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Capítulo 32 - Transmissão real

last update Data de publicação: 2021-06-24 03:57:25

Os próximos dias não foram fáceis. Eu acordava às 6 horas da manhã e precisava me organizar entre: cuidar da casa, do meu pai, largar currículo nos poucos lugares que eu não havia entregado ainda, ir ao hospital me revezar com minha mãe e meu irmão nos cuidados de Leon.

Na quarta-feira, quando cheguei em casa muito cansada, depois de comer o pouco que havia na geladeira, peguei meu celular e liguei para “Traidor: nunca atender”.

- Como está seu irmão? – foi a frase que ouvi do outro lado.

- Boa noite, Dereck... Ele está melhorando.

- Fico feliz por vocês.

- Eu estou ligando para agradecer pelo que você fez. Foi um gesto de preocupação com o próximo.

- Eu tento ajudar quando posso, Katrina. Nem sempre consigo, este é o problema.

- Eu sei... Desculpe se fui rude algumas vezes. Mas não tenho passado por bons momentos. Tem sido tudo muito difícil.

- Eu entendo. Também tenho tido meus problemas. Por isso não consegui fazer mais por você dentro do castelo.

- Um príncipe com problemas? – eu tentei não ser irônica, mas acho que não consegui.

- Pois bem, a realeza tem problemas... Muitos. E pode acreditar, são tão iguais ou piores que os seus.

- Você não entende o que é ter o seu irmão correndo risco de vida ou morte.

- Eu entendo sim, muito mais do que você imagina.

- Dereck, eu estou falando sobre vida, entende?

- Eu entendo...

- Eu... Gostaria de agradecer. Só isso.

- Como eu falei, este gesto de ajudar não é só à você que eu faço. Tento intervir nas mais diferentes zonas da forma como eu consigo. Tenho pessoas que confio em todas elas.

- Quer mesmo falar sobre isso comigo por telefone?

- Esta linha é segura. – ele garantiu.

- Isso quer dizer que você tem pessoas que trabalham para você em todas as zonas?

- Mais ou menos isso.

- Dereck, como eu gostaria de entender você.

- Não precisa me entender, Katrina. Só precisa confiar em mim.

- Eu não consigo fazer isso... Sinto muito.

- O tempo vai fazer com que você confie... Ou não. Estou conseguindo fazer algumas coisas nos últimos dias. Estou orgulhoso do que fiz com Magnus.

- Com Magnus?

- Sim... Acho que meu irmão está abrindo os olhos também.

- Eu nunca vou entender o que você queria comigo dentro do castelo.

- Eu já expliquei.

- E no fim acho que isso me prejudicou, não é mesmo?

- Talvez... – ele disse. – Eu ainda não desisti.

Eu ri:

- Como você consegue dizer isso? A nova dama de companhia já não assumiu seu papel no castelo?

- Está preste a assumir. – admitiu ele.

Dei de ombros. Eu não queria mais ter esperanças. Minha vida estava virada de cabeça para baixo e não era momento de falar sobre coisas que não me levariam a nada. Havia sido bom conhecer Dereck e saber que ele tinha um pensamento diferente da mãe. Talvez o irmão também fosse por este caminho, embora eu tivesse falado pouco com ele. Mas eu não queria mais me envolver com a realeza. Ficar longe deles era o melhor a fazer.

- Obrigada por tudo, Alteza. – eu disse, desligando o telefone.

Depois apaguei o contato de “Traidor: nunca atender”. E assim eu queria também apagar o príncipe Dereck e o momento em que ele entrou na minha vida de alguma forma. Eu pensei que poderia, mesmo sendo chantageada por ele, de alguma forma mudar o reino. No entanto tudo naquele momento parecia pequeno e difícil. Eu já nem tinha certeza se as reuniões anti monarquia realmente surtiam algum efeito ou se era somente um lugar onde podíamos nos reunir e lamentar a vida triste que vivíamos. Infelizmente eu não tinha mais tempo para príncipes, castelos, reuniões secretas ou máscaras que mal escondiam nosso rosto. Eu só precisava de um emprego para poder alimentar a mim e minha família. No fim, tudo que eu teria era Léo. Caso contrário eu teria que entrar no Baile de Casamento, sendo rifada a algum idiota.

O sonho de um mundo melhor havia acabado. Minhas esperanças já não existiam mais. Aos meus dezenove anos, com a geladeira vazia, um pai viciado e doente na cama, um irmão no hospital se recuperando de um grave acidente, uma mãe que estava ausente, pois só tinha tempo para ele e um irmão que jamais me ajudaria de forma alguma, eu percebi que a vida era diferente do que eu pensava e do que eu queria. Estava na hora de crescer.

