FAZER LOGINO restante da semana passou e embora eu já estivesse bem adiantada na organização da festa do príncipe, ainda havia bastante por fazer. O fato de estar se aproximando a data do meu aniversário também me deixava um pouco receosa pela festa que eu receberia de Dereck. Havia ficado grata e gostado da ideia, mas conforme chegava mais próximo do dia eu ficava tensa. Encontrar Magnus fora do castelo e Dom fora dos lugares que nos encontrávamos seria um pouco diferente para mim. Eu ainda não tinha certeza se Dom iria. Havia pedido para Kim “exigir” a presença dele.
Mas o sábado chegou e não havia como eu voltar atrás. Até a rainha estava parecendo alegre com o fato de todos sairmos juntos. Claro que eu tinha certeza que era pela presença de Vitória e por ela saber o quanto aquilo causava mal estar em mim.
Eu ganhei um vestido novo de Dereck para usar no grande dia. Era um vestido caro e elegante. Ele era curto e justo, no entanto tinha um lindo tule bege de um bordado infinitamente delicado com pequenas flores, que o cobria por inteiro. O decote era assimétrico, dando um toque ainda mais especial. Os sapatos nude eram perfeitos para me deixar um pouco mais alta. Escolhi deixar meus cabelos soltos e quando os sequei não penteei, ficando encaracolados naturalmente. Eu não sei exatamente como Vitória Grimaldo estaria, mas eu estava perfeita. Usei e abusei da maquiagem, proibida em dias de trabalho. O batom vermelho deu o toque final.
Como seria aquela noite? Eu não sabia... Mas pagaria para ver. Borrifei uma gota do meu perfume favorito e deixei meu enorme quarto no palácio.
Dereck estava me esperando no corredor. Ele estava perfeito, como sempre. O príncipe era um homem lindo, elegante, bem humorado e eu poderia arriscar defeitos zero. Ao menos para mim, que não tinha segundas intenções com ele. Dereck me protegia de tudo e acho que se ele tivesse sido filho do meu pai, como cogitou algum dia, seríamos melhores amigos irmãos.
No mesmo instante Magnus saiu de seu aposento, acompanhado de sua noiva, Vitória, vestida com uma saia justa e um blazer da mesma cor. Certamente ela havia pagado caríssimo pela roupa que vestia, no entanto me parecia o meu uniforme diário no castelo. Acho que ela deveria escolher alguém para ajudá-la a se vestir melhor, pois o próprio Dereck havia sido bem mais certeiro ao escolher o meu vestido. Nos encaramos por alguns segundos para depois nos olhamos dos pés a cabeça.
- Está muito bela, lady Vitória. – eu menti.
- Eu sei. – ela assentiu com um sorriso largo. – Obrigada pela gentileza.
Gentileza que ela não retribuiu. Magnus, por sua vez, estava usando calças de linho escuras e uma camisa branca com botões claros. O corpo dele ficava absolutamente perfeito naquela roupa. Senti ciúme de Vitória... Mas desta vez mais intenso. Senti inveja, senti vontade de gritar com ela e dizer-lhe coisas horríveis... E senti um pouco de dor dentro de mim, que eu não conseguia explicar.
Nossos olhos se encontraram e ele disse:
- Está linda... Senhorita Lee.
- Obrigada, Alteza.
O clima estava estranho... E tenso. Fiquei ainda mais temerosa sobre o resto da noite.
- Então vamos logo. Não quero chegar tarde. – disse Vitória. – Minha pele e meu corpo precisam de no mínimo oito horas diárias de sono... Acho que não tenho mais idade para estas baladas jovens... Que acha, amor?
Magnus não respondeu e ela refez a pergunta. Ele disse:
- Sim...
Não tenho certeza se ele prestou atenção no que ela realmente disse.
Dereck me deu o braço, que eu aceitei. Descemos as escadas do palácio os dois casais. Quando chegamos ao primeiro andar, encontramos Sofia. Ela também estava linda, num vestido vermelho que brincava com sua pele clara. Dereck ofereceu o outro ombro a ela e fomos para o carro.
A limusine esperava por nós. Quando começamos a andar eu fiquei pensando que quando eu fiz dezenove anos, jamais imaginei que nos meus vinte eu poderia estar numa limusine da rainha, com os dois príncipes, indo comemorar meu aniversário. A vida era cheia de reviravoltas e mistérios. Eu torcia para que os 21 me surpreendessem ainda mais, se é que era possível.
