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Capítulo 63 - Eu acho que gosto dele

last update Fecha de publicación: 2021-06-28 06:14:25

A primavera passou e com ela chegou o verão. O tempo andou tão rápido que eu nem percebi. Entre as idas e vindas para minha casa quinzenalmente, encontrava Dom esporadicamente. Não houve encontros fora do grupo secreto entre nós. Minha família estava bem. Eu não via Kevin há bastante tempo. Minha mãe também não tinha notícias dele e isso nos preocupava. Era a vez que ele ficou mais tempo sem nos dar notícias. Meu pai estava cada vez mais depressivo. Kim sabia de tudo que acontecia comigo, como sempre. Mesmo distantes, conseguíamos ser inseparáveis.

Consegui, depois de muita conversa com os príncipes, mudar algumas coisas no dormitório dos empregados. Janelas foram colocadas nos quartos que não tinham e o corredor ganhou luzes mais potentes e fortes. Eu ainda estava tentando convencê-los a mudarem as folgas para semanais e não quinzenais. Mas aquilo teria que passar pela rainha. No entanto Dereck gostou da minha reivindicação e prometeu defendê-la na corte, sem conhecimento da rainha para que ela não pudesse intervir. Eu torcia para dar certo.

Embora a ideia dos donativos de presentes para o príncipe tivesse sido minha e eu quisesse que parecesse dele, a rainha roubou a cena e todos os jornais divulgavam sua suposta mudança de atitude nos últimos tempos. Eu sabia que era tudo uma mentira e embora eu lutasse para que o movimento tivesse como objetivo a coroação de Magnus, estava cada vez mais impossível. Dias antes das toneladas de alimentos serem distribuídas, na capa de todos os jornais estavam Vitória e Magnus e o noivado real tão esperado. Eu praticamente obriguei Magnus a ir junto com os alimentos, para que conhecesse as zonas e pudesse conversar com as pessoas que os receberiam. No entanto a rainha foi junto. Não era intenção dela deixar Magnus levar qualquer louro pela generosidade. E assim a realeza conheceu várias zonas pobres do reino, que talvez nunca tivessem estado em suas vidas se não fosse aquele acontecimento. A rainha não demonstrou nada depois. Mas Magnus ficou muito mexido com o que viu. Então passou a querer relatórios mensais sobre empregos e desempregos no reino. E a partir daí eu comecei a ver um Magnus político que eu não conhecia até então. Ele e Dereck sempre planejavam tudo juntos. Era uma dupla perfeita. Acho até que Dereck seria um bom rei tanto quanto Magnus. E ali, olhando os dois fazerem planos futuros na nossa sala de trabalho, eu me senti uma privilegiada por ter conhecido melhor aqueles dois homens que tinham um poder tão grande nas mãos de mudar a vida de tantas pessoas. E eu sabia que eles conseguiriam.

Com as novas ideias de Magnus exigindo mais tempo do que eu realmente tinha, Dereck sugeriu contratarmos outra pessoa para me ajudar. Agora minha função não era só organizar festas como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Aquele escritório fazia relatórios, se preocupava com as pessoas e o reino de Noriah e tudo que acontecia nele.

- Quem sabe fazemos uma seleção para alguém que ajudará Kat? – sugeriu Dereck. – Vai que eu encontre o amor da minha vida nas entrevistas.

- Não. – eu e Magnus dissemos ao mesmo tempo.

Depois de algumas risadas e um Dereck confuso e um pouco chateado, eu sugeri:

- Conheço alguém que também participou da seleção para dama de companhia. Ela já trabalha no castelo. É uma pessoa correta, inteligente e acho que confiável.

- A garota que eu conheci quando estava escondido no seu quarto? Acertei? – perguntou Dereck.

- Ela mesma.

- Gostei da ideia. É uma moça falante e divertida. Acho que posso me dar bem com ela. O que acha, Magnus?

- Quando você esteve escondido no quarto da senhorita Lee? – perguntou Magnus seriamente.

- Faz um tempo, irmão... Na verdade, bastante tempo.

- Mas... O que você estava fazendo lá?

- Nada do que ele costuma fazer com outras garotas. – eu disse olhando fixamente para Magnus. – Além do mais, não lhe devemos satisfações.

- Devem sim. – disse ele. – Eu sou príncipe mais velho e futuro rei.

