FAZER LOGINQuando os portões do castelo se abriram e eu entrei, mesmo dentro do carro e com a chuva intensa caindo lá fora, senti meu coração bater mais forte e uma sensação estranha e de medo invadindo meu corpo. Particularmente eu não gostava de chuva. E começar o primeiro dia daquele jeito me trazia uma ideia de má sorte. Sem contar o fato de que a primeira escolhida havia sido assassinada. Então não havia nenhuma previsão futura que me fizesse acreditar que aquilo daria certo. Mas eu não tinha como recusar. Minha família morreria de fome se eu não aceitasse aquele emprego, que era o sonho da maioria das mulheres do reino, menos o meu. Eu só queria o dinheiro que ele me proporcionaria. E queria ver de perto quem realmente era a rainha Anne Maria Chevalier, que eu odiava intensamente por todas as atrocidades que ela fazia com o reino. Ela não esperava que sua dama de companhia seria sua pior inimiga... E aquela que ajudaria na sua queda. E era esse meu maior objetivo ali: derrubar o reinado dela e ainda ganhar dinheiro para isso.
Respirei fundo e tentei afastar meus pensamentos quando o carro parou num estacionamento nos fundos do castelo. Dereck veio até mim, mas Magnus logo foi rodeado por alguns homens que o levaram imediatamente para dentro.
- Vai dar tudo certo. – ele disse. – Como eu lhe garanti.
- Dereck... Acho que devemos evitar nos falar aqui no castelo.
Ele riu:
- Não se preocupe com isso, Katrina. Você vai precisar de mim muitas vezes ainda aqui dentro. E eu estarei disponível.
Ele foi andando e eu disse:
- Alteza...
Ele parou e me encarou:
- Obrigada... Por tudo. – eu disse sinceramente.
Dereck não parecia se importar muito com o que falávamos na frente dos guardar. Mas também não era nada comprometedor. Ainda assim percebi que empregados ali não tinham olhos nem ouvidos. E não sei como conseguiam ser daquela maneira. Duvidava que quando chegassem em casa ao fim do dia ou da noite, não contassem com detalhes às suas famílias tudo que viam da realeza. E a notícia do dia era a jovem da Zona E que havia chegado naquele dia para cobrir a morte de Joana Pallucci. Todos os jornais noticiaram que Katrina Lee, da Zona E, era a nova dama da companhia da rainha Anne, enfatizando que todo o reino estava à procura do assassino de Joana, bem como o motivo que o levara a fazer aquilo.
Logo na entrada do castelo fui recebida por uma das mulheres de terno cinza, que realizavam de tudo um pouco lá dentro. Me levaram para um corredor estreito e comprido, com luz fraca e com portas por todos os lados. As paredes eram de pedras cinzas claras e o lugar era gélido. Eu senti um arrepio, não sei se do frio que estava ali, ou da sensação horrível que aquele lugar me trazia. Certamente no passado ali deviam ter sido as antigas masmorras.
- Aqui ficam os quartos dos empregados. – ela disse, me conduzindo ao final do corredor.
Eu ri ironicamente. Não poderia esperar mais, não é mesmo?
Ela abriu a penúltima porta cinza escuro, quase preta. Era pequeno, frio e escuro, mesmo com a lâmpada ligada.
- Não tem janela? – perguntei preocupada.
- Deste lado do corredor, não. – explicou ela.
- E se eu morrer por falta de ar? – perguntei.
- Há um exaustor de ar. Pode ligar sempre que quiser.
A cama era pequena, mas parecia confortável. Havia um pequeno armário, com lugar para algumas poucas coisas. Dentro dele três conjuntos de ternos cinza, compostos de saia e blazer e camisas brancas. Na parte de baixo, três scarpins pretos.
- Tudo exatamente do meu número. – observei.
- Sim.
Um pequeno banheiro com chuveiro, pia e sanitário tinha uma minúscula abertura para um lugar que não era a rua, pois não tinha pouca luz e eu só conseguia ver pedras através de um pequeno corredor vazio. Uma escrivaninha com cadeira e uma pequena mesa ao lado da cama com um banco. Aquilo era o que eu tinha na minha humilde privacidade.
- E... O que eu faço agora? – perguntei.
- Por enquanto, precisa se trocar. Espere que virão buscá-la para ir ao encontro de Lana Davis, a dama de Companhia da rainha.
- Bem, eu não sei se lhe disseram, mas eu também vou ser a dama de companhia da rainha. – expliquei.
- Se ela deixar... – disse a outra.