A boate era próxima e o trajeto por sorte era curto. Vitória seguia reclamando, sendo que nem havíamos chegado ainda. Magnus estava estranho, quieto e pensativo. A proximidade de Vitória no castelo nos últimos dias nos afastara bastante. O fato de Sofia ter vindo para o escritório também me deixou um pouco mais tranquila e focada em ensinar as coisas à ela. Tentei manter distância dele também, pois não queria confusão com Vitória.
Assim que chegamos, o carro foi quase invadido por repórteres querendo tirar fotos e entrevistas. Óbvio que nada tinha a ver comigo e Sofia, então deixamos os príncipes e Vitória e subimos as escadas, nos dirigindo até a porta, onde esperaríamos por eles.
- Eu não aguentaria isso. – disse Sofia. – Privacidade zero.
- Faz parte. – eu disse. – Acho até que Dereck gosta.
Ela riu:
- Ele parece à vontade com os repórteres... Mas acho que Dereck fica a vontade com qualquer coisa.
- Verdade.
- Conhecê-los melhor foi algo importante para mim. Jamais pensei que eles fossem assim... – disse ela.
- Sim... Estranho vê-los de forma tão natural quanto vemos quando estamos trabalhando.
- Eu... Nunca vou poder agradecê-la pela oportunidade, Kat.
- Não quero agradecimento, Sofia. Eu sabia que você era capaz.
Percebi que embora Dereck fosse bastante procurado, os holofotes eram mais para Magnus, futuro rei, que casaria em breve com Lady Vitória Grimaldo, filha do Duque Grimaldo, um dos homens mais influentes do reino. Eu sabia que Magnus não gostava muito daquela confusão com os jornalistas, mas ainda assim percebi que ele tentava ser gentil com todos e responder todas as perguntas. Até que veio uma pergunta que o deixou um pouco confuso:
- Alteza, é verdade que você deu um tiro na dama de companhia da sua mãe?
Antes que Magnus pudesse responder, eu já estava lá, para poder resolver a situação constrangedora que parecia surgir.
- Eu sou a dama de companhia da rainha... E estou bem. Isso não é verdade. Já ouvi esta história e sinceramente não sei de onde surgiu, mas é mentira.
Logo os seguranças da boate e os guardas tentaram dissipar os repórteres e os príncipes subiram até a boate. Antes de entrarmos, Magnus disse:
- Obrigado.
Eu não falei nada. Assenti com a cabeça e entrei.
A boate era enorme e linda. Eu nunca havia estado num lugar assim em toda a minha vida. Dereck havia reservado um espaço para nós e logo avistamos Kim esperando sentado. Diana havia se recusado a vir, pois não aceitava muito bem minha boa relação com os príncipes. Ela era uma anti monarquista que queria a queda da coroa e dos reis. Eu fiquei triste por ela não ir, mas também entendia os motivos e os respeitava.
Quando vi Kim corri até ele e nos abraçamos com força.
- Feliz aniversário, princesa. – ele olhou para todos e disse: - Desculpem, mas eu sempre a chamei assim.
Parece que o título dado por meu amigo não preocupou os príncipes, o que não ocorreu com Vitória, que começou a lhe explicar algo sobre a diferença entre o título de princesa e duquesa. Eu não dei importância alguma. Fiquei olhando para o lugar. Estávamos instalados no maior camarote, no andar de cima, de onde tínhamos a vista privilegiada de tudo. Logo chegaram as mais variadas bebidas e águas. Dereck abriu um espumante e todos pegaram suas taças:
- Longa vida à Katrina Lee.
Todos brindaram e eu bebi minha bebida favorita lentamente. Mas meus olhos não desgrudavam da porta de entrada. Eu esperava ansiosamente por Dom. Estava com saudade. Não o via há tempo. Sabia que seria um pouco estranho ter ele e Magnus no mesmo ambiente, mas não havia o que fazer. Eu não tinha planejado tudo aquilo e os dois eram adultos o suficiente para saberem se comportar. Além do mais, Magnus estava com sua noiva, então eu esperava que ele não fizesse nada que pudesse deixar Dom se sentir desagradado de alguma forma.
- Acho que ele não vem.
Virei abruptamente e quase encostei meus lábios nos de Magnus, que falava ao pé do meu ouvido. Fiquei um pouco encabulada com a situação, no entanto respondi:
- Ele virá... Eu sei que virá.
Servi outro copo de espumante. Kim disse:
- Controlem esta menina. Ela definitivamente não lida bem com bebidas alcoólicas.