- Calma aí, eu também sou o príncipe e se todos morrerem acho que eu também seria o rei. – brincou Dereck.

- Então? Estou esperando uma explicação. – falou Magnus sem achar engraçado a tentativa de Dereck de amenizar a situação.

- Magnus, eu não conhecia este seu lado ciumento. Você não era assim até então, irmão.

- Não é ciúme. Só quero saber o que se passa debaixo dos meus olhos.

- Se eu decidir ter um caso com Dereck, será a primeira pessoa a saber, Alteza. Eu prometo. No entanto atualmente não tenho tido muito interesse por príncipes.

- Só por líderes rebeldes que contrariam a monarquia.

- Eu... Vou tomar um ar. – disse Dereck levantando e saindo.

- Vai me deixar sozinha com ele? – perguntei em desespero.

- Acho que você corre menos risco do que eu. – ele disse fechando a porta e nos deixando a sós.

Então ficamos cada um na sua mesa, frente a frente, nos olhando nos olhos e nos falando como não havíamos nos falado nas últimas semanas em que evitávamos qualquer conversa que envolvesse nós dois de alguma forma.

- Alteza, o que eu faço ou deixo de fazer fora daqui não lhe diz respeito. E acho que já tivemos esta conversa.

- Mas pelo que sei meu irmão frequentou seu quarto e isso não foi fora do castelo.

- Mencionou o líder rebelde... Bem sabemos que isso é fora daqui. E não sabia que estava vigiando minha vida. Quanto ao seu irmão, não houve nada e eu posso garantir com a minha palavra. Eu nunca me interessei por Dereck a não ser como um amigo.

- E quanto ao líder rebelde?

- Não entendi...

- Gosta dele?

- Eu não preciso responder isso.

- Não é uma ordem...

- Uma curiosidade, então?

- Sim... Que me consome diariamente.

Eu desviei meu olhar. Não queria começar aquele jogo de flerte e sedução novamente com ele. Eu não suportava aquilo. Já havia meu relacionamento com Dom que beirava a loucura e a sanidade.

- Gosta de Vitória? – perguntei.

- Não.

A resposta dele me pegou de surpresa. Eu já imaginava que ele não gostava dela, no entanto não estava preparada para uma resposta tão direta.

- Ainda assim vai casar com ela, só porque sua mãe decidiu? É uma vida... Na verdade, duas, a sua e a dela. Talvez ela goste de você.

- Vitória só gosta dela mesma.

- E você viverá com ela ainda assim, mesmo sabendo que não há amor entre ambas as partes?

- Eu não tenho direito de escolher... Sempre foi assim na minha família. Os Chevalier já nascem com o destino traçado. A não ser Dereck, que por não ser o primeiro na linha de sucessão poderá talvez procurar alguém que goste. Ainda assim esta pessoa terá que ser influente, da Zona A e passar pela aprovação não só da minha mãe, mas do meu pai e do conselho.

- Isso não é correto.

- Não precisa ser... Nunca foi. Amor para nós não existe. Só nos livros de contos de fadas.

- Isso é... Triste.

- Mas você não respondeu minha pergunta... Gosta dele?

Eu pensei no que responder. Eu não era tola, sabia que Magnus flertava comigo. No entanto não tinha certeza do que realmente ele queria. Uma noite com uma garota diferente? Talvez gostasse de mim por eu ser uma aventura, algo proibido, algo fora do que sempre foi planejado para ele, até mesmo como uma crise de rebeldia adolescente depois do tempo. No fim, como ele mesmo me garantiu, como a própria rainha me disse: ele casaria com Vitória, independente do que acontecesse. Eu gostava de Magnus. Mas eu também gostava de Dom. Por mais insano que parecesse, eu gostava dos dois. E eu não tinha certeza se amava algum deles. Mas eu não me sentia uma privilegiada. Pelo contrário, aquilo me doía e me consumia dia e noite. Aquela indecisão, dúvida, receio do que fazer. Eu não era uma garota fiel desde que os conhecera. Eu cheguei a estar noiva de Léo e beijar Magnus e Dom. Eu poderia dizer que eu era uma péssima pessoa. No entanto quando beijei Magnus ele também já era comprometido. E Dom? Eu mal sabia o que ele fazia fora dos sábados à noite. Ele já havia sido inclusive casado. Nada me garantia que não havia outra pessoa, afinal, ele não assumia um compromisso comigo. Mas eu não queria que Magnus pensasse que poderia ter algo entre nós. Eu estava decidida a não sofrer por ele. Uma coisa era se aventurar com Dom e depois acabar e partir para outra. Com Magnus era diferente. Ele era o príncipe. Estávamos envolvidos diariamente um com o outro. Eu ficava mais tempo com ele do que com qualquer outra pessoa desde que entrei no castelo de Noriah. Então eu disse:

- Eu acho que gosto dele.

