FAZER LOGINDepois de dez dias, Dom liberou Magnus para ir para casa. Neste tempo eu só consegui ir vê-lo uma vez. Então não conseguimos conversar sobre mais nada. Num dos dias, mesmo sem Magnus, recebemos a ilustre visita de Vitória, tentando tirar de Dereck o lugar onde seu noivo estava. Eu acredito que Magnus tenha ligado para ela da casa de Dom. A rainha Anne era inteligente, mas pareceu engolir a história também.
Naquela manhã, quando cheguei ao escritório dos príncipes, Magnus já estava lá, lindo, radiante e perfeito, como sempre.
- Alteza... – eu cumprimentei curvando-me quando o vi sentado em seu lugar.
- Não precisa fazer isso, senhorita Lee... Dispenso.
- Acho que não precisamos mais destas formalidades quando estivermos sozinhos, Kat. – disse Dereck. – Concordo com Magnus.
Eu iria responder quando Sofia chegou, curvando-se aos príncipes, que não disseram nada. Então dei de ombros. Talvez eu já tivesse bem mais intimidade com eles do que ela. Eu só tinha medo de esquecer de fazer aquilo perto de outras pessoas, chamando Magnus pelo nome e não de Alteza.
- Não estarei aqui à tarde. – disse Magnus. – Preciso que providenciem a entrega dos alimentos que ainda temos à Zona K.
- Providenciaremos. – disse Dereck. – Aonde você vai? Já pode fazer sair por aí como se nada tivesse acontecido?
Sofia olhou-os sem entender muito bem o que estava acontecendo.
- Estou ótimo. Pronto para a próxima. – disse Magnus. – Mas espero que Katrina não se arrisque novamente nos próximos dias.
- Não posso garantir isso, Alteza. – falei sorrindo ironicamente.
O restante da manhã foi de muito trabalho. Nem tive tempo de conversar melhor com Magnus e saber como havia sido o restante da estadia na casa de Dom. Tinha vontade de saber se Dom continuou a ser sarcástico, mas que diferença fazia aquilo? Dom havia cuidado dele e isso não tinha preço. Eu esperava que os dois pudessem dar uma trégua daquele momento em diante.
Assim que o relógio anunciou meio-dia eu fui almoçar. Quando retornei Magnus não estava mais no escritório. Fiquei curiosa de onde ele poderia ter ido sem nos avisar.
Mas logo eu soube o que tinha acontecido, da pior maneira possível, quando a rainha Anne adentrou no escritório dos príncipes.
- Sozinha, Katrina Lee? – ela perguntou vendo que Dereck e Sofia ainda não haviam chegado.
- Sim, Majestade. – falei levantando e me curvando de forma rude.
- Fiquei sabendo de fonte segura que você foi atacada.
- Eu... Não sei do que vossa Majestade está falando.
- Um tiro... Que acabou atingindo a pessoa errada.
Seria ela a mandando do tiro que feriu Black ao invés de mim naquela noite?
- Encontros rebeldes são repletos de surpresas, Majestade. Isso sempre pode acontecer. – arrisquei.
Ela olhou para o lugar de Magnus e disse:
- Não sei se Magnus retorna hoje. Levou Vitória para País del Mar. Ela foi comprar a roupa para a festa do noivado. Ele fez questão de levá-la. Magnus sempre foi muito gentil com Vitória.
Eu engoli em seco. Magnus havia saído com Vitória, para comprar um vestido? Por que ele não me disse? Parecia que a frase que ele havia dito que ficaríamos juntos havia sido da boca pra fora. Eu estava cada vez mais insegura com tudo que estava acontecendo.
- Acha mesmo que você viria da Zona E, entraria no “meu” castelo e levaria “meu” filho, futuro rei de Noriah e ficaria tudo bem? – ela riu ironicamente. – Em que lugar você leu que garotas como você se dão bem no final?
- Eu deveria ler isso nas leis de Noriah Sul, onde deveria constar que todos os cidadãos do reino teriam direitos iguais: à saúde, educação...
- Não me venha com seu discurso anti monarquia barato que já estou enjoada dele.
- Este discurso vem crescendo nos últimos tempos... – alertei.