Eu percebi que minha trajetória não seria nada fácil. Sorri, fechei a porta e fiquei parada ali por alguns minutos. Minha vontade era sair daquele lugar correndo e nunca mais voltar. A parte sombria do castelo era a que eu ficaria. Se havia pior lugar que eu pudesse morar, desconhecia. E aquele conjunto cinza seria minha roupa pelos próximos dias, meses e anos. No máximo caberia uma camisola ou pijama ali dentro. E talvez eu nem precisasse, pois poderia dormir nua que ninguém perceberia. Eu era um fantasma, como todos ali. Seria mais uma garota de cinza andando sem olhos e ouvidos pelo castelo de Noriah. Isso se eu não fosse Katrina Lee. Pois eu não conseguia ser invisível, muito menos controlar minha língua, meus olhos ou meus ouvidos. Eu sonhava com um futuro breve onde aquele castelo seria aberto à visitação turística, para lembrar como um dia foi Noriah Sul e o último reinado dos Chevalier. Então todas as Zonas teriam hospitais com possibilidade de cirurgia. Não haveria bailes onde as mulheres eram vendidas por dinheiro a homens que não podia tê-las sem pagar. Seria um tempo onde todos teriam em suas mesas o que comer. E poderiam escolher seus empregos, pois haveria muitos e todos teriam boa remuneração. E as faculdades seriam imensas e qualquer pessoa poderia ter o conhecimento que elas proporcionavam. Não seria preciso escolher um filho para poder frequentá-la. E com melhores formações, todos teriam empregos dos sonhos para trabalharem.
Alguém bateu na porta, fazendo eu despertar dos meus pensamentos.
- Senhorita Lee, está pronta?
- Um minuto.
Eu não estava, mas em minutos troquei a roupa e estava exatamente como a mulher a minha frente. Ela me olhou com ar de reprovação e disse:
- Cabelos presos.
Peguei meus cabelos, enrolei com as mãos e fiz um coque solto. Ela continuou me olhando com ar de desaprovação, mas seguiu pelo corredor, sem sequer pedir para eu segui-la. Mas eu sabia que era exatamente aquilo que eu deveria fazer. Logo saímos do corredor das masmorras, que na verdade era dos empregados, e chegamos a um corredor com luz natural, embora pouca por causa do dia chuvoso. Andamos por vários lugares até chegarmos às escadas principais, subindo ao segundo andar. Chegando lá fui levada a uma sala enorme, com janelas por todos os lados, com algumas mesas de trabalho e muitas prateleiras com livros por todos os lugares. Havia também uma televisão moderna, rádio, computadores, telefones e... Lana Davis.
Ela levantou e veio até mim. Eu não conseguia identificar a idade exata dela, mas parecia mais velha que eu. Era alta, magra, negra, com cabelos extremamente cacheados que caíam pelos seus ombros. Os olhos castanhos amarronzados eram grandes e ela tinha dentes brancos, embora pouco pudessem ser vistos, pois eu nunca a vi sorrir. Acho que a intenção dela era passar medo mesmo. Mas se tinha uma coisa que eu não tinha medo era de mulher que servia de capacho para a rainha Anne. Pelo contrário... Eu tinha náusea. Era evidente que ela não estava satisfeita com a minha presença ali. E a própria rainha havia me dito que ela seria minha chefia imediata. Então eu sorri e disse:
- Olá, Lana Davis.
Eu poderia dizer: vamos ser amigas? Acho que ela poderia me dar um tiro se eu tivesse dito o que pensei.
- Senhorita Davis, por favor. Não somos amigas nem íntimas e não seremos. – observou ela.
- Pode me chamar de... Katrina. – eu disse. – Mesmo que não sejamos amigas nunca. Seremos colegas de trabalho, não?
- Eu não chamaria de colegas. Serei sua chefe e você minha subordinada. Entendeu?
- Esta parte sim. – eu disse. – Mas... Do resto eu não sei nada. O que exatamente vou fazer? – perguntei olhando para tudo ao meu redor atentamente.
Ela fechou a porta e sentou em sua enorme mesa. Não fez questão de me dizer nada e me deixou em pé onde eu estava.
- Eu posso escolher uma mesa? – perguntei.
- Pode.
Escolhi uma mesa grande com uma cadeira giratória confortável. Vi que ela me observava. Então perguntei:
- E agora?
- Agora sua vida como Katrina Lee acaba. Você será simplesmente a senhorita Lee, serva real da rainha Anne Marie Chevalier.
