LOGIN- Acho que ele está se referindo ao seu noivo. – observou Dereck divertidamente, se jogando para trás na sua confortável cadeira e pousando a cabeça sobre os braços abertos.
Não costumava me acontecer com frequência, mas eu corei. Dereck era tão insistente em me unir de alguma forma a Magnus que aquilo me parecia até uma brincadeira às vezes, para ver como eu reagiria. Magnus não pareceu se preocupar. Só me observou e sorriu sem demonstrar nada, balançando a cabeça. Olhei para os dois guardas parados na porta. Eles não tinham expressão alguma. Será que estavam vivos?
- Isso quer dizer que... Você vai levar em consideração minha proposta? – perguntou o príncipe mais jovem.
- Se é tão importante para você...
- Sim, é importante para mim. – ele confirmou seriamente. – Quero Katrina como minha secretária. E sua também.
- Quem lhe disse que eu preciso de uma secretária? – perguntou Magnus olhando seriamente para o irmão.
- Magnus, eu preciso de uma secretária. Você precisa de Katrina. Fiz-me entender?
O silêncio na sala de jantar foi mortal para mim. Minha vontade era poder parar meu coração, pois eu tinha certeza que as batidas dele podiam ser ouvidas por todos naquela sala.
- Você não vai dizer nada para ele? – perguntei indignada olhando para Magnus.
- Eu não... Ele é “seu” amigo. Meu ele é irmão... Infelizmente não posso fazer nada a respeito. É o carma que eu carrego.
Dereck começou a rir alto e Magnus acabou cedendo e fazendo o mesmo. Eu sinceramente não achava graça da forma com brincavam comigo. Eu não era uma distração para o príncipe Magnus. Eu era...
- Que fique bem claro que eu preciso deste emprego. Então suportarei suas ofensas. – falei. – E que sou noiva... E fiel.
Os dois me olharam firmemente. Por um momento em me arrependi do que disse, pois parecia que estava escrito na minha testa: infiel. No entanto eles não disseram nada.
- Me desculpe, Katrina. – disse Dereck. – Não foi minha intenção ofendê-la de forma alguma... Pelo contrário, sempre quis você como parte da família.
- Dereck, você está bem? – falou Magnus. – Acho que está indo longe demais.
Enfim Magnus se manifestou de alguma forma. Era exatamente o que ele dissera: Dereck estava indo além do permitido. Era tão visível a intenção dele me unir a Magnus. Mas aquilo era uma completa loucura. E todos nós sabíamos. No início ele falava somente para mim. Agora parecia não se importar mais com quem ouvisse.
- Quero Katrina ao meu lado, como minha secretária. – insistiu Dereck. – E ela prestará esse serviço a você também. Sendo assim, quero que fale com nossa mãe ainda hoje.
- Por que tanta insistência “nela”? – perguntou Magnus.
- Eu estou aqui, caso não tenham reparado... No entanto, eu gostaria de saber a mesma coisa que vossa Alteza: por que eu?
- Katrina poderia ser nossa irmã. – ele disse.
Por um pequeno momento em senti um clima de tensão no ar. Mesmo não sabendo ao certo o que, era notável que algo os deixou desconfortáveis. Teria meu pai tido um caso com a rainha Anne Marie Chevalier e eu ser filha dela? Uma filha bastarda? Então eu seria uma princesa bastarda na realeza. Se fosse assim certamente meu pai teria me dito. Isso era um assunto muito importante para ser guardado por ele. Ou mesmo por minha mãe, Laura Lee. Minha mãe, embora brigasse bastante comigo e tivéssemos poucas coisas em comum, me amava. E eu sentia dentro de mim que ela era minha mãe. Então seria o rei Alfred meu pai?
Enquanto eu pensava em mil coisas, Magnus disse:
- Sim, Dereck, eu posso falar com nossa mãe. Somente se esse for o desejo de Katrina. Não quero obrigá-la a ficar trabalhando conosco se não for da vontade dela. – ele disse me olhando.
