Nuvemzinha
Antes mesmo de a festa de aniversário começar, Francisco Amaral espelhou a tela do celular no telão da sala onde todos estavam reunidos. Em seguida, criou uma enquete anônima no grupo de amigos.
A pergunta era: [Hoje à noite, devo ficar com minha namorada Cristina para cortar o bolo ou ir à estreia do filme com Amanda?]
A contagem regressiva de trinta segundos começou, e os votos não paravam de chegar.
[Amanda: 17 votos]
[Cristina: 1 voto]
Todos acharam que aquele único voto tinha sido meu. Francisco, recostado no sofá, sorriu ao ver o resultado.
— A maioria decide.
Amanda Pereira logo colocou o ingresso de Francisco na mão dele.
— Está vendo? Até o pessoal acha que eu preciso mais de você.
Eu estava parada diante do bolo, com as velas ainda apagadas, usando meu vestido favorito. Alguém assobiou na sala.
— Cristina, saiba perder.
Afinal, Francisco já usava enquetes para decidir tudo havia três anos. Quando brigávamos, uma votação decidia quem pediria desculpas primeiro. Quando saíamos juntos, os votos decidiam com quem ele andaria de mãos dadas.
Até quando eu perguntava se ele me amava, Francisco fazia questão de levar a pergunta para o grupo.
— Deixa o pessoal dizer quem tem razão.
Por muito tempo, acreditei que bastava ganhar uma única vez para que ele finalmente ficasse do meu lado, sem hesitar.
Mas eu nunca tinha ganhado. E naquela noite não foi diferente.
Francisco se levantou para pegar o casaco e, ao passar por mim, acariciou meus cabelos com a maior naturalidade.
— Seja boazinha. Quando eu voltar, vou dar um jeito de te compensar por isso.
Olhei para o resultado da enquete no telão e bloqueei o celular. Então estendi a faca de cortar o bolo para ele.
— Não precisa compensar nada, Francisco. Não vou mais participar dessas votações.