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Capítulo 36 - Eu não Matei Joana Pallucci

Author: Roseanaautora
last update publish date: 2021-06-24 04:01:25

Cheguei com meu celular na mão, percebendo o olhar irônico de Lana. Eu sabia que não seríamos amigas, mas percebi que ela queria mesmo era ser minha inimiga.

- Você sabe que não pode usar celular no castelo, não é mesmo?

- Sim... Mas eu acabei de chegar. – expliquei.

- Quem a trouxe?

- Da minha casa? – perguntei.

- De onde quer que você tenha vindo, senhorita Lee. Como entrou no castelo?

- Com os príncipes. – expliquei.

- Como assim com os príncipes?

- Com vossas altezas. – tentei organizar melhor as palavras.

- Eu não sou burra. Entendi o que você quis dizer. Quero saber como você entrou no castelo de Noriah?

- No carro real. – expliquei novamente.

Ela riu:

- Quer mesmo que eu acredite nisso?

- Você não tem linha direta com os príncipes? – perguntei ironicamente. – Se certifique você mesma.

Ela imediatamente pegou o telefone e discou um número. Ouvi quando ela disse:

- Alteza, tem uma garota aqui... A senhorita Lee na verdade, que será a nova dama de companhia de sua mãe. Ela alega que entrou no castelo com os príncipes e...

Percebi que ela se calou ao ouvir o que lhe era dito do outro lado da linha. Lançou para mim um olhar gélido e cheio de ódio:

- Tudo bem, entendo... Mas ela possui um telefone celular.

Novamente a voz falou ao outro lado. Ela disse:

- Mas isso não é permitido... Sua mãe ficará furiosa. Nem a conhecemos...

Eu queria poder ouvir o que era dito pelo príncipe, assim como saber quem era o príncipe que falava com ela. No entanto só ouvi:

- Ok, alteza.

Olhei para ela indagativa. Eu também queria saber o que estava acontecendo. Ela disse:

- Você me dá o celular enquanto trabalha aqui. Devolvo-lhe ao fim do dia. Um carro a levará de volta para sua casa a fim de que possa organizar o que ficou pendente com sua família. Terá também o dia de amanhã para isso. Retornará amanhã ao final do dia para assumir seu papel definitivamente. Então, não trará seu celular, ou se preferir trazer, ele ficará trancado em uma sala onde você poderá retirar no dia da sua folga. Também precisa assinar o contrato de confidencialidade antes de ir para sua casa.

- Com quem falou? – perguntei curiosa.

- Com um Chevalier. – disse ela cheia de maldade, ironicamente.

Ela me entregou o contrato de confidencialidade, que eu comecei a ler. Ele já estava todo impresso com meu nome em todas as mais de vinte páginas. Comecei a ler uma a uma, já sabendo a maioria das informações ali constadas. Eu não poderia dizer nada do que acontecia dentro do castelo, pois fazia parte do meu trabalho ser fiel a rainha e manter segredo de tudo que eu visse ou ouvisse dentro do castelo bem como... Manter-me longe dos príncipes, do rei ou de qualquer pessoa que fizesse parte da família real a não ser que minha presença fosse solicitada. Só ir ao terceiro andar quando estivesse acompanhada de um membro da família real ou jamais sem permissão. Qualquer notícia que saísse do castelo, divulgada em meios de comunicação, que não os reais, cairia sobre mim a suspeita de traição à rainha, podendo... Ser julgada e punida... Com prisão perpétua ou... Pena de morte.

Eu sabia que aquele tipo de punição no reino não era muito comum, a não ser quando aconteciam coisas realmente horríveis. Mas saber que eu poderia ser presa por toda a minha vida ou morrer em praça pública, com transmissão ao vivo em todos os canais de televisão me deixou bastante nervosa. Senti um frio percorrer minha espinha e um medo gigante se apoderar de mim. Peguei a caneta e assinei meu nome e a data em todos os locais indicados. Entreguei os documentos em que eu concordava em morrer em nome da traição à família real.

