Porca Glamourosa
No dia da audiência, o juiz fez as perguntas de praxe.
— Vocês estão casados há apenas três anos. Têm certeza de que a relação chegou ao fim?
Esbocei um sorriso amargo, tirei a aliança e a coloquei sobre a mesa.
— Estamos casados há três anos e separados há três anos. Meritíssimo, ainda pode existir algum sentimento entre nós?
Durante os cinco anos de namoro, nossa conversa sempre esteve fixada no topo do WhatsApp dele. Eu era seu contato de emergência. Eu era até a beneficiária do seguro de vida.
Achei que tivesse amado o homem certo. Mas, no dia do nosso casamento, ele recebeu uma ligação e, no mesmo instante, seu rosto ficou pálido.
Perguntei o que tinha acontecido. Ele apenas disse que a mãe estava doente, largou tudo e comprou imediatamente uma passagem de avião para sua cidade natal.
Nos três anos seguintes, ele me mandou, todos os dias, fotos de todas as refeições do dia. Mas a mãe dele nunca apareceu em nenhuma delas.
Com pena dele, eu disse que ia pedir demissão para ir ajudá-lo a cuidar da mãe.
Ele, porém, respondeu com ternura: "Não tenho coragem de fazer isso com você."
Até que, um mês atrás, encontrei o perfil de uma influenciadora que compartilhava sua luta contra o câncer.
Francisco Ribeiro aparecia nos vlogs dela, acompanhado de legendas repletas de carinho.
[Quando acordo, ele está comigo.]
[Nas três refeições do dia, ele está comigo.]
[E a mão entrelaçada à minha, é a dele também.]
"E eu?"
Ao longo de 1.095 dias e noites, só tive a mim mesma. Ele mentiu para mim.
O juiz fez a última pergunta:
— Tem certeza disso?
Assenti com firmeza.
Quando a dissolução do casamento foi declarada, encarei a sentença de divórcio, e as lágrimas transbordaram.
Francisco, eu liberto você. E liberto a mim também.