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Capítulo 97 - O casamento real

last update Data de publicação: 2021-06-28 06:39:24

Quando os sinos bateram eu respirei fundo. Kim colocou o véu, tapando meu rosto e eu entrei na igreja. O plano era perfeito, tirando o fato de que Magnus não sabia que eu estava viva, muito menos que havia roubado o lugar da sua noiva.

Eu sentia que todos podiam ver e ouvir os saltos do meu coração enquanto eu andava lentamente, segurando um buquê de flores brancas, diferente do de rosas vermelhas que Vitória usava. Não me lembro de ter demorado tanto para andar alguns metros em toda a minha vida. Eu via tantas pessoas que eu não conhecia... Os flashes das máquinas, celulares e filmadoras ofuscavam minha visão em alguns momentos. No entanto eu conseguia ter uma visão do meu príncipe ao longe. Eu sorri, mesmo que ninguém visse, sob meu véu para minha querida irmã, que estava sentada na fileira do corredor, num lugar especialmente reservado para ela. E o sorriso não visto foi retribuído de uma forma tão gentil e intensa que aqueceu meu coração e me deu forças para seguir quando eu sentia que quase me faltava o ar de tanto nervosismo.

Foi então que eu vi o meu Magnus parado no altar, de braços para trás, usando uma roupa diferente do que eu esperava: conjunto preto com camisa branca, mas não social, como ele costumava usar. Tinha várias insígnias e brasões pelo casaco pesado e pela primeira vez usava uma coroa na cabeça. Olhei nos olhos dele, mas ele não me reconhecia debaixo do véu. Vi tristeza em seu olhar e naquele momento eu tive certeza absoluta de que ele não queria casar com Vitória, mas havia aberto mão da sua própria escolha em função do bem estar da minha família.

Quando cheguei ao altar principal, vi a rainha sentada ao lado de Dereck num local com visão privilegiada e reservado somente para a realeza. Ela usava um vestido longo e clássico perfeito, digno de uma rainha. E Anne ostentava uma coroa imponente em sua cabeça.

Magnus segurou minha mão e me conduziu ao altar. Eu apertei a mão dele, mas fui correspondida. Quando chegamos em frente ao padre, Magnus levantou meu véu. Então eu não vi mais nada que existia naquele lugar além da imagem dele. Nossos olhares se encontraram e eu senti todos os sentimentos possíveis naquele momento vindos dele: amor, compaixão, surpresa, tristeza e incredulidade.

- Você? Está viva? – ele perguntou confuso e cheio de dúvidas, com uma voz que pareceu sair com dificuldade.

Quando fui responder percebi as conversas alteradas por todos os lados e várias pessoas em nossa volta tirando fotos. Eu não queria que fosse daquela maneira. Eu havia planejado lhe contar num lugar seguro, somente nós dois, longe de todas aquelas pessoas estranhas que não conheciam a nossa história. Mas Dereck achava que tinha que ser daquela forma. No fim eu concordei... Afinal, entre mim e Magnus nunca foi nada de uma maneira comum.

- Foi um plano para salvar minha vida. – confessei. – Mas não houve um dia que eu não pensei em você.

- O que... Você faz aqui? – ele perguntou deixando as lágrimas escorrerem por seu rosto. O príncipe estava chorando... E era por mim. Aquele momento ficaria para sempre gravado na minha memória, como a tatuagem que eu havia feito para ele.

- Prendam esta mulher. – gritou a rainha levantando furiosa.

- Não. – gritou Magnus. – Ninguém encosta nela. – ele limpou as lágrimas com as costas das mãos, agressivamente, mas não se importando que as pessoas o tivessem visto chorar.

Eu fiquei imóvel, com guardas vindos de todos os lados, incertos se seguiam ordens da rainha ou do príncipe, que era o futuro rei.

- Ela matou o seu pai. – disse a rainha.

- Não... Eu sei que ela não matou meu pai. Eu estava com ela a noite inteira... E eu falei isso para todos, inúmeras vezes. – ele disse me olhando novamente, tentando se explicar.

- Foi tudo um plano... E desta vez você não teve como me salvar. – eu argumentei.

- Ela é culpada. As digitais dela estavam no punhal... Bem como as do seu amante. – gritou a rainha fazendo com que todos escutassem suas palavras cruéis e ofensivas.

- Acabaram de prender o culpado pela morte do rei Alfred Chevalier. – disse Dereck. – Ele já está detido e em breve será julgado.

- Mas... Como assim? – perguntou Anne confusa.

- Acabo de receber esta informação. – falou Dereck mostrando o celular em sua mão.

- Isso tudo é uma armação para esta garota sair impune. – disse Anne. – Guardas, mandei prendê-la.

- Eu não sou culpada pela morte do rei. – falei em voz alta para ser ouvida por todos. – Eu estava com Magnus naquela noite... Foi quando ele me pediu em casamento. E eu aceitei. E é por isso estou aqui neste momento.

- Você... Simulou a própria morte? – perguntou ela.

- Para poder me manter viva. Uma recompensa enorme foi oferecida por mim... Não tive nem chance de me defender, pois vossa Majestade me culpou desde o início.

- Suas digitais estão no punhal.

- Sim, pois ele era meu... Tinha inclusive minhas iniciais.

- E por que você tinha um punhal dentro do castelo se não tinha intenção de usá-lo?

