Share

Capítulo 4

Author: Cláu
last update publish date: 2026-09-19 21:41:58

O silêncio caiu sobre a floresta como uma maldição, nem o mesmo vento ousava soprar.

Meu corpo inteiro ficou rígido enquanto aquela voz ecoava entre as árvores escuras. Havia algo profundamente errado nela, não era alta. Não era monstruosa como os rugidos de Kael. Pelo contrário, era calma, controlada.

E talvez fosse exatamente isso que a tornava tão assustadora, porque monstros que gritam podem perder o controle, mas monstros silenciosos não.

Meu coração começou a bater mais rápido quando percebi uma coisa terrível, até Kael parecia muito tenso.

A mão dele ainda tocava meu rosto, quente e enorme contra minha pele fria pela chuva, mas os dedos endureceram instantaneamente.

Os olhos dourados fixaram-se além de mim, mortais, predatórios.

Lentamente virei a cabeça, e o vi.

Uma figura masculina surgiu entre as árvores como se a própria escuridão estivesse abrindo espaço para sua passagem. Ele usava um sobretudo negro longo que se misturava perfeitamente à noite, e seus passos eram lentos, quase elegantes demais para alguém caminhando em meio à lama e sangue.

Mas não foi isso que me fez prender a respiração, foram os olhos prateados, não cinzentos, prateados. Brilhando na escuridão como lâminas frias.

Um arrepio percorreu minha espinha inteira. Os guerreiros começaram a recuar ainda mais, Theron parecia prestes a desmaiar.

E então percebi outra coisa, os anciões tinham medo dele, não respeito.

Medo.

O homem finalmente parou a poucos metros de nós.

A chuva já havia cessado completamente, mas gotas continuavam escorrendo dos galhos acima de nossas cabeças. O cheiro metálico de sangue ainda dominava o ar.

Os olhos prateados vieram diretamente para mim, meu coração disparou.

Era estranho, errado, porque no instante em que ele me olhou senti algo me observando de volta.

Como se aqueles olhos enxergassem muito além do meu rosto, muito além da minha pele.

Kael deu um passo à frente imediatamente, me colocando parcialmente atrás dele.

O homem sorriu de leve.

— Então é verdade.

A voz dele era suave, bonita até.

Mas meu corpo inteiro rejeitou aquele som instantaneamente.

Kael rosnou baixo, o homem ignorou e continuou olhando apenas para mim.

— Você se parece com ela.

Meu estômago apertou.

— Com quem? — perguntei antes que pudesse me impedir.

O sorriso dele aumentou minimamente, mas não alcançou os olhos.

Nunca alcançava.

— Sua mãe.

Meu sangue gelou.

Kael endureceu imediatamente.

— Não fala dela.

O homem finalmente desviou os olhos para Kael, e alguma coisa no ar mudou.

Ficou mais pesada, mais sufocante.

Os olhos prateados analisaram Kael lentamente, como se estivesse observando um animal raro.

— Você sobreviveu por mais tempo do que imaginei.

As sombras voltaram a vibrar discretamente na pele de Kael.

Meu coração disparou.

— Quem é você? — perguntei.

O homem voltou a me encarar.

E vi algo próximo de interesse real em sua expressão.

— Meu nome é Lucien.

O nome pareceu percorrer a floresta inteira.

Theron fechou os olhos imediatamente, como alguém ouvindo uma sentença de morte.

Meu desconforto aumentou.

Lucien.

Eu nunca tinha ouvido aquele nome antes, mas alguma coisa dentro de mim reagiu. Uma sensação estranha, quase como reconhecimento.

Kael percebeu, seu corpo inteiro ficou ainda mais rígido.

— Não olha pra ele — disse sem tirar os olhos do homem.

Franzi a testa.

— O quê?

Lucien soltou uma pequena risada, baixa, divertida.

— Ela realmente não sabe de nada.

Kael avançou um passo, as sombras ao redor dele estremeceram violentamente.

— Eu disse pra você ficar longe dela.

Lucien inclinou levemente a cabeça.

— E eu ignorei.

O ar pareceu congelar entre os dois, meu coração acelerou ainda mais.

Havia história ali, uma história pelos vistos muito ruim.

Lucien então voltou os olhos para mim outra vez.

— Você herdou os olhos da sua mãe.

Meu peito apertou imediatamente.

Minha mãe, quase ninguém falava dela na alcateia.

Era como se sua existência tivesse sido apagada junto com sua morte.

As poucas lembranças que eu tinha eram vagas demais, um perfume suave, uma voz cantando baixinho, dedos acariciando meu cabelo quando eu era pequena.

Nada mais.

— Você a conheceu? — perguntei.