E Dom? Havia sido somente um beijo. Para mim tinha tido muita importância. Mas ele era médico. Eu nem sabia de que zona ele era. O que ele pensaria de mim quando soubesse que eu era a responsável por minha família? Acho que de alguma forma ele já sabia o que se passava comigo e na minha vida. Mas ao final, como ele mesmo dissera: você tem muitas pessoas a agradecer. Isso deixava claro o que ele pensava de mim. Aquele era o fim da revolucionária Katrina Lee.

Liguei para Kim.

- Kat, tudo bem?

- Kim... Eu cansei. Tentei de todas as formas arrumar um emprego. O aluguel está vencendo daqui há alguns dias. Minha geladeira está vazia. E...

- E... Pode haver algo pior?

- Eu acho que preciso trabalhar com você. Eu prometo tentar dar o meu melhor e aprender a maquiar, cortar, hidratar e tudo que precisar.

- Querida, eu sempre quis você aqui comigo. Não acho que você vá ganhar muito dinheiro, nem tanto quanto precisa para pagar o seu aluguel. Mas consegue comprar algo para você, seu pai e sua mãe comerem.

- Minha mãe está recebendo o melhor tratamento junto de Leon no hospital. Sem custos. Dereck cuidou de tudo.

- Querido...

- Não. Isso acabou, Kim. Eu não quero mais saber de príncipes, de realeza, de encontros noturnos que eu possa ser ferida. Eu sou a responsável pela minha família. Eu não posso mais ser esta pessoa.

- Como assim, Kat?

- Eu... Explicarei melhor. No momento, só quero que evite falar de Dereck, Dom ou tudo que envolve outras pessoas a não ser eu ou minha família.

- Como você quiser, Baby.

- Posso começar amanhã?

- Claro que sim. Estarei na aula pela manhã, mas você pode vir igual. Pegue a chave com minha mãe e comece limpando tudo. Quando eu chegar, já começamos.

- Obrigada, amigo. Por sempre estar comigo.

- Para isso somos amigos... Para nos ajudarmos, Kat.

Fui ver meu pai que já estava dormindo. Sentei no sofá e liguei para minha mãe, dizendo que trabalharia com Kim, pois não poderia esperar mais. Eu precisava de dinheiro e ela sabia. Ela também se preocupava como pagaríamos o aluguel. Por isso ela decidiu que falaria com o proprietário e tentaria pedir mais tempo. Por um breve momento eu entendi como Kevin se sentia com relação ao meu pai. Mas tentei afastar qualquer culpa ou mágoa com relação a ele. Meu telefone tocou e olhei para o nome de Léo. Respirei fundo e atendi:

- Oi, Léo.

- Kat, ligue a televisão agora.

- Por quê?

- Ligue.

Ele desligou o telefone e eu liguei a televisão, conforme ele havia pedido. Era uma transmissão real. Dizia que Joana Pallucci havia sido assassinada. Senti um dor no meu coração. Eu não acreditava no que estava ouvindo. Quem teria feito aquilo? Pensei imediatamente em Dom e no que ele havia me garantido: que eu seria a dama de companhia da rainha. Teria ele mandado matar aquela garota? Ou pior, teria ele matado com as próprias mãos Joana Pallucci? Ou teria sido Dereck? O certo é que dizia ali que a família real estava muito triste pelo assassinato da garota. E fariam o possível para encontrar o culpado. Passada aquela notícia direto do castelo, transmitida em todos os canais do reino ao mesmo tempo, mas ainda não passado meu susto e minha angústia, o jornal local noticiava que Joana Pallucci pertencia à Zona B e não à Zona D, como havia sido divulgado pela rainha.

A bomba havia sido jogada. Mais uma vez a rainha Anne mentia para todos. Fingiu contratar uma dama de companhia da D para tentar agradar ao povo e tentar fazer com que as rebeliões diminuíssem. No entanto era uma B, da Zona que ela protegia e cuidava diferente das demais. Que ela só tinha olhos para a minoria da A e B todos sabiam. Mas que mentiria em rede nacional havia sido surpresa e decepção para todos.

Depois daquela notícia desliguei meu telefone. Sabia que Kim, minha mãe, Léo e meu irmão me ligariam. Talvez até Dereck. Eu não queria falar com mais ninguém. Estava ainda chocada e tentando entender tudo que havia acontecido. Deitei na minha cama e fechei os olhos. Ainda sentia algo com relação a Dom que eu não conseguia entender e temia que ele tivesse sido responsável pela morte da jovem garota.

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