Eu senti um pouco de medo da forma como ela falou aquilo. Lana Davis era intimidadora. Eu era só uma garota, perdida dentro de um enorme castelo, com sonhos destruídos, sem conhecer ninguém ali dentro. Eu sabia que ela era a preferida da rainha. E eu não queria aquele título nunca na minha vida. Mas também não tinha como explicar para ela que eu não lhe oferecia perigo. Que eu estava ali apenas de passagem, para derrubar a monarquia.
- Não me olhe com esta cara assustada. – disse ela. – Você cuidará da parte burocrática: fazer a agenda da rainha numa tabela e depois me entregar, assim como lembrar-me de todos os compromissos dela. Revisar os compromissos com a imprensa. Trabalhamos com dois tipos de imprensa: a real e a aberta. A rainha Anne nunca dá entrevistas ou faz qualquer tipo de aparição na aberta.
- Eu... Sei... – expliquei.
- Me dê o seu celular. – ela disse.
- Eu... Deixei no quarto.
- Ok, vá até lá e busque-o.
Eu olhei para ela e percebi que Lana não estava brincando. Levantei e descia as escadas rapidamente, logo chegando na parte de baixo. Comecei a andar por vários lugares e vi em pouco tempo que estava perdida. Acho que ela sabia que aquilo aconteceria, por isso mesmo me mandou ali. Lana era uma pessoa horrível. Vi sons altos vindos uma enorme porta e abri. Lá estava eu na cozinha do castelo de Noriah. Aquele definitivamente não era o meu quarto. Passei meus olhos pelo lugar e logo comecei a atrair a atenção de todos os muitos funcionários que pareciam trabalhar alegres naquele espaço. Eu estava fechando a porta quando ouvi:
- Kat! É você?
Eu não precisava ver para saber que aquela era...
- Sofia.
Ela me abraçou com força. Sofia vestia um uniforme como dos demais.
- O que você está fazendo aqui, Kat?
- É uma longa história, Sofia. Mas para resumir: sou a nova dama de companhia da rainha Anne.
- Kat... Estou tão feliz por você. Não acredito que conseguiu.
- Sim... Depois da morte de Joana Pallucci. – falei tristemente.
- Sim... Foi horrível o que aconteceu com ela. Mas ainda assim fico feliz que você esteja aqui.
- E o que você está fazendo aqui, Sofia?
- Não vou ser a dama de companhia, mas sou uma das aprendizes de cozinheira.
- Então você está trabalhando aqui também?
- Sim. – ela disse sorrindo e pegando as minhas mãos.
Logo veio uma mulher mais velha, vestida impecavelmente. Parou me analisando dos pés a cabeça e disse:
- Quem é, Sofia?
- Tia, esta é Katrina Lee, a nova dama de companhia da rainha Anne.
- Está perdida, mocinha? – ela perguntou desconfiada.
- Na verdade, sim. – expliquei. – Estava com a senhorita Davis, que me mandou descer e buscar meu celular no quarto. Eu não tenho ideia para que lado ficam os quartos.
- Sofia, ajude-a. Ela vai precisar... A senhorita Davis é um diabo em pessoa.
- Eu sei. – falei sorrindo nervosamente. – Obrigada pela ajuda.
Sofia saiu comigo e me levou até o corredor onde eram os dormitórios dos empregados.
- Sofia, sou grata por ter me ajudado. Eu não teria encontrado este lugar sozinha.
- Vamos... Vou ver onde é o seu quarto. Podemos nos encontrar à noite. – ela disse sorrindo feliz.
- Podemos? Isso é permitido? – perguntei.
- Não me disseram que não podia. – ela riu.
- Verdade. – eu dei de ombros.
Encontrar Sofia ali e estar perto dela era a melhor coisa que poderia ter acontecido. Logo abri meu quarto e peguei meu celular na bolsa. Ela me acompanhou até a escadaria e disse:
- Sempre siga à sua direita. Assim encontrará a ala dos empregados.
- Obrigada, Sofia.
- Você estará aqui à noite?
- Eu não sei... Não tenho certeza de nada. Fui trazida há poucas horas, buscada em minha casa pelos príncipes.
- Pelos príncipes? – perguntou ela. – Como assim?
- Disseram que era para minha segurança. Preocupados que poderiam querer matar a nova dama de companhia da rainha. – expliquei.
- Mas nunca houve nada parecido nem mesmo para a senhorita Davis. – ela disse confusa.
- A senhorita Davis costuma deixar o castelo? – perguntei.
- Nunca.
- Então tá explicado. – eu disse sorrindo. – Preciso subir. Me procure quando conseguir. Sabe onde estou.
- Pode deixar. Estou feliz por ver você, Kat.
- Eu também, Sofia.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







