou nem um sexo oral? — Neguei com a cabeça.
— Passei para Medicina na USP, de primeira, você acha mesmo que eu era do tipo saidinha?
Ele fez uma expressão mexendo a cabeça para os lados, como se tivesse concordando.
— Ok, faz sentido. Nunca nem namorou então?
Neguei novamente com a cabeça.
— Caramba... — Ele passou um tempo pensando, eu ainda estava em posição tímida, contida. Pensando em mil e uma consequências do que eu havia acabado de dizer. Ele passava o dedo sobre o queixo, pensando e me olhando fixamente a ponto de me deixar ainda mais sem graça.
Depois de mais ou menos dois minutos falou:
— Tá, vamos fazer o seguinte, está com fome? — Acenei positivamente com a com a cabeça, ainda totalmente sem graça. — Vou pedir uma pizza no restaurante do hotel, a gente come, se conhece, e no final te faço uma proposta.
— Fechado. — Confesso que aqui meu estômago falou mais alto.
***
A pizza estava deliciosa, era uma marguerita. Ele disse que era a favorita dele, ainda mais naquele hotel. Realmente, desde que eu me mudei pra São Paulo a pizza de lá era diferenciada, mas colocar Ketchup era uma grandissíssima ofensa, o que pra mim que vim do Rio era algo meio estranho.
Constantino me contou sobre sua história, e principalmente porque tinha nome de idoso. Ele era Constantino III, naquele momento percebi que colocar “neto” no sobrenome do filho era coisa de pobre.
A família dele era rica há décadas, exceto pela família da mãe. A mãe era secretária do pai na sede administrativa da rede de metalúrgicas.
O pai se apaixonou e o resto era história, inclusive por pouco não rompeu com a família, aliás o nome dele foi um acordo de paz entre o pai e o avô. E ele era filho único, aquele era o 6º casamento do pai, as outras esposas eram burguesas.
— Sua vez. — Nesse momento estávamos deitados na cama, vestidos, bem a vontade, ele ter contado sua história me acalmou um pouco, mas fiquei chocada que era startup da Faria Lima, não uma marca de roupas que estava dando a festa.
— Bem, minha vida não é tão interessante quanto a sua. Sou filha de petroleiro, nasci e cresci em Rio das Ostras, Minha mãe é enfermeira de um hospital municipal, estudei em boas escolas porque a Petrobrás pagava meus estudos, além disso meu pai era gerente lá. Nunca namorei porque o cara que eu era interessada, preferia fazer bullying comigo e eu era meio obcecada nele, o que facilitava.
Nesse momento ele me parou com a mão.
— Espera aí, você sofria bullying? Linda desse jeito?
Fiquei completamente sem graça.
— Ah nem tanto... Não exagere.
— Por favor, Lilith.
— Sério. — Ele se atreveu a passar a mão no meu rosto. E o pior, eu gostei. — Quantos anos você tem afinal?
— 26.
— Uau. — Ele riu.
— Novinho para que tem um patrimônio de dois bilhões né? — Nessa hora eu fiquei em choque. Minha expressão deixou isso muito, muito, muito, claro.
— Já viu a última Forbes under 30? — Neguei com a cabeça, ele pegou o celular, claramente o último iphone do ano versão pro max. Deu um g****e e virou a tela pra mim.
Lá estava a cara da Forbes, sentado ao lado de outros bilionários, inclusive ele estava em segundo lugar.
— Nossa, mas metalúrgica dá tanto dinheiro assim? — Ele negou com a cabeça.
— Investimentos certeiros em startups, no mercado imobiliário, dentre outras coisas. E eu sou herdeiro né, tem a minha parte da metalúrgica que só soma.
— Nunca estive com um bilionário.
Ele riu alto. Provavelmente o mais próximo de ser rica que eu seria era sendo médica, chorando aí eu receberia uns 50 mil por mês, ele recebia milhões por semana. E digo mais, ele estava acostumado com playboys como ele.
— Agora que nos conhecemos, pode me dizer seu nome?
— O de verdade?
— Sim.
— Só depois da proposta.
