LOGIN— Sofia! Graças a Deus! Você atendeu!A voz dele chegava entrecortada, com um chiado de fundo, como se viesse de um lugar com eco. O coração dela disparou. Sofia encostou a testa no vidro da janela, e o calor do sol atravessou a pele, enquanto ela procurava o que dizer.— Onde você estava? Meu Deus, Gabriel, o que aconteceu? Eu esperei por você!— Eu sei, meu amor. Sinto muito. Acabei de recuperar meu telefone. Fiquei preso por vinte e quatro horas.— Preso? Como assim?— Fui confundido com outra pessoa. Estava a caminho do nosso encontro quando fui abordado. Tentaram me identificar, disseram que havia uma ocorrência envolvendo alguém com minhas características e acabaram me levando. Não adiantou explicar. Fiquei lá até conseguirem esclarecer tudo.— Meu Deus... Gabriel!— Eu não tinha como avisar você. Fiquei sem telefone, sem conseguir falar com ninguém. Assim que me liberaram e devolveram minhas coisas, a primeira coisa que fiz foi ligar para você.Sofia levou a mão à testa. As lág
Sofia demorou mais do que pretendia no quarto. Escolheu um vestido leve de algodão claro entre os que alguém havia pendurado no closet, passou a escova pelos cabelos até desfazer o que restava do penteado de noiva e guardou o celular no bolso. Pela janela, o morro descia em degraus de telhados e caixas d'água, e o ronco de uma moto subindo a ladeira chegava abafado pelo vidro. Ela ficou ali um instante, os dedos apoiados no parapeito frio, antes de abrir a porta.A escada tinha cheiro de madeira encerada. Conforme descia, outro cheiro foi se juntando a ele: alho dourando na manteiga, alguma coisa assando com ervas. O corrimão estava liso sob a palma de sua mão. De algum ponto da casa vinham passos rápidos e o tilintar de louça sendo disposta.Ainda tentava se acostumar com tudo aquilo quando encontrou Lívia na sala, de costas, montando um arranjo de flores. Com uma tesoura pequena nas mãos, ela cortava alguns caules, retirava folhas e escolhia cuidadosamente onde encaixar cada flor em
O carro seguiu pelas ruas enquanto Sofia tentava prestar atenção ao caminho. Sob a renda do vestido, podia sentir o contorno do celular que escondera ali antes da cerimônia, preso à cintura. Era a única coisa que ainda a ligava ao que tinha deixado para trás.No início, tudo parecia familiar. Prédios, avenidas movimentadas e estabelecimentos comerciais passavam pela janela. Ela imaginou que Dante a levaria para alguma mansão afastada ou um condomínio de luxo.Mas, depois de alguns minutos, o cenário começou a mudar.As ruas ficaram mais estreitas. Os prédios deram lugar a casas construídas muito próximas umas das outras, algumas empilhadas nas encostas do morro. Fios atravessavam as ruas de um lado a outro, pequenos comércios ocupavam as esquinas e músicas diferentes vinham de casas próximas. O cheiro de fritura e de roupa recém-lavada entrava pela fresta da janela. Havia crianças brincando nas calçadas, moradores conversando nas portas e motocicletas passando pelos becos.Sofia olhou
Augusto segurou a mão de Sofia por um instante antes de colocá-la sobre a de Dante.Ela sentiu os dedos do pai se afastarem. Por um momento, teve vontade de olhar para trás, como se ainda existisse alguma possibilidade de voltar pelo mesmo caminho.— Sofia — Dante chamou, em voz baixa.Ela voltou os olhos para ele.— Dante Ferraz. Embora imagine que já saiba disso.Sofia sustentou seu olhar por um instante.— Seria difícil não saber. Meu casamento inteiro foi organizado em torno do seu nome.Um breve movimento surgiu no canto da boca dele, quase um sorriso.— Justo.Ela não esperava aquela resposta. Muito menos a tranquilidade com que ele a recebeu.Dante ofereceu o braço.— Vamos?Sofia hesitou antes de aceitá-lo.Só então conseguiu observá-lo melhor. Ele era alto, tinha ombros largos, cabelos escuros cuidadosamente arrumados e um rosto de traços marcantes. O terno preto parecia feito sob medida. Havia algo em sua postura que transmitia autoridade, como se não precisasse levantar a v
Sofia mal conseguia prestar atenção ao vestido que estava escolhendo. Seus pensamentos continuavam presos a Gabriel e ao silêncio que se seguira à tentativa frustrada de fuga.— Esse vestido serve — disse Sofia, saindo do provador.Helena ergueu os olhos e examinou a filha de cima a baixo.— Você nem olhou direito para ele.— Não preciso olhar. Está bom.— Sofia, você vai se casar amanhã! Poderia ao menos demonstrar algum interesse!— Isso faria alguma diferença, mãe?Laura soltou uma risadinha, acomodada no sofá de veludo do ateliê.— Deixa ela, mamãe. Parece que não está nem um pouco feliz por ajudar a família. Que ingrata!Sofia lançou um olhar duro à irmã.— Não estou com paciência para você, Laura.— E eu só estou tentando ajudar. Afinal, não é todo dia que alguém consegue um marido rico sem precisar fazer o menor esforço.— Já chega, Laura — repreendeu Helena, voltando a atenção para a filha mais velha. — Gostei desse modelo. O caimento está bonito, e a renda combina com você. V
Sofia ligou o carro e deixou a praça para trás, contendo a angústia que ameaçava dominá-la. Tinha saído da mansão naquela manhã acreditando que finalmente conseguiria escapar do casamento arranjado. Agora, estava voltando sozinha.Quando chegou à garagem da propriedade, permaneceu alguns segundos com as mãos firmes no volante, olhando para a entrada imponente da mansão. Respirou fundo, forçou uma expressão tranquila, pegou a bolsa e a mochila no banco do passageiro e saiu do veículo.Ao entrar em casa, encontrou uma das funcionárias organizando alguns vasos de flores no aparador do corredor.— Já voltou, senhorita Sofia? — perguntou a mulher, erguendo os olhos.— Já. Resolvi voltar mais cedo...A resposta saiu rápida demais, mas a funcionária apenas assentiu e não fez outras perguntas.Sofia aproveitou a oportunidade para subir as escadas, tentando manter a postura tranquila até alcançar a segurança de seu quarto. Assim que fechou a porta e girou a chave na fechadura, largou a bolsa s