- Para me defender... Fui vítima de duas tentativas de assassinato dentro do castelo de Noriah.

Ela me olhou deixando transparecer toda raiva que sentia por mim naquele momento. Eu tive medo, mas continuei:

- Magnus, eu juro que se você não quiser casar comigo, eu vou embora neste momento e nunca mais voltarei a vê-lo ou importuná-lo.

Ele me olhou com o brilho que só ele tinha no olhar e disse docemente:

- Eu jamais faria isso... Eu a pedi em casamento. Você é a única mulher que eu amei em toda a minha vida.

Novamente o burburinho foi geral.

- Jamais aceitarei isso neste castelo. Eu sou a rainha de Noriah e exijo que você abra mão da coroa ao se casar com esta mulher. – disse Anne.

- Magnus, quero que conheça minha irmã, Eva Lee. – eu disse em voz alta para ser ouvida por todos.

Neste momento Eva saiu de seu lugar, com seu vestido midi angelical e simples, algumas mechas dos cabelos presas de forma profissional, sem nenhum fio solto, com suas mãos enlaçadas abaixo do ventre. Todos os olhares ficaram sobre Eva e o silêncio tomou conta da igreja.

Eva ficou na nossa frente e disse:

- É um prazer conhecê-lo, Magnus.

Ela não usou o termo Alteza e isso deixou todos impressionados com a ousadia da garota.

- Magnus, esta é Eva, nossa irmã. – eu expliquei.

Não era necessário muita explicação. Todos naquele lugar sabiam do que se tratava. Eu não queria que Magnus fosse metralhado com tantas informações juntas, mas não havia como ser diferente. Tinha que ser daquela forma com a rainha: uma coisa em troca de outra. Eu peguei nas mãos dele e disse:

- É uma longa história... Soubemos há pouco tempo.

Eva me deu um abraço e outro em Magnus, ficando mais tempo com ele. Magnus ficou confuso, mas retribuiu o abraço. Depois Eva sentou-se no espaço resevado para a realeza. Dereck sentou ao lado dela, dizendo:

- Venha mamãe, vamos assistir ao casamento de Magnus e Katrina em família... Afinal, acho que somos todos da mesma família no fim. – o tom dele foi de pura ironia.

Olhei para minha mãe, sentada com Leon e Kim num banco um tanto quanto longe e ela sorriu. Eu sabia que ela também se sentia vingada naquele momento.

O padre nos olhou e disse em voz baixa:

- Alteza, deseja que eu realize este casamento?

- Sim. – disse Magnus sem nenhum dúvida.

Eu olhei para ele. Ainda tínhamos as mãos enlaçadas. Eu não conseguia largá-lo... Acho que não faria isso nunca mais. Ele me olhou e parece que o mundo parou naquele momento e só tinha nós dois ali. Ele se aproximou de mim e beijou-me... Sua língua procurou a minha com pressa e ao mesmo tempo ternura.  Era amor e saudade que guardamos por tanto tempo que era selado na forma de um beijo. Ouvimos palmas ecoando pela igreja. Quando ele me soltou, disse:

- Achei que jamais veria você novamente... Ou a sentiria junto de mim.

- Também pensei isso. Mas estou aqui agora. E vamos ficar juntos... Para sempre. – eu disse sorrindo.

A rainha Anne Marie Chevalier sentou-se no lugar que lhe era reservado. Eu não olhei para ela, mas acredito que ela não tenha assistido ao casamento. Eu imaginava o que ela sentia dentro de si naquele momento. Era uma raiva que tomava conta de todo seu corpo, assim como eu me sentia quando pensava em tudo que ela havia feito para me incriminar injustamente.

O padre deu seguimento à cerimônia de casamento. No momento das trocas das alianças, Magnus disse:

- Eu não posso dar isso a você. – quando olhou o par de ouro circular alguns brilhantes.

Dereck levantou e lhe entregou o anel do pai, que eu havia recebido no dia em que fugi do castelo. Magnus sorriu para o irmão e disse:

- Claro que você estava por trás disso tudo.

- Sempre estarei, irmão.

- Mas ainda vamos conversar seriamente sobre você ter me escondido tudo isso.

- Não vou fugir desta conversa.  – garantiu Dereck.

Quando Magnus foi colocar o anel, vi tatuado na sua mão, acima dos dedos: “Katnus”, juntamente com o desenho de duas máscaras. Eu não consegui segurar as lágrimas. Magnus, com o dedo indicador, tocou na lágrima que caía próxima do meu queixo e fez o caminho com os dedos até meus olhos. Sim, não haveria mais lágrimas. Eu já havia chorado tudo que podia. Era hora de viver a minha felicidade.

- Katrina Lee, quero você para sempre.

Eu coloquei a aliança no dedo dele e disse:

- Magnus Chevalier, eu quero você para todo o sempre. Vou amá-lo enquanto eu viver.

Ele me beijou. E então eu realizei o meu sonho de casar com o homem da minha vida, de uma forma surpreendente. E mesmo que parecesse um sonho, era real. Magnus estava ali e eu olhei para o anel no meu dedo, tendo a certeza de que eu havia feito a maior e melhor escolha da minha vida. Tudo era perfeito e eu poderia dizer que viveríamos felizes para sempre, exceto pelo fato de que eu tinha que matar uma rainha antes.

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