Ele não estava romantizando o próprio sofrimento. Ele estava me escolhendo por inteira.Ele estava escolhendo perder algo que o mundo reconhece para preservar algo que não aparece em relatórios. E essa escolha, eu sabia, custava caro. Não apenas a ele, mas a nós dois.Mas também sabia outra coisa, talvez ainda mais incômoda: se ele aceitasse voltar inteiro apenas para o sistema, perderia algo que nenhuma restituição devolveria depois.E eu não estava disposta a assistir isso acontecer de novo.Olhei para ele com atenção renovada. Não como a mulher que o amava, mas como alguém que conhece o custo de cada escolha.— E o que você perde?A pergunta ficou suspensa entre nós por alguns segundos. Ele não respondeu de imediato. Não por cálculo estratégico, mas porque a resposta não cabia numa única palavra.Levantou-se. Caminhou até a janela da sala. A cidade se estendia abaixo como sempre: funcional, indiferente, cheia de vidas que não sabiam, e talvez nunca soubessem, que decisões silencios
A proposta chegou numa terça-feira sem qualquer marcação simbólica.Não era meu aniversário. Muito menos era início de trimestre, quando costumávamos a ter eventos. Não havia data redonda ou repetida, nem coincidência que pudesse ser lida como destino. Era uma terça comum, dessas que passam despercebidas até para quem vive atento. O tipo de dia que se escolhe quando não se quer criar memória, mas quando se quer parecer inevitável.O e-mail chegou cedo, ainda com a luz da manhã filtrada pelas cortinas do quarto. Eu acordei primeiro, como quase sempre. O silêncio ainda tinha cheiro de noite: lençóis mornos, ar parado, o ruído distante da cidade começando a se organizar. O celular de Constantino vibrou sobre o criado-mudo com um som curto, controlado, quase educado demais, não era como os telefones agudos e irritantes que tocavam em pontos de ônibus.Ele não se mexeu de imediato, estava sonolento. Não houve sobressalto de susto ao ser surpreendido, nem aquele reflexo automático de quem t
Havia curiosidade, além de um tom levemente sedutor na voz que ainda estava em tom baixo.— Onde você não colocaria dinheiro — esclareci, sustentando o olhar — mesmo que todos digam que é seguro.Ele desviou os olhos por um instante mínimo, como quem percorre mentalmente uma cartografia inteira antes de escolher um ponto exato. Depois voltou a me encarar.A frase saiu sem esforço, como algo repetido tantas vezes na cabeça dele que já não precisava ser lapidado. Não havia cinismo, nem orgulho. Era constatação. Uma dessas verdades que só se aprende depois de ver decisões importantes desaparecerem entre assinaturas demais.Assenti devagar. Não como quem concorda, mas como quem reconhece um mecanismo já observado por outros ângulos.— Porque ninguém responde por nada — completei. — Quando tudo é coletivo demais, o erro vira abstrato.Ele me observou por um segundo mais longo. Um desses instantes em que não se avalia a resposta, mas a origem dela. Um canto da boca se moveu, quase um sorris
O escritório não ficava na Faria Lima visível, aquela em que os prédios que competem por atenção e também dos restaurantes onde todos querem ser vistos frequentando. Ficava num recuo estratégico, alguns quarteirões afastados, alto o bastante para enxergar a cidade em amplitude, discreto o suficiente para não virar vitrine. Vidros amplos, mas tratados. Madeira escura. Poucos objetos. Nada ali era decorativo. Tudo tinha função, inclusive a calmaria que precedia o caos.Percebi isso no instante em que entrei.Não havia quadros motivacionais, nem livros expostos para impressionar visitantes ocasionais, nada cafona nesse nível. Os livros estavam guardados. O que se exibia ali não era repertório cultural, era capacidade de decisão. O tipo de lugar onde ninguém levanta a voz porque não precisa.Constantino não me recebeu com afeto. Recebeu com presença.A sala em que estávamos não era grande, mas era precisa em todos os aspectos. Uma vez que tudo ali parecia ter sido escolhido para não distr
A Mansão de Constantino não era ostensiva nem chamativa.Não havia portões monumentais, nem ostentação explícita, nem o tipo de arquitetura que implora para ser Instagramável. Ela se escondia atrás de um muro alto, contínuo, de linhas limpas, interrompido apenas por um portão de metal escuro eletrônico, onde um guarda que ficava numa guarita vigiava, a entrada ,que se abria em silêncio absoluto, sequer rangia, não chamava atenção. Poder de verdade não faz barulho.O bairro era um enclave discreto, desses que não aparecem em reportagens imobiliárias porque não precisam. Ruas largas, árvores antigas, iluminação baixa. Casas afastadas umas das outras, como se cada uma tivesse negociado previamente o direito ao silêncio. Ali, ninguém observava a vida alheia por curiosidade. Observava por hábito.Quando o carro entrou, o caminho até a casa principal se revelou lentamente. Um trajeto de pedras claras, perfeitamente alinhadas, margeado por jardins geométricos demais para parecerem naturais.
Me forcei a voltar à faculdade depois de semanas e foi uma experiência mais estranha do que eu esperava.Não porque algo tivesse mudado, mas porque nada havia mudado.O prédio da Medicina permanecia igual: concreto claro, corredores longos, o cheiro persistente de café requentado misturado a álcool em gel e formol. As pessoas também. Mesmas andanças pelo corredor, mesmas piadas baixas, a mesma urgência artificial de quem corre para não atrasar o próprio lugar na fila.Alguns olhares me localizaram de imediato, como quem reconhece um rosto que já não pertencia ao lugar que um dia foi rotina. Outros desviaram com pressa calculada, fingindo concentração em slides e cadernos, um teatro social muito bem ensaiado. Os cochichos surgiram logo depois, não agressivos, as pessoas ali não costumavam a ser hostis. Mas pior do que isso pra mim, estavam curiosos demais, carreando um cuidado que beirava a obsessão. Aquela curiosidade que se disfarça de preocupação para não assumir invasão.“Você sumi