- Eu... Não sei. – falei sinceramente. – Embora eu seja somente a substituta da dama de companhia, o salário que ganho é muito mais do que esperei ganhar nos meus sonhos mais impossíveis.
- Não haverá prejuízo de salário. – garantiu Magnus.
- Eu não acho que esta decisão cabe a mim, altezas. Eu estou aqui para trabalhar. Onde me colocarem, farei o meu melhor. – disse sem tentar me comprometer. Mas claro que eu queria ficar longe de Lana Davis, embora não tão longe da rainha.
Estar com Dereck seria perfeito. Ele era um homem alegre e me fazia bem. Ele me tratava bem e se importava com meus sentimentos e pensamentos. Quando a Magnus... Eu não sabia se gostava dele ou se não gostava. Tive até a sensação de estar apaixonada quando o vi correndo enquanto eu estava na enfermaria naquela manhã. No entanto no dia anterior eu poderia ter certeza que o odiava. Ele parecia tão doce algumas vezes... No entanto em outras ela era o homem mais arrogante que eu já vira.
- Então fará o melhor ao meu lado e ao lado de meu irmão. – disse Magnus. – Dereck tem razão. Precisamos de um pouco de juventude ao nosso lado. Espero que consiga diferenciar juventude de imaturidade.
Não pude deixar de arquear minha sobrancelha com o comentário dele. O que exatamente ele estava tentando dizer?
- Por hora, vamos organizar esta festa antes que minha mãe fique brava. Se isso acontecer, ela não permitirá que você troque de cargo.
Eu simplesmente assenti com a cabeça e tentei fazer rabiscos no bloco com minha mão trêmula. Minha vontade era gritar de felicidade. Eu estaria longe de Lana. Pelo menos eu esperava que sim. Que minha sala de trabalho não fosse a mesma dela.
- O que pensou para o baile, Dereck? – perguntou Magnus.
- Pensei que você não deveria noivar... Só festejar seu aniversário.
Magnus sorriu amargamente:
- Você sabe que não há possibilidade.
- Vai mesmo casar com ela?
- Vou.
- Por que nossa mãe quer?
- Eu gosto dela.
- Gostar não é suficiente. – insistiu Dereck.
- Senhorita Lee, você ama seu noivo? – perguntou Magnus me olhando.
Eu fui pega de surpresa. Poderia responder mil coisas, no entanto eu afirmei:
- Gosto dele.
- A vida real, Dereck Chevalier. – Magnus disse ironicamente. – Nem sempre as pessoas se casam por amor.
Dereck me olhou e disse:
- Mas... Você nunca amou, Katrina?
- Estamos mesmo falando sobre a minha vida? – perguntei confusa. – Achei que precisávamos planejar a festa.
- Podemos nos conhecer melhor, afinal, trabalharemos juntos boa parte do dia. – disse Magnus me olhando enigmático, como que dizendo: fale a resposta ao meu irmão.
- Eu... Acredito no amor. – confessei. – Mas eu nunca amei.
Os dois me olharam. Eu perguntei:
- Já amou, príncipe Dereck?
- Não. – ele admitiu. – Ou muitas vezes. – riu.
Rimos.
- E você, Magnus? – perguntou Dereck.
- Deveria dizer sim, afinal já vou fazer 27 anos. Mas a resposta é não.
Por um momento em me senti a vontade dentro do castelo de Noriah, conversando sobre amor com os dois príncipes, filhos da terrível rainha Anne Marie Chevalier, que não sabia nada sobre amor, perdão ou empatia. Como eu queria poder televisionar aquele momento para todos no reino. Por aquele motivo eu ainda acreditava na realeza. Por eles. Seria ruim e difícil perdê-los na queda da monarquia. Eu via bondade neles... Assim como preocupação, dúvida e qualquer outro sentimento que uma pessoa da nossa idade sentia.