Kael virou o rosto rapidamente na minha direção, mas já era tarde.

Lucien sorriu outra vez.

Dessa vez havia algo cruel naquele sorriso.

— Muito bem.

O silêncio caiu, então percebi.

Kael estava furioso.

Não, frioso não era suficiente, ele parecia pronto para matar.

As sombras negras começaram a subir novamente por seus braços.

Lucien observou aquilo calmamente, quase interessado.

— Fascinante — murmurou. — O vínculo realmente estabiliza a corrupção.

Meu corpo inteiro arrepiou.

Corrupção?

Kael rosnou.

— Cala a boca.

Lucien ignorou completamente.

— Você faz ideia do que significa, Selene?

Engoli em seco.

Parte de mim não queria ouvir, mas outra parte precisava desesperadamente de respostas.

— Significa o quê?

Kael virou-se rapidamente.

— Não responde ele.

Lucien soltou outra risada baixa.

— Ele ainda acha que consegue esconder a verdade de você.

— Que verdade?! — explodi finalmente. — Pelo amor da deusa, alguém pode parar de falar em enigmas?!

Minha voz ecoou pela floresta.

Silêncio.

Até os guerreiros pareciam prender a respiração, Lucien me observou durante alguns segundos, longos demais, então falou.

— Kael está morrendo.

O mundo parou, senti o sangue desaparecer do meu rosto imediatamente.

— O quê…?

Kael fechou os olhos com força, como alguém exausto. Como alguém que sabia que aquilo aconteceria cedo ou tarde.

Lucien deu um passo lento na nossa direção.

— A corrupção dentro dele já deveria ter consumido completamente sua alma há anos.

Meu coração começou a bater tão forte que mal conseguia ouvir o resto.

Não.

Não.

Não.

— Isso é mentira — falei imediatamente.

Mas minha voz saiu fraca, insegura, porque alguma coisa dentro de mim já sabia.

Todos aqueles anos, a dor dele, o isolamento.

Os olhos cheios de sofrimento, a maneira como evitava contato, como parecia constantemente lutando contra si mesmo.

Meu Deus.

Lucien continuou:

— Sombras da Lua não sobrevivem por muito tempo. Quanto mais poder usam, mais rápido perdem a própria humanidade.

Olhei imediatamente para Kael.

Ele não negou.

Aquilo destruiu alguma coisa dentro de mim.

— Então por que ele ainda está vivo? — perguntei quase sem voz.

Os olhos prateados vieram lentamente para mim.

— Você.

Silêncio.

Meu coração falhou uma batida.

Lucien apontou discretamente para o lugar onde Kael ainda segurava meu braço.

— O vínculo estabiliza a corrupção dentro dele, sua presença impede que a escuridão o consuma completamente.

As peças começaram a se encaixar rápido demais, meu estômago revirou.

Foi por isso.

Foi por isso que Kael nunca conseguia ficar totalmente longe de mim, porque eu o mantinha vivo.

A dor atravessou meu peito brutalmente, todos aqueles anos ele estava tentando sobreviver sozinho.

Kael finalmente abriu os olhos e o jeito como me encarou quase me destruiu.

Havia culpa ali, tanta culpa...

— Selene…

Mas eu mal conseguia respirar, as lágrimas começaram a arder nos meus olhos, porque agora eu entendia o verdadeiro motivo do sofrimento dele.

Ele não fugia apenas do vínculo, fugia do medo de me arrastar para sua destruição.

Lucien observava tudo em silêncio, como se estivesse esperando exatamente aquela reação.

Então sorriu de leve.

— O problema é que isso não vai durar.

Meu coração disparou novamente, Kael rosnou violento.

Mas Lucien continuou:

— O vínculo ainda é incompleto, quanto mais forte ele ficar, mais a corrupção vai exigir dela também.

Meu corpo inteiro gelou.

— O que isso significa?

Lucien me encarou diretamente.

— Significa que a escuridão dentro dele eventualmente começará a consumir você.

Silêncio absoluto.

Meu cérebro recusou-se a processar aquilo.

Não.

Não podia ser.

Kael deu um passo brusco à frente, as sombras explodiram ao redor dele.

— Eu vou arrancar sua garganta.

Lucien apenas inclinou levemente a cabeça.

— Viu? É exatamente disso que estou falando.

Meu coração apertou violentamente, Kael tremia, não de medo, de raiva e desespero.

E pela primeira vez desde o início daquela noite… percebi algo terrível, ele acreditava em cada palavra.

Theron finalmente criou coragem para falar novamente.

— Precisamos levá-la antes que seja tarde.

Kael virou-se tão rápido que o ancião recuou imediatamente.

Os olhos dele estavam quase negros outra vez.