Lana olhou tudo rapidamente e disse:

- Bem vinda ao pior emprego da sua vida.

- Obrigada. – eu disse tentando não demonstrar medo ou fraqueza.

Voltei e sentei em meu lugar, passando os olhos pelos documentos espalhados pela mesa. Havia bastante coisa para organizar.

Eu voltaria para casa ao final do dia e teria tempo para organizar tudo em casa e conversar melhor com minha mãe, bem como ver Leon antes. Eu não sabia qual o príncipe que havia me dado aquela oportunidade, mas eu era muito grata.

Em pouco tempo eu havia organizado meu espaço de trabalho enquanto Lana estava envolvida em ligações telefônicas que eu não conseguia prestar atenção. Eu estava preocupada. Tinha pouco tempo e eu precisava ver Dom. sabia do risco que corria em revelar segredos da monarquia ao grupo secreto. Mas não me passava pela cabeça não fazer aquilo. Além do mais eu queria saber o que ele pensaria se eu simplesmente desaparecesse. Eu precisava dele... De um último beijo pelo menos. Para ter certeza de que eu poderia levar minha vida sem vê-lo todos os sábados nas reuniões secretas.

Logo o tempo passou e conforme autorizado pelo príncipe, um carro me levou para casa. Eu não fazia ideia, mas junto do “pacote real” havia um guarda que ficaria comigo o tempo todo, por questão de segurança. Então um encontro secreto anti monarquia estava fora de cogitação. Seria sempre assim quando eu saísse do castelo? Eu esperava que não, afinal eu não era um membro real. Acho que aquilo era somente por enquanto, pois era recente o assassinato de Joana.

Kim me ajudou a providenciar uma pessoa para ficar em minha casa e cuidar de meu pai bem como dos afazeres domésticos. Conforme prometido por Magnus, o dinheiro do meu salário estava na conta, antecipadamente. Então, minha família estava em segurança... Pelo menos por um tempo.

Fui ao hospital ver Leon, que estava bem, mas não tinha previsão de alta. Expliquei melhor a minha mãe tudo que estava acontecendo e deixei o cartão com ela, bem como tudo que tinha nele. Eu sabia que ela daria conta de fazer tudo certo com aquele dinheiro que era muito importante para nossa família.

Depois eu saí e fui até o hospital da Zona E. O que eu queria lá? Ver Dom... Não importava de que forma. Cheguei na recepção e perguntei:

- Será que eu poderia falar com o doutor Domênico?

A recepcionista olhou para mim e disse:

- Paciente? O que houve com você?

- Eu... Preciso mostrar o resultado de alguns exames que ele me pediu. – inventei na hora.

- Aguarde e espere. Pode demorar. – disse ela com cara de poucos amigos.

Eu sentei na recepção e fiquei aguardando, conforme ela pediu. Eu tinha mil coisas para resolver antes de perder minha vida pessoal para a rainha Anne. No entanto esperei por mais de uma hora até que Dom me chamasse para a sala dele. Quando fechei a porta ele me olhou surpreso:

- Exames?

- Boa noite, doutor Domênico. – eu disse sentando na cadeira à frente dele.

- Senhorita Lee... A que devo a visita?

- Eu sou a nova dama de companhia da rainha Anne.

- Eu vi isso em todos os jornais e notícias das últimas horas.

- Dom... Eu posso ajudar.

- Não me chame de Dom... Por favor. – disse ele olhando desconfiado.

- Só estamos nós dois aqui.

- Para nossa segurança, Katrina.

- Tudo bem... Desculpe-me.

- Katrina... Eu não quero que você continue com isso. É uma loucura.

- Mas... Eu posso fazer isso. Já tenho tudo planejado. O único problema é que não poderei participar dos encontros secretos.

- Eu não colocaria sua vida em risco.