Ficamos em silêncio um tempo, cada um com seus próprios pensamentos. Magnus disse:
- Não me importo muito com esta festa. Mas precisamos fazer com que saia exatamente como a rainha planejou. – ele me olhou.
- Um tradicional baile de máscaras. – continuou Dereck. – Roupas de gala, vestidos longos e smoking. Um bufe espetacular. Ele tem que ser divulgado antes em todos os lugares, Katrina. Os convites tem que ser à altura também. Mas o principal: as pessoas podem estar seguras com relação às suas identidades.
- Dereck, não podemos permitir segredo com relação à identidade das pessoas. Isso é perigoso. Daria chance para qualquer pessoa entrar no castelo. Todos sabemos que há um enorme grupo rebelde lá fora querendo acabar com o reinado de nossa mãe... Ou até mesmo querendo a morte dela. Segurança em primeiro lugar.
- E se um casal de cada Zona fosse convidado?
- Não... Isso é loucura. – falou Magnus.
- Por que não? Uma festa no castelo com pessoas de todas as zonas, Magnus. Todos comemorando o aniversário do príncipe, futuro rei de Noriah.
- Eu... Não saberia como fazer isso. – ele disse me olhando, procurando uma solução.
- Posso... Pensar a respeito. – eu disse anotando tudo surpresa.
Dereck era inteligente. Mas eu ainda não entendia o objetivo dele. De alguma forma eu achava que ele não queria aparecer mais que o irmão. Ainda assim as ideias em sua maioria partiam dele. Talvez não tinha chance de se pronunciar quando na presença da rainha.
- Você realmente não quer sentar? – perguntou Magnus me encarando.
- Chega de regalias, alteza. – eu disse olhando por cima do bloco enquanto anotava exatamente o que eu dissera para ele.
- Você é uma garota difícil, senhorita Lee. – observou ele.
- Você ainda não viu nada, irmão. – disse Dereck divertidamente.
- Defina difícil, alteza. – eu falei curiosa, querendo ouvir Magnus.
Ele ficou surpreso com minha fala. Pensou um pouco e disse:
- Orgulhosa, audaciosa, rancorosa e...
- E... – perguntei incentivando-o a continuar.
- Acho que ele não tem mais palavras ruins para você. – disse Dereck rindo. – Talvez difícil para ele seja mais uma qualidade do que um defeito.
- Dereck... Não ponha palavras na minha boca... – disse Magnus calmamente.
- Então as diga, Alteza. – desafiei.
Dereck levantou e disse:
- Bem, acho que vou me retirar. Certamente não sentirão minha falta... Terminem a discussão de vocês e depois nos encontramos no escritório de Magnus.
Ele saiu. Magnus disse:
- Sim, ele sempre foi assim. Por isso é o preferido de todos.
- Não da sua mãe. – observei.
- Ela é a única exceção. E antes que ache injusto, ele é o preferido do meu pai.
Ele levantou-se de sua cadeira e antes que as empregadas viessem tirar a mesa, ele separou algumas coisas e colocou em um prato e me entregou.
Olhei-o sem entender o que ele queria que eu fizesse.
- Para você. – ele disse. – Não quero que desmaie.
- Eu... Não vou desmaiar. – contestei.
Ele saiu e eu o segui, com o bloco e o prato na mão. Quando chegamos ao escritório, ele disse:
- Depois que você comer tudo, podemos começar.
Eu olhei para o prato cheio. Fingir que não estava com fome seria uma mentira horrível, pois eu não havia tomado café da manhã por estar um pouco chateada com Magnus. No entanto agora ele me dava um prato com tantos doces que eu não tinha como recusar. Quando olhei na direção dele, ele desviou o olhar e continuou mexendo em seus papéis. E eu comecei a comer tudo que me foi oferecido. Impressionei-me quando vi o prato vazio.
- Pelo visto não teremos desmaio por falta de açúcar. – ele disse sorrindo.
- Talvez tenha por excesso. – rebati.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