— Toca nela e eu destruo todos vocês.

O poder naquela voz fez até minhas pernas enfraquecerem, Lucien observava tudo calmamente.

Como se nada ali fosse surpresa, então seus olhos vieram até mim mais uma vez.

— Você realmente não se lembra de nada, lembra?

Franzi a testa.

— Do que está falando?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos pensativo.

Então perguntou:

— Você nunca sonhou com fogo?

Meu corpo inteiro congelou. A pergunta atingiu algo profundo dentro de mim, porque sim. Eu sonhava desde criança somhos estranhos, sempre iguais.

Uma floresta queimando, lua vermelha, sangue e uma voz masculina me chamando no escuro.

Nunca contei aquilo para ninguém.

Nunca.

Meu coração começou a bater ainda mais rápido, Lucien percebeu imediatamente.

O sorriso dele desapareceu.

— Então começou.

Kael avançou antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, dessa vez o chão realmente tremeu.

Lucien desviou facilmente, rápido demais.

Meu corpo inteiro arrepiou.

Kael atacou novamente.

E Lucien simplesmente segurou seu braço no ar, como se não fosse nada.

Meu Deus.

Meu Deus.

Os olhos de Kael ficaram completamente negros outra vez, as sombras explodiram, mas Lucien continuava imóvel.

Calmo.

Quase entediado.

— Você ainda está fraco — murmurou.

Então empurrou Kael, apenas isso, um único movimento. Mas Kael foi lançado violentamente contra as árvores.

O impacto destruiu dois troncos enormes.

Meu grito escapou antes que eu pudesse impedir.

Corri imediatamente na direção dele.

— Kael!

As sombras ao redor de Lucien desapareceram lentamente enquanto ele me observava.

— Interessante.

Ignorei completamente.

Kael tentava levantar entre os destroços das árvores quebradas, sangue escorria pelo canto da boca dele agora.

Meu peito apertou brutalmente, ajoelhei-me ao lado dele sem pensar e no instante em que toquei seu rosto…

O vínculo reagiu novamente, violento, quente. As sombras começaram imediatamente a recuar da pele dele.

Kael fechou os olhos, uma respiração pesada escapou de seus lábios.

Alívio.

Meu coração despedaçou, porque ele parecia exausto.

Cansado de um jeito que eu nunca tinha percebido antes. Os olhos dourados abriram lentamente, fixos em mim. E naquele instante todo o resto desapareceu, a floresta, a chuva, os guerreiros, Lucien, nada existia além daquele olhar.

Havia tanta coisa ali, dor, desejo, medo e algo ainda pior.

Algo que eu estava começando a sentir também, Kael ergueu lentamente a mão até meu rosto, os dedos tocaram minha pele com cuidado absurdo.

E então ele sussurrou:

— Você precisa fugir de mim.

Meu coração se partiu completamente porque u não queria.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • És o Meu Destino    Capítulo 9

    — Minha filha voltou para casa.A voz atravessou a montanha e chegou até nós com uma clareza impossível. Não era uma voz distante, não parecia ter vindo da aldeia abaixo. Era como se tivesse sido pronunciada dentro da minha própria cabeça.Fiquei paralisada.A mulher continuava diante da casa de Alaric.O vestido branco movia-se suavemente com o vento. Os cabelos dourados caíam sobre os ombros, exatamente como eu me lembrava dos retratos que tinha visto escondida quando era criança. O rosto era delicado, quase sereno, e os olhos tinham aquele mesmo azul luminoso que eu carregava.Não podia ser outra pessoa.Era ela.Era Lyanna.Minha mãe.A mulher que todos disseram ter morrido quando eu nasci. A mulher cujo túmulo eu nunca tinha visitado porque Alaric sempre dizia que os restos dela tinham sido enterrados longe de Black Moon.A mulher que eu tinha passado dezoito anos imaginando apenas através

  • És o Meu Destino    Capítulo 8

    — Filha.A palavra atravessou o templo como um sopro vindo de um lugar que não pertencia ao mundo dos vivos.Fiquei imóvel.Kael apertou a minha mão.O contacto deveria ter-me tranquilizado, mas naquele momento até a presença dele parecia distante. Eu só conseguia olhar para o chão onde Darius tinha desaparecido. A rachadura havia fechado completamente. Não havia sangue, marcas ou qualquer vestígio de que alguém tivesse sido arrastado para dentro dela.Nada.Apenas as pedras negras e o símbolo circular que continuava brilhando sob os nossos pés.— O que foi isso? — perguntei.Ninguém respondeu.Olhei para Lucien, ele estava pálido. Foi a primeira vez que o vi realmente assustado, não preocupado, não surpreso.Assustado.— Lucien?Ele não tirava os olhos do chão.— Não deveria ter acontecido.Kael soltou a minha mão e aproximou-se dele.— O que não deveria ter acontecido?Lucien continuou em silêncio.— Responda.— Ela não deveria ter chamado por Selene.— Quem?Lucien levantou lentame