Ele desviou o olhar, pegou alguns papéis e fingiu que nada havia acontecido. Pensei que nossa conversa fosse continuar, mas não. Parece que aquilo o afastou completamente de mim, como era meu objetivo quando eu lhe disse aquela frase. Mas então por que parecia que meu coração estava partido e eu tive vontade de chorar?

Tentei me concentrar na pilha de papéis e logo Dereck voltou, sentando em seu lugar.

- Então... Tudo resolvido sobre eu ter entrado no quarto? – perguntou ele nos olhando.

- Você ter entrado no quarto foi o menor dos problemas pelo visto. – disse Magnus levantando e saindo, batendo a porta.

Eu me assustei e dei um pulo quando o som da porta ecoou forte na sala.

- O que você fez com ele? – perguntou Dereck seriamente.

- Você devia perguntar o que ele fez comigo. – eu disse levantando e saindo.

Fui até o toalete e joguei um pouco de água fria no meu rosto. A pressão de trabalhar ao lado de Magnus acabava comigo diariamente. Mas eu precisava ser forte e não deixar a emoção acabar com a minha razão. Por sorte, quando voltei para a sala, Magnus estava de volta e Vitória também estava lá. Por incrível que pareça, eu fiquei feliz pela primeira vez em vê-la. Desta forma eu teria tanta raiva dele, que não precisaria ficar me lamentando por ter dito o que eu disse: a verdade, mesmo que o tenha magoado.

- Boa tarde, senhorita Grimaldo. – eu cumprimentei quando voltei, sentando em meu lugar.

Ela estava sentada quase no colo de Magnus, jogando seu charme vulgarmente, como sempre. E depois a rainha me chamava de promíscua. Como eu detestava aquela mulher, a forma como ela se vestia, como falava e principalmente o batom vermelho que ela usava. Aquela concorrência era totalmente desleal.

- Quero que chegue logo o dia do nosso noivado, meu amor. – disse ela lhe marcando com o batom depois de um beijo no rosto.

- Ficou uma marquinha fofa. Você não achou, senhorita Lee?

Eu tirei meus olhos do computador e olhei para eles não disfarçando minha raiva:

- Poderia tatuar isso, Alteza... Sua noiva teve uma boa ideia. Ficaria lindo na sua coleção de tatuagens.

- Como assim? – perguntou Vitória olhando para Magnus.

Dereck me olhou e disse:

- Eu preciso sair.

- Não, Alteza. Ainda não. Precisamos falar sobre a senhorita Sofia. – eu pedi implorando para que ele ficasse ali e não me deixasse sozinha com os dois.

Eu sabia que ele queria sair para talvez rir da minha ousadia. Eu também quase não me contive. Mas Vitória era tola em tentar me irritar. Mal sabia ela que Magnus não gostava dela e havia admitido aquilo para mim minutos atrás.

- Eu vou providenciar para que amanhã mesmo Sofia venha para cá.

- Por que outra pessoa? – perguntou Vitória. – Outra mulher?

- Sim... Qual o problema? – perguntou Dereck. – O trabalho tem aumentado um pouco por aqui desde que senhorita Lee chegou trazendo tantas ideias que não damos conta de colocar em prática.

- Quando eu e Magnus nos casarmos eu não vou querer que ele trabalhe tanto. Este lugar é chato.

- Isso se chama trabalho, senhorita Grimaldo. – eu disse.

- Acho que eu não gosto disso. Vou querer Magnus comigo o tempo todo, me mimando.

E foi então que ela sentou-se no colo dele e lhe deu um beijo na boca. Eu e Dereck nos olhamos. Sim, eu estava louca de ciúme. Mas eu não podia fazer nada a não ser virar para o outro lado e não ver a cena. Eu já havia tentado agredir a rainha... Valia a pena arrancar os cabelos de Vitória e tirá-la de cima do “meu” príncipe?

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