- Então é tudo que ela precisa hoje. – gritou Dereck para ser ouvido entre o som alto que tocava.
Dereck encheu os copos novamente. Eu não imaginava, mas Vitória dançava e até sabia se divertir... Grudada em Magnus, claro. Sensualmente ela dançava junto do corpo dele, me deixando tão tensa que eu podia sentir cada músculo dentro de mim. Quando peguei a quarta taça cheia, eu disse:
- Vou descer.
- Como assim? Eu reservei este espaço aqui para nós. Não precisa ir para a multidão. – disse Dereck.
- Eu... Sou a multidão.
Falei saindo sem dar importância. Os camarotes próximo só tinham olhos para o nosso. Fotos e selfies eram tiradas o tempo todo tentando flagrar os príncipes em qualquer momento de diversão. Desci as escadas já me sentindo mais leve por causa do álcool. E quando cheguei na pista comecei a dançar. Eu amava dançar e me divertir e muitas vezes eu e Kim íamos sozinhos nos finais de semana aos lugares somente para dançarmos. Mas agora Kim estava fixo em Dereck, seu ídolo, então não tinha tempo para mim. Mesmo de longe, eu conseguia sentir o olhar de Magnus sobre mim. Senti alguém agarrar-me pela cintura e estava preste a reclamar quando vi Dom, sem máscara, com seus cabelos lisos desalinhados e seus olhos me recriminando. Ele usava um casaco de couro preto, que contrastava com sua pele clara e seu cabelo loiro, e usava dois brincos pequenos de argolas em uma das orelhas. Eu não pensei duas vezes. O agarrei e o trouxe para junto de mim, o beijando com toda a saudade que minha boca e meu corpo sentiam dele. Nosso beijo era sempre intenso e cheio de calor. Nossas bocas se conheciam e nossas línguas se entendiam perfeitamente. Logo ele não resistiu e passou as mãos pelo meu corpo com um desejo intenso que eu sabia que ele sentia, fazendo com que eu começasse a suar. Sempre que eu estava com Dom, o tempo podia parar que eu não me cansaria de ficar ali para sempre. Quando começamos a ficar excitados demais para o local, eu o soltei e disse:
- Obrigada por ter vindo.
Ele não disse nada, só me abraçou com carinho, seguindo o ritmo da música comigo nos seus braços. Como eu queria poder ter certeza de que eu só queria ele para sempre. No entanto meus olhos queriam ver Magnus e quando eles se encontraram com os dele eu não sei se eu me sentia vingada ou chateada. Doía-me ver ele com Vitória e talvez ele também tivesse este sentimento a me ver com Dom.
- A realeza está por aí? – ele perguntou.
- Sim... Kim também.
- Então eu não vou me escapar deles hoje.
- Não mesmo. – eu disse sorrindo e pegando-o pela mão, subindo até o camarote.
Quando chegamos fiz as devidas apresentações, mas exceto Vitória, todos já se conheciam. Por sorte foram sensatos e educados. Talvez Magnus já não estivesse mais interessado em mim como eu imaginava.
Todos bebiam, exceto Magnus. Dereck disse:
- Vamos, Magnus, bebe um pouco e talvez você se divirta.
- Não. – ele foi irredutível.
Dom, por sua vez, começou a beber junto. Ele havia deixado de ir no encontro anti monarquia por minha causa e para mim aquilo era um sinal de que eu era importante para ele de alguma forma.
Vitória passou a fazer perguntas para Dom e eu não gostei. Ela já tinha Magnus, que deixasse Dom em paz. Mas acho que eu havia bebido o suficiente para não arranjar mais brigas e só curtir o momento. Meu corpo estava leve e eu estava feliz.
- Onde vocês se conheceram? – perguntou Vitória.
- No hospital onde Domênico trabalha. – expliquei.
- De que Zona você é? – perguntou ela a Dom.
- Para mim isso não faz diferença... Ou pelo menos não deveria. – ele disse firmemente.
- Você não parece um médico. – observou ela.
Ele riu:
- Eu não sou um médio... Eu sou uma pessoa normal... Médico é minha profissão.
Vitória parecia também ter bebido demais. Ela estava mais alegre e sorridente e falava algumas coisas sem sentido. Quando fui beber outro copo, Magnus tirou da minha mão.
- Você já bebeu o suficiente.
Todos ficaram olhando para ele confusos, inclusive eu. Como assim? Ele não mandava em mim.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