- Não enquanto eu pude impedir. E você sabe que eu farei isso. Dei-lhe asas demais, agora é hora de cortar. Quero você fora do meu castelo, da minha casa, da minha vida e da vida dos meus filhos.
Eu senti um medo enorme se apossando de mim. Ainda assim olhei nos olhos dela e disse:
- Eu não sairei até que Magnus me mande embora. Só vou sair no dia em que ouvir da boca dele que não me quer mais aqui.
- Este dia está chegando, querida. Espere... Está chegando...
Ela foi saindo. Eu levantei e disse enquanto ela estava de costas:
- Majestade, eu não tenho medo de você.
Ela não se virou para responder, embora eu tenha certeza de que ela ouviu nitidamente. Sentei sentindo meu coração bater descompassadamente e minhas pernas trêmulas.
- Magnus, o que eu estou fazendo por você? – falei em voz alta.
Logo Dereck chegou seguido de Sofia e eu tentei seguir meu trabalho, mesmo depois de tudo que havia acontecido. E eu não falaria para ninguém nem reclamaria com Dereck ou Magnus. Não adiantava. Aquela batalha entre mim e Anne Marie Chevalier era só nossa. Ninguém poderia se meter.
Dereck recebeu uma ligação em torno de três horas da tarde. Eu já o conhecia quando ele estava nervoso ou preocupado. Ele começou a falar monossilabamente, me olhando fixamente. Meus olhos claros encontraram os olhos castanhos dele e eu vi que algo não estava bem.
- O que houve? – perguntei enquanto ele ainda estava falando com a pessoa do outro lado da linha.
- Ok... Pode deixar. – ele disse desligando a ligação.
- Fale o que aconteceu... – eu pedi, já sabendo que não era algo bom.
- Recebi uma ligação da sua família... Seu pai...
- Ele piorou? Está no hospital?
- Ele... Morreu.
Eu havia entendido muito bem o que Dereck falou, mas parecia que não era verdade. Adolfo Lee não podia estar morto: ele era o meu pai. Olhei para ele novamente e disse:
- Isso... Não pode ser.
- Ele... Suicidou-se.
Senti tudo girar na minha volta e segurei-me com força na mesa que estava à minha frente. Meu pai havia se matado? Um homem com depressão profunda, atrelado à uma cama, sozinho num quarto, sem receber nenhum tipo de amor, carregando uma culpa que jamais conseguiu tirar de si, havia tirado a própria vida numa tarde de verão. Eu levantei e senti Sofia junto de mim, me abraçando.
- Eu sou a culpada... – falei.
- Kat, você não é culpada de nada. – disse Sofia.
- Eu o deixei lá... Sozinho... Ele só tinha a mim.
- Kat, isso não é verdade. Você não tem culpa do que houve. – complementou Dereck, também me amparando. – Eu vou tentar encontrar Magnus.
- Não. – eu falei em voz mais alta que o normal. – Não quero que chame Magnus. Ele está em País del Mar, com Vitória. Deixe que ele aproveite seu dia com sua noiva. Não quero incomodar o príncipe com meus problemas.
- Ele está... Com Vitória? – falou Dereck confuso e exaltado.
- Dereck... Poderia providenciar um carro para me levar até lá minha casa? Por favor...
- Eu vou com você, Kat. Não a deixarei sozinha. Sofia, cuide de tudo por aqui.
- Podem ir, Alteza. Cuidarei de tudo. Kat, se precisar de algo, me chame, por favor.
- Obrigada, Sofia.
Dereck me conduziu até o seu carro, onde o motorista já nos esperava.
- Dirija para a casa de Katrina. – ordenou ele.
Eu sentei-me atrás com Dereck. Aceitei seu ombro amigo enquanto as lágrimas escorriam por meus olhos. A dor que eu sentia dentro de mim era tão intensa que eu não lembro de ter sentido algo tão forte na minha vida inteira. Eu não queria conversar e Dereck entendia isso. Ele não falou nada durante todo o trajeto, só segurou minha mão com carinho e me deixou chorar até molhar seu casaco.
Quando cheguei em frente à minha casa, vi Leon sozinho sentado no muro, como eu fazia quando era criança e veio à minha mente tantos momentos da minha infância que me fizeram chorar ainda mais.