- Mas você falou que sim naquele sábado, no encontro anti monarquia.

- Eu não sabia quem você era...

- Confie em mim... Eu posso ajudar. Eu serei os olhos e ouvidos do movimento dentro do castelo. Podemos destruí-la. Nunca estivemos tão perto disto.

Ele levantou e sentou sobre a mesa, próximo a mim. Eu senti o perfume inesquecível dele. Olhei nos olhos dele e senti meu corpo ficar arrepiado. Como eu podia desejar tanto aquele homem? Ele pegou meu queixo e me encarou:

- Não vamos em hipótese alguma colocar sua vida em risco.

- Ela já está em risco... No momento em que eu aceitei ser a dama de companhia.

Eu levantei e me aproximei dele. Era insuportável sentir a presença dele e não poder tocá-lo. Nos encaramos sem dizer nada. Meu sangue fervia dentro de mim e eu conseguia entender exatamente o que me levou a beijá-lo naquela noite. Ele era irresistível. Mas Dom levantou e afastou-se de mim imediatamente, embora eu conseguisse sentir todo desejo que ele também tinha.

- Precisamos ficar longe um do outro... – ele disse.

Olhei para ele, peguei minha bolsa e disse:

- Tudo bem... Vou me afastar, exatamente como você quer. – tentei não deixar transparecer toda tristeza que eu sentia.

- Eu não quero que se afaste de mim para sempre... Só aqui...

- Achei que não queria mais me ver. – confessei.

- Eu não faria isso...

- Me diga que você não tem nada a ver com a morte de Joana Pallucci.

Ele me olhou por um tempo e disse:

- Eu não tenho nada a ver com a morte de Joana Pallucci.

- Eu estou falando sério, Domênico.

- Eu também, Katrina.

- Eu não suportaria saber que você é um assassino frio.

- E se eu fosse? Acha que nosso movimento é completamente tranquilo e pacífico? Acha que mortes não ocorrerão?

Eu olhei para ele confusa e depois disse:

- Podem ocorrer... Desde que você não seja quem matou.

Eu senti que ele queria me abraçar naquele momento. Ou foi impressão minha, pois tudo que eu queria era sentir os braços dele em torno de mim.

- Eu preciso ir... – falei.

- Nos encontramos no sábado?

- Não sei se conseguirei ir. Estou completamente confusa de como será minha vida daqui para frente. Duas vezes no mês é o tempo que tenho para mim.

- Isso é errado... Abusivo... Escravo.

- Eu sei. Mas ainda assim eu precisava aceitar.

- E seu namorado?

Olhei para ele confusa. Meu namorado? Sim, eu tinha um namorado. E não havia falado com ele nos últimos dias. Eu precisava falar com Léo sobre o que estava acontecendo.

- Por que não me responde?

- Porque só agora eu lembrei que tinha um namorado.

Ele riu e balançou a cabeça:

- E seu irmão?

- Tudo bem com ele. Tivemos sorte... E um bom cirurgião. – completei piscando o olho para ele.

- Verdade... Um bom cirurgião faz toda diferença nestas horas.

- Obrigada.

- Katrina, se cuide.

- Eu vou me cuidar. Sei muito bem fazer isso, não se preocupe.

- Não confie nos príncipes. Ninguém no castelo merece sua confiança.

- Eu sei, Domênico. Agora eu sei...

- Nos encontramos no sábado. – ele disse pegando minha mão, ainda afastado de mim.

Sentir a mão quente dele sobre a minha me fez arrepiar-me novamente. Com meu dedo polegar acariciei a pele dele.

- Vou fazer o possível para estar lá.

- Estarei esperando por você.

Quando eu saí na porta ele disse:

- Não vou pedir seu telefone porque sei que não terá mais um.

Eu sorri:

- Você não precisa do meu telefone. Eu encontrarei você sempre. – pisquei e saí.

Sim, eu o encontraria em qualquer lugar que fosse necessário.

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