  • És o Meu Destino    Capítulo 7

    O mundo desapareceu debaixo dos meus pés. Não houve tempo para gritar, correr ou sequer procurar Kael. Num segundo, eu estava diante dele, vendo o sangue escuro escorrer pelo seu peito e as sombras se espalharem pelo chão como criaturas vivas, no seguinte, uma explosão de luz e escuridão atravessou a floresta inteira, tão violenta que senti o meu corpo ser arrancado do lugar. Árvores foram partidas ao meio, pedras levantaram-se do chão e o ar pareceu rasgar-se ao nosso redor. Ouvi vozes, ouvi alguém chamar o meu nome, ouvi Kael gritar alguma coisa que não consegui entender, mas tudo ficou distante, como se eu estivesse afundando num lago profundo. Tentei estender a mão na direção dele. Os meus dedos encontraram apenas o vazio. Então veio o silêncio. Um silêncio tão absoluto que, durante alguns segundos, não soube se ainda estava viva. Abri os olhos devagar, o céu estava diferente. Não havia árvores acima de mim, nem a lua de sangue, nem as nuvens pesadas que cobriam Black Moon na

  • És o Meu Destino    Capítulo 6

    Meu coração disparou tão forte que chegou a doer.O vento voltou a soprar violentamente entre as árvores enquanto aqueles homens permaneciam diante de nós como sombras vivas saídas de algum pesadelo. Todos eram altos, vestidos inteiramente de preto, com olhos negros iguais aos de Kael quando perdia o controle da corrupção. Mas havia uma diferença, os olhos deles não pareciam lutar contra a escuridão, pareciam aceitá-la. Meu corpo inteiro arrepiou.Kael deu um passo à frente imediatamente, posicionando-se completamente diante de mim. As sombras negras subiam lentamente por seus braços outra vez, vibrando como fumaça viva ao redor do corpo dele.Os homens sorriram, como se aquilo os divertisse.O que estava à frente inclinou levemente a cabeça ao observar Kael.— Faz anos desde a última vez que vi um descendente puro da linhagem Valemont.A voz dele era grave e estranhamente calma, perigosa.Kael não respondeu.Os músculos do maxilar dele estavam rígidos demais.Lucien permanecia imóvel

  • És o Meu Destino    Capítulo 5

    Eu deveria ter me afastado, talvez qualquer pessoa normal teria feito isso.Talvez qualquer garota sensata teria corrido no instante em que Kael disse aquelas palavras, no instante em que Lucien revelou que a escuridão dentro dele poderia me destruir também. Talvez eu devesse estar apavorada com tudo aquilo, com o vínculo, com a profecia, com o monstro escondido sob a pele do homem que passei a vida inteira tentando entender, mas eu não conseguia sair dali.Porque Kael estava olhando para mim como alguém prestes a perder a única coisa que ainda o mantinha vivo, e aquilo destruiu qualquer força que eu tinha para ir embora.A chuva havia parado completamente agora. Restava apenas o cheiro de terra molhada, sangue e madeira quebrada espalhado pela floresta escura. Os guerreiros permaneciam afastados, tensos, assustados demais para se aproximarem novamente. Theron observava tudo com os olhos estreitos, claramente tentando decidir qual seria seu próximo movimento.Mas naquele momento, nada

  • És o Meu Destino    Capítulo 4

    O silêncio caiu sobre a floresta como uma maldição, nem o mesmo vento ousava soprar.Meu corpo inteiro ficou rígido enquanto aquela voz ecoava entre as árvores escuras. Havia algo profundamente errado nela, não era alta. Não era monstruosa como os rugidos de Kael. Pelo contrário, era calma, controlada.E talvez fosse exatamente isso que a tornava tão assustadora, porque monstros que gritam podem perder o controle, mas monstros silenciosos não.Meu coração começou a bater mais rápido quando percebi uma coisa terrível, até Kael parecia muito tenso.A mão dele ainda tocava meu rosto, quente e enorme contra minha pele fria pela chuva, mas os dedos endureceram instantaneamente.Os olhos dourados fixaram-se além de mim, mortais, predatórios.Lentamente virei a cabeça, e o vi.Uma figura masculina surgiu entre as árvores como se a própria escuridão estivesse abrindo espaço para sua passagem. Ele usava um sobretudo negro longo que se misturava perfeitamente à noite, e seus passos eram lentos,

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status