Saí do carro e abracei Leon, que não chorava. Eu nem sabia se ele entendia exatamente o que estava acontecendo. Quando ele viu Dereck saindo do carro, me largou e pulou no colo do príncipe, dizendo:
- Deck, você trouxe sorvete de morango?
- Desta vez eu não trouxe. – lamentou Dereck. – Mas eu posso levá-lo para comprar.
- Não precisa comprar mais. Kim trouxe sorvete de morango.
- Kim está aí?- perguntou Dereck.
- Sim... E ele trouxe muito sorvete de morango para mim e para Kat.
Eu entrei, seguida de Dereck e Leon. Kim estava sentado com minha mãe na cozinha. Laura Lee era uma mulher forte, mas certamente a morte de Adolfo Lee não a perturbava como a mim. No fundo eu acho que minha mãe estava até feliz por meu pai ter tirado a própria vida. Quando ela me viu, embora eu percebesse que ela não havia chorado, dava para ver que estava abatida. Ela levantou e veio até mim e tentou me abraçar. Eu a afastei e disse:
- Não... Não quero que me toque.
- Kat... Eu sei como você se sente.
- Não, você não sabe. Você só imagina... Você nunca sentiu por ele o que eu senti... Certamente sou a única a chorar por ele, não é mesmo? – falei sentindo a dor dentro de mim.
- O que você esperava? Isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, minha filha.
- E você esperava para que fosse o mais breve possível, não é mesmo?
Kim levantou e veio até mim:
- Você não precisa ferir sua mãe. Olhe para mim. – ele disse olhando nos meus olhos. – Ninguém tem culpa do que houve... Era para ser assim. Adolfo quis assim...
- Como ele fez isso? – perguntei com raiva.
- Um tiro.
- Como podem ter certeza de que foi ele que fez isso? Pode ter sido assassinato.
- Não foi, Kat... Ele se matou.
- Meu pai... Tinha uma arma dentro de casa?
- Sim...
- E eu nunca soube disto?
Ela me olhou e não disse nada. Quem deixa uma arma dentro da casa de um depressivo? Minha mãe, na torcida para que um dia ele tivesse coragem para fazer o que fez. Eu senti tanta raiva dentro de mim, misturada com a dor que eu sentia... Fui para meu quarto e me joguei na cama e deixei que as lágrimas viessem ainda mais quentes e cruéis, doendo cada pedaço dentro de mim.
Nem meu quarto parecia me pertencer mais. Eu me sentia morando em outro lugar e minha casa era onde eu visitava minha família. Por tanto tempo minha vida se resumiu a Magnus, Dereck, Dom e a própria rainha que eu me esqueci de meu pai. Vinha em casa sempre às pressas e mal tinha tempo de vê-lo. Não havia um dia sequer que não conversávamos e que eu não o fazia sorrir. Mas desde que me mudei para o castelo de Noriah, nossas conversas passaram a ser duas vezes no mês, sempre mais sérias e eu não lembrava mais da última vez que o vi sorrindo. Mas eu o vi sim, depressivo, triste e se acabando aos poucos ao meu lado e ainda assim eu não fiz nada para impedir.
Kim e Dereck entraram no quarto. Kim me abraçou e Dereck ficou ali, sem dizer nada. Mas a presença deles me acalmava de alguma forma. Era bom saber que existia amor ali... E eu sentia amor e carinho neles. E isso me acalmava.
- Você pode chorar... O quanto quiser. Mas não vai se culpar, nem culpar sua mãe pelo que houve. – disse Kim.
- Onde está seu irmão? – perguntou Dereck.
- Kevin... Minha mãe avisou Kevin? – perguntei confusa.
Levantei e fui até ela, perguntando:
- Onde está Kevin?
Ela abaixou a cabeça e não me disse nada.
- Mãe, você avisou Kevin? Por que ele não está aqui?
- Kevin está preso... Na Zona K.
Meu mundo desabou sobre minha cabeça. O que havia sobrado da família Lee? Meu pai estava morto, Kevin estava preso... Só restava eu, minha mãe e Leon, tão frágil e desprotegido. Minha responsabilidade, antes grande, agora era imensa. Eles dependiam de mim para tudo. O que eu faria? Como cuidaria deles? Não bastava mais dar dinheiro. Eles precisavam de